Passa hoje o 83º aniversário sobre a insurreição armada na Marinha Grande. Para entender o que sucedeu em 18 de Janeiro de 1934, é útil recordar que o regime corporativista ia acertando o passo pela onda fascista que irrompia em vários países europeus. A nova Constituição plebiscitada em 1933, dava margem ao Estado Novo para retirar as liberdades cívicas aos cidadãos, apoiando-se num texto constitucional que, oficialmente, a maioria do eleitorado aprovara. Em 23 de Setembro de 1933 fora publicada a legislação sobre a organização corporativa do trabalho – acabava a liberdade sindical – só seriam legais os sindicatos, enquadrados na estrutura corporativa. Não eram sindicatos, mas sim centros de controlo político das classes trabalhadoras.
Tratava-se de direitos inalienáveis e constitucionalmente consagrados – mas Salazar e a sua equipa de caciques não admitiam entraves ao seu objectivo de meter o povo na ordem -«arrumar a casa», verbalizou o ex-seminarista. Para fazer frente a este desmantelamento das estruturas sindicais, criou-se a «Frente Única», tentando passar por cima de divergências ideológicas e opor uma muralha contra a instalação da ditadura.
As organizações dos trabalhadores, sobretudo a Confederação Geral do Trabalho, de tendência anarquista, defenderam a realização de uma greve geral insurreccional. O PCP propõs que das assembleias gerais dos sindicatos marcadas para votar os estatutos, deviam sair moções repudiando a nova legislação, criando-se uma grande movimentação de massas que poderia resultar na tal greve geral projectada pelos anarquistas. Mas prevaleceu a proposta da CGT e os militantes do PCP envolvidos na organização aderiram à ideia mais radical. Na noite de 17 explodiram: duas bombas em Lisboa e uma em Coimbra e em 18 de Janeiro, a adesão à greve geral foi um fracasso – paragens de laboração só em fábricas de Almada, do Barreiro e do Algarve. Na Marinha Grande, as coisas passaram-se de modo diferente. Tudo começou de acordo com os planos traçados – nas fábricas a laboração foi suspensa, cortou-se comunicações e houve manifestações de rua. Depois, a situação alterou-se quando os responsáveis locais, entusiasmados com a adesão maciça da população, resolveram criar um soviete.
Foi eleito um soviete que assumiu o controlo da vila, tomando o posto da GNR e a estação dos Correios. Beneficiando do factor surpresa, tudo foi feito sem derramamento de sangue, decidido passo a passo. À medida que as questões surgiam, iam sendo resolvidas. O comandante do posto da GNR e a sua família foi «aprisionado» numa pensão local. Os guardas ficaram sob custódia de um administrador de uma fábrica. O chefe da estação dos CTT, ao ser detido, pediu para ver a família. Em casa, telefonou a denunciar o golpe às autoridades. Durante horas, a vila esteve ocupada pelos revolucionários, até que as tropas que iam chegando, jugularam de forma violenta a revolta.
Foi criado o Campo de Concentração do Tarrafal para receber os revoltosos da Marinha Grande. Na primeira leva de 152 presos que o foram estrear, 37 tinham participado no 18 de Janeiro. António Guerra, que liderou a ocupação da Estação dos Correios, condenado a 20 anos de degredo, ali morreu em 1948. O líder do movimento, o ferroviário, militante do PCP, Manuel Vieira Tomé, foi brutalmente torturado, vindo a morrer no cárcere em Abril do mesmo ano. Houve centenas de prisões e de deportações. Os salazaristas aproveitaram para, acenando com o papão do comunismo e do anarquismo, consolidar a sua posição. Só 40 anos depois da insurreição da Marinha Grande, o regime corporativista caiu.
