CARTA DO RIO – 135 por Rachel Gutiérrez

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Quinta-feira, 19, foi um dia fatídico para os brasileiros. A dois quilômetros da praia de Paraty, no estado do Rio de Janeiro, caiu um avião que transportava, com mais três pessoas e o piloto, o Ministro Teori Zavascki, relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal. Uma das primeiras declarações oficiais coube ao Juiz Sérgio Moro, que disse:

O ministro Teori Zavascki foi um grande magistrado e um herói brasileiro. Exemplo para todos os juízes, promotores e advogados deste país. Sem ele, não teria havido a Operação Lava-Jato. Espero que seu legado, de serenidade, seriedade e firmeza na aplicação da lei, independente dos interesses envolvidos, ainda que poderosos, não seja esquecido.

Espera-se que a Presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha, avoque para si, em caráter de urgência, a homologação das delações premiadas que o ministro Zavascki estava prestes a realizar. Tais delações, como se sabe, são relativas à empreiteira Odebrecht, que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, em dezembro de 2016, considerou responsável pelo “maior caso de corrupção global da História.”

A perda do ministro Teori Zavascki é um golpe terrível para a operação Lava-Jato e para o Brasil. E não faltam teorias de conspiração ou de sabotagem, nem suspeitas de que o desastre tenha sido, na verdade, um atentado. O próprio filho do ministro, o advogado Francisco Zavascki teria dito: “Seria muito ruim para o país ter um ministro do Supremo assassinado.”! Precisamos aguardar as investigações confiando em que a força tarefa da Lava-Jato não pare nem seja desvirtuada.

Tudo isso aconteceu na véspera de um evento de repercussão mundial como foi a posse do presidente dos Estados Unidos da América do Norte. O que  constitui, sem dúvida, um outro tipo de tragédia e de ameaça. Sobre a morte, costuma-se repetir frases triviais e tolas como “a vida continua”, “a vida tem de continuar” etc.

Pois aconteceu que a posse de Trump provocou um dos espetáculos mais extraordinários destes nossos tempos difíceis: a reação global das mulheres do mundo!

Foi como se um manifesto com o título MULHERES DO MUNDO, UNAMO-NOS!  tivesse tido repercussões planetárias. Além da monumental Marcha das Mulheres em Washington, 2,5 milhões de pessoas – principalmente mulheres – ocuparam as ruas em mais de 600 marchas realizadas mundo afora. Na Finlândia, na Itália, na Espanha, Holanda, República Tcheca, África do Sul, Inglaterra, Argentina…  Nos Estados Unidos, acompanhando a de Washington, “marchas irmãs” foram realizadas em Nova York, Boston, Los Angeles e Seatle.

Em Londres, mais de 100 mil pessoas saíram em passeata da Embaixada dos Estados Unidos até a Praça Trafalgar.  Em Paris, cerca de 2000 pessoas se concentraram em frente à Torre Eiffel com cartazes nos quais se lia LIberté / Égalité/ Fraternité! Um número equivalente integrado também por norte-americanas manifestou-se na cidade do México, e nos E U A ,  algumas brasileiras se juntaram às americanas. Mais manifestantes se solidarizaram com  a marcha das mulheres em Tel-Aviv, em Budapeste, em Sidney e em Melbourne.

Enfim, as mulheres do mundo e muitos de seus companheiros disseram um retumbante NÃO! ao trumpismo que se traduz em xenofobia, misoginia, homofobia, racismo, intolerância, isolacionismo e prepotência. Tudo se passa como se o mundo estivesse despertando – liderado internacionalmente pelas mulheres – para vigiar, denunciar e monitorar os movimentos desse recém empossado presidente do país mais rico e mais poderoso  do planeta.

Qual será o resultado prático desse protesto impressionante? É muito difícil prever. Lembrei, com emoção, do discurso exaltado de uma feminista australiana, em Dublin, no Primeiro Congresso de Mulheres na Irlanda, em 1982. Ela exclamou várias vezes, com absoluta convicção: We have to take it over! We have to take it over! (Temos que tomar o poder!).

Um esclarecimento se faz, no entanto, necessário: as mulheres nunca desejaram o poder para dominar o mundo ou seus parceiros homens. O que as mulheres desejam, em primeiro lugar, é que sua voz seja ouvida. E que diz essa voz? Defende o meio-ambiente e o planeta; defende oportunidades iguais para todos: homens, mulheres, gays e LGBTs; e defende os direitos adquiridos até aqui. Que prega essa voz? Prega o espírito comunitário e o conceito de parceria ao invés do de dominação. Que denuncia essa voz? O abandono das crianças, os maus-tratos aos velhos, aos doentes e aos animais. E que é que as mulheres combatem? O sexismo, a violência doméstica, o feminicídio, a homofobia, o racismo, a intolerância e o desrespeito às diferenças culturais e religiosas.  Em suma, o que as mulheres querem é humanizar a humanidade. E hão de dizer NÃO a essa figura caricata e deletéria de Donald Trump, que pretende ditar novas regras – as suas regras! – e assim desconsiderar e desfazer os compromissos de solidariedade entre as pessoas e entre os países. As mulheres compreenderam rapidamente que a “grandeza” que Trump pretende resgatar para os Estados Unidos é reacionária, autoritária e prepotente. Extremamente perigosa, portanto. O mundo mudou e ele não compreendeu.  E as mulheres, que lutam por relações de parceria, pela democracia participativa e pela solidariedade entre as pessoas e entre os povos não podem aceitar ideias isolacionistas, xenófobas e anti- imigrantes, como as de Trump, numa conjuntura econômica, política e social que clama por solidariedade e pela aceitação do Outro, como condição necessária e suficiente para a sobrevivência da espécie.

Para ilustrar o que acabo de escrever, quero partilhar com meus poucos leitores uma entrevista de uma das feministas que mais admiro, aquela autora do livro – The Chalice and the Blade ( O Cálice e a Espada), considerado tão importante quanto A Origem das Espécies,  de Darwin. Ouçamos Riane Eisler e suas ousadas ideias sobre um outro tipo de economia  e, consequentemente, um outro tipo de política e de sociedade:

Observe-se que o repórter confundiu matriarcado com “dominação”das mulheres, porém, quem lê o livro de Riane Eisler e a ouve nesta entrevista, percebe que segundo a historiadora, esse antiquíssimo sistema teria sido  regido pela parceria e não pela dominação.

4 Comments

  1. Rachel, realmente não seo como os USA se comportarão.Acho que Mr Trump se valeu de um partido mas não foi eleito graças a esse partido. É como se não tivesse um maior comprometimento.

  2. obrigada pelas reflexões que seu texto e a entrevista suscitaram em mim. Como educadora tenho bastante espaço para atuar no sentido de colaborar para a formação de pessoas sensíveis, criativas e afetuosas. Essa conversa com você me dá energia para isso.
    abraço.
    Inês.

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