Caminhava, estugando o passo por um caminho que memorizara durante o regresso dessa manhã ao centro. Em pouco tempo, chegou à Calle della Masena e parou junto da porta da tenda. Segurou na aldraba da porta para bater por quatro vezes, anunciando a sua chegada. Saul dissera-lhe que fecharia a loja cedo e que batesse quatro vezes, pois assim saberia quem era – acrescentara que a maioria dos visitantes, não sabia bem porquê, batia sempre três vezes. À hora a que tinham combinado o encontro, o estabelecimento já deveria estar fechado aos clientes, dissera. Nessa altura, a porta foi aberta e um homem, muito alto e forte, saiu. Sob a aba do grande chapéu viu uma barba negra e abundante. Vestido com simplicidade, tinha um porte marcial e uma espada, cuja lâmina sobressaía atrás sob o mantel escuro. Levou os dedos à aba numa saudação e fez uma ligeira vénia, afastando-se com passadas calmas, mas largas. Deixara a porta entreaberta para que Lourenço pudesse entrar. «Cheguei demasiado cedo e cruzei-me com a pessoa que Navarro queria evitar que eu encontrasse», pensou.
Parado na soleira, segurando a porta, chamou vezes repetidas, em voz crescentemente elevada. Não obtendo resposta, resolveu avançar. Como sucedera nessa manhã, a campainha colocada no topo da porta retiniu, ecoando estranhamente no silêncio que imperava no interior. Na escuridão, agravada pelas sombras do entardecer, orientou-se como pôde no labirinto de pilhas de livros, pelo tacto e também pela recordação do caminho percorrido nessa manhã até junto da mesa de trabalho do livreiro. Chegou ao fundo da loja, agora pouco iluminada pela luz do crepúsculo que entrava coada pelos vidros poeirentos da fresta. Em frente da mesa de trabalho, de costas, tal como nessa manhã, estava sentado o livreiro. Parecia dormir, com a cabeça debruçada para a frente e apoiada sobre os braços que repousavam sobre o tampo. Talvez, fatigado, tivesse resolvido descansar enquanto aguardava a chegada de Lourenço. Chamou-o pelo nome, primeiro em voz baixa e aumentou o volume da voz. Como Saul não respondia, tocou-lhe primeiro no ombro e depois no braço. Não obteve resposta. Quando, alarmado com o silêncio e a imobilidade do livreiro, deu a volta à cadeira, pôde ver que o homem não dormia, como supusera. Apresentava uma profunda ferida na garganta, parecendo ter sido agarrado por detrás enquanto o degolavam.
Estava morto, com o corpo ainda tépido, mas sem pulsação. Não morrera, portanto, há muito tempo, pois só agora o corpo começava a ficar rígido. Com os olhos abertos, tinha contudo um ar sereno. Quando lhe ergueu a cabeça e a encostou ao espaldar da cadeira, verificou que o corte fora transversal, praticado da direita para a esquerda, e muito profundo, cortando carótidas, a jugular, a traqueia, quase atingindo as vértebras cervicais. Uma quase degolação, o trabalho perfeito de um esquerdino, digno de um cirurgião. O sangue, além de um jorro que, por certo na altura do crime, atingira a parede fronteira, por debaixo da janela, escorrera-lhe depois pela brancura da camisa e tinha vindo formar uma poça no chão, junto dos pés, salpicando-lhe os sapatos.
Fechou os olhos a Navarro. Lembrou-se da pergunta que lhe fizera, quando o ouvira a entrar: «Sara, che ci fai qui così presto?». Talvez tenha feito uma pergunta semelhante ao assassino quando ouviu a campainha da porta tocar e os seus passos encaminhando-se até si. Um espia tem de estar sempre atento, pensou, sendo de estranhar que um homem com a experiência do livreiro, fosse tão confiante. Tudo indicava que o criminoso fora o quase gigante com que se cruzara à entrada, mas decorrido o tempo que levara a chegar até junto do corpo, o homem por certo já iria longe, sendo inútil procurar detê-lo. Além de que não lhe vira as feições – apenas fixara a sua grande corpulência e a espessa barba. Com aquele corpo grande e forte, o pobre Navarro fora pardal em garras de milhafre.
Verificou que, sob as mãos em que o livreiro apoiara a cabeça, havia. uma pena e, à frente, um tinteiro com a tinta derramada, misturando-se com o sangue. No chão, junto dos pés, jazia um pequeno livro iluminado escrito em hebraico o qual, no entanto, não fora atingido pelo sangue que jorrara das artérias do livreiro. Guardou na bolsa o livro, que pela natureza das iluminuras, parecia ser um texto sagrado. Sob o rosto de Saul encontrou ainda uma fina corrente de ouro partida. A estrela de David desaparecera.
Em dois anos, pela segunda vez, encontrava um cadáver degolado. A recordação da tarde em que deparara com o pai, tombado sem vida sobre a mesa de desenho, veio-lhe à memória, queimando-a como um ácido cruel e marejando-lhe de lágrimas os olhos. Era inevitável a comparação entre os dois crimes. Talvez existisse um nexo e um motivo comum para ambos. Não era momento para desfalecer ou para se perder em cogitações – havia decisões importantes a tomar. Entretanto, quando se preparava para abandonar a tenda, ouviu os sinos tangerem as ave-marias – as portas da judiaria estavam a ser cerradas. Olhou o céu pela pequena janela ao lado da porta. O adejante manto da noite caía sobre Veneza, quase sem a ocorrência de crepúsculo, como é tão comum nas regiões do Levante.
A situação que Lourenço temera que ocorresse por se atrasar no encontro com o livreiro, sucedera devido a motivo mais dramático – o seu assassínio. Tendo soado as Trindades e encerrados os portões da judiaria, estes só voltariam a ser abertos às primeiras horas da manhã seguinte. porém, se tivesse chegado ainda mais cedo, talvez pudesse ter impedido a sua morte. Porém, era lógica a razão que levara o livreiro a pedir-lhe que apenas chegasse àquela hora – combinara com alguém uma reunião que terminaria pelo fim da tarde e não queria que Lourenço se cruzasse com essa pessoa. O que, pelos vistos, acontecera. Quando reflectia sobre a situação em que se encontrava e sobre a melhor maneira dela sair, ouviu ruídos vindos da rua. Logo se tornou grande o reboliço – vozes, gritos, ladrar de cães, entrechocar de metal. Entreabrindo a porta da livraria, pela estreita fresta, viu diversos homens que empunhavam archotes de resina iluminando as sombras que caíam sobre a rua, armados de espadas e alabardas.
