OS MEUS AMIGOS ESTÃO NA RUA CONTRA TRUMP ENQUANTO EU NÃO, uma crónica de JÚLIO MARQUES MOTA

júlio marques mota

Os meus amigos, conhecidos ou desconhecidos estão nas ruas. Eu não. Eles estão na rua em Coimbra, no Porto, em Lisboa a protestar contra Trump, estão em Londres, em Paris, em muitas cidades dos Estados Unidos. Mas não defendo nem de longe nem de perto Trump e a sua equipa, um verdadeiro clã de dissidentes das diversas linhas de direita mas que continuam a ser de direita e dissidentes da Democracia real.

Da equipa de Trump saliente-se:

a) Para as questões económicas.

– Com o advento do capitalismo financeiro no início do mandato de Reagan, todos os sucessivos governos têm utilizado figuras de Wall Street. Obama não foi exceção ao nomear Hank Paulson para salvar o sistema durante a crise dita de subprime. Sob os comentários sarcásticos dos ignorantes comentadores franceses, Donald Trump deu a impressão de continuar esta tradição tendo a seu lado gente de ex-Goldman Sachs como Gary Cohn, Steven Mnuchin, ou Steve Bannon. Exceto que, Goldman Sachs, ao contrário do que se poderia pensar, não representa o arquétipo da elite financeira norte-americana. Esta é encarnada pelos bancos tradicionais de depósito (Merrill Lynch, Morgan Stanley, Bank of America) e não pelos bancos de investimento e de financiamento como é o caso de Goldman Sachs . Este grupo de intelectuais (como todos eles são) quer promover um capitalismo ultraliberal a nível nacional, um mercado de trabalho não regulamentado, o abandono de Obamacare, o cancelamento do Dodd Frank Act, que previa a regulação do sistema financeiro.

b) Para as questões de segurança e militares

James Mattis, secretário-geral da Defesa, apelidado de “cachorro louco” ou o “monge soldado” por causa de seu rigor moral, do seu celibato sacerdotal e do desrespeito para o Pentágono e pela sua burocracia. Michael Flynn, forçado a demitir-se do exército por causa de críticas levantadas contra os seus superiores, em que afirmara que Hillary Clinton deveria estar na cadeia e cuja principal preocupação é a guerra contra o Islão. John Kelly que se recusa a fechar Guantánamo; Mike Pompeo, o nível diretor da CIA, que apoia a coleta em massa dos dados de comunicação dos cidadãos; para não mencionar o retorno de David Petraeus, ex-chefe da CIA (em total desacordo com a estratégia de Obama) cuja carreira foi abruptamente interrompido devido a um escândalo de natureza sexual.

O denominador comum destes militares é assumidamente o ódio ao Islão. Eles não são intervencionistas e é provável que a sua vontade de dominação se dispensará de intervenções militares diretas, gato escaldado de água fria tem medo. Isto sugere  o uso de meios de dissuasão pela intimidação, pela arrogância com conotações nucleares. Como Donald Trump fez durante a sua campanha.

Daqui nada haverá a esperar de muito bom, exceto duas coisas de imediato, a desglobalização e a alteração da política energética dos Estados, podendo haver mesmo uma terceira, sobre a qual não nos debruçamos agora por ser um tema a merecer uma série de artigos, e que é o programa Obamacare. Dito de outra forma,  temos muitas dúvidas sobre o que é que ele representa de facto.

Quanto às duas coisas que podem ser positivas com Trump – sublinhando-se que poder ser é diferente de ser – são a negação da atual globalização e a política energética que poderá levar à subida do petróleo. Ainda aqui, consideramos necessário e urgente que se desencadeie um processo de desglobalização das economias, a sua desmundialização, mas também não acreditamos que a equipa de Trump escolha a melhor forma. Mas há uma vantagem nisto: obrigar-nos a pensar seriamente sobre o assunto e a batermo-nos depois por propostas sérias que serão seguramente o oposto do status quo e o oposto também das  políticas defendidas por Trump, igualmente. O mesmo poderíamos dizer também quanto ao Obamacare. Se assim for  e quando assim for, esperemos então que as ruas das grandes cidades americanas e europeias se enchem, com as pessoas a baterem-se por algo de verdadeiramente concreto, de verdadeiramente democrático

Podemos admitir que o programa Obamacare possa não ser bom, não o sabemos com exatidão, podemos admitir que este precise de uma profunda reformulação a favor dos mais desfavorecidos, o que é muito provável, mas uma outra coisa é certa, temos a certeza de que a via escolhida por Trump não será obrigatoriamente a melhor, mas se as nossas dúvidas se confirmam quanto à fraca qualidade do Obamacare, na sequência das múltiplas concessões feitas ao poder de K-Street em que Obama foi useiro e vezeiro, então colocar o programa Obamacare em questão pode ser uma atitude positiva.

Estamos certos de que o que passo a escrever relativamente à desglobalização possa ser considerado altamente discutível mas não o escrevo por ironia.

Prepara-se uma linha agressiva contra a globalização. As reações que temos vindo a ouvir mostram-nos que não estamos preparados para a discutir. Anda-se desde há anos a falar contra a globalização e de repente vem Trump com um programa de direita falar do assunto e a defender a indústria nacional contra as deslocalizações da mesma para as regiões consideradas offshore’s. Dito de outra forma, Trump estará a defender um certo protecionismo. Face a esta mudança eis-nos que passámos todos a defender a livre-troca e no caso da globalização atual, isso significa que passamos a defender o neoliberalismo. Dito de uma outra forma, eis a esquerda a cair no extremo oposto, a defender a linha seguida por Clinton, por Obama e que seria continuada por Hilary Clinton: a política neoliberal pura e dura, amaciada com uma retórica social-democrata bem eloquente de Obama, a esquerda então a defender a política que nos trouxe para a situação atual.

Não nos podemos esquecer da situação em que Obama deixou o país, Um dos artigos que iremos publicar lembra-o bem:

A. Hillary Clinton rejeitou mesmo completamente a orientação da pretensa classe política, em favor de uma discreta segmentação demográfica dos eleitores, enviando mensagens codificadas através da cor e do corte dos seus fatos tanto às mulheres dos subúrbios de Filadélfia como aos corretores de seguros em Tallahassee. É a política da identidade, onde as condições de trabalho de cada um de nós são menos importantes do que onde cada um compra e o que é que compra. Não há aqui nenhuma mensagem unificadora na sua campanha. Em vez disso, existem milhares de mensagens, cada uma individualmente feita e com objetivos semelhantes aos procurados pelos anúncios no Google e na Amazon. É a política pelo algoritmo.

Entretanto, os eleitores de colarinho azul do Trump são acusados pelas elites liberais de neonazis ou de funcionarem como autómatos da Ku Klux Klan (KKK). Nas últimas semanas, MSDNC dedicou muita atenção à tentativa imbecil de David Duke andar agarrado à lapela do casaco de Trump. Duke aparece com menos de 5% entre os republicanos na sua vangloriada corrida para o Senado em Louisiana. E quanto aos eleitores de Trump, que rejeitam a base racista de Duke? Como é que os democratas explicam isso? Estes nem sequer o tentam fazer. A classe baixa americana, sejam pretos ou brancos, os marginalizados pela globalização e por um governo que trabalha somente para enriquecer ainda mais os mais ricos, são vistos pelo líder dos Democratas como uma coleção de “deplorables” e “super predadores”

Os democratas entregaram-se totalmente à lógica do neoliberalismo e as vítimas empobrecidas e pulverizadas das suas políticas devem ser responsabilizadas pela sua própria condição lamentável. Os pobres serão penalizados por serem pobres. Onde estão os dividendos de longo prazo nesta cínica marca da política?

(…)

A direção do Partido democrata (Democratic National Committee – sigla DNC) viciou as suas primárias para garantir a nomeação do único candidato que poderia perder face a Trump. Não será então de espantar que o mesmo banco de cérebros no alto das emanações da sua própria arrogância, perdesse todos estes lugares no Senado, também?

O DNC passou mais tempo a conspirar para derrotar Bernie Sanders, do que o fizeram os republicanos. A direção do Partido democrata parece não ter aprendido nada com a campanha de Sanders, nem sequer a partir das questões que se ouviam a partir dos seus apoiantes: um sistema corrupto alimentado pelo dinheiro das multinacionais e da indústria do armamento, onde os trabalhadores são humilhados e ridicularizados, em que a juventude americana está a ficar sobrecarregada em termos de endividamento e sem nenhuma oportunidade de melhoria da situação, e em que os negros e os hispânicos são tratados politicamente como escravos, como cativos de um partido que exige a sua lealdade ainda que não faça nada por eles. A equipa de Clinton venceu Bernie Sanders, pagam-lhe para sair da corrida e, em seguida, marchou arrogantemente em direção à desgraça que construíram como destino.

B. Clinton mostrou-se ela própria com uma singular falta de coragem a caminho já do fim da sua campanha. Ela não podia mesmo falar contra a brutalização das pessoas tribais em North Dakota, a defenderem os seus cursos de água e os seus cemitérios contra os mercenários de Big Oil. Como é que alguém pode olhar para o seu silêncio em face das permanentes atrocidades ai cometidas e ainda acreditar que ela alguma vez se levantaria a favor deles?

(…)

Nos anos 60 e 70, a legislação dos direitos civis levou os brancos do sul para o campo republicano. Agora 40 anos de políticas económicas neoliberais levaram os eleitores da classe trabalhadora a abandonar o Partido Democrata em massa. Basta olhar para as sondagens à boca das urnas: as famílias de sindicalistas votaram: 47% Clinton; 45% Trump.

Isto aparece como um choque tanto para os líderes do Partido Democrata como para os do Partido Republicano que ficam pois a saber que há uma guerra de classes em curso na América. É muito mau para as pessoas da classe trabalhadora que seja Donald Trump a conduzi-la.

Em suma, quem colocou Trump no poder foi exatamente a direção do Partido democrata (Democratic National Committee – sigla DNC) que optou pela candidata que menos possibilidades tinha de ganhar. E foi ela que dispôs de todos os meios para ganhar. Que agora se façam manifestações contra os resultados eleitorais é estranho, e estranho é também que estas manifestações tenham por base fundamentalmente os movimentos feministas. Sabemos todos nós que a campanha de Clinton foi posicionada nos votos das mulheres e é ai que se dá o grande falhanço de perspetiva. Na Flórida, estado decisivo por definição, Clinton obteve apenas 51% dos votos das mulheres. A história da cassete guardada durante dez anos (por quem e com que fim?, isso lamentavelmente não interessa a ninguém questionar) e martelada ao infinito parece ter resultado menos nas eleições do que agora para as manifestações contra Trump, basicamente de mulheres segundo a imprensa.

Mas uma coisa me parece estranha. De repente centenas de milhares de pessoas na rua, sobretudo mulheres. Não estiveram antes, quando o Estado Providência americano foi massacrado durante a Administração Obama, ou quando este último prosseguiu uma politica externa extremamente agressiva, tanto ou mesmo mais do que o guerreiro George W. Bush? Neste período, a esquerda praticamente não existiu nas ruas. Estamos longe dos tempos da guerra do Vietname. Como se assinala num dos textos que iremos publicar sobre o período da Administração Obama:

O capitalismo das grandes empresas privadas simplesmente não estava adicionalmente a produzir mais bens. Não para os 80 por cento de menores rendimentos, de toda a maneira. A economia estava a ficar em ruínas, atolada no que parecia ser um estado recessivo permanente. O setor transformador tinha sido morto de dentro para fora, com milhões de empregos bem remunerados a serem terceirizados e a não haver mais nada para substituir esses empregos e essas produções senão tristes empregos no setor de serviços. O desemprego crônico de longo prazo oscila em mais de 10 por cento, pior, muito pior, para os negros americanos. Aqueles que se agarraram aos seus postos de trabalho viram os seus salários estagnados, os valores das suas habitações a descerem e as pessoas a ficarem sufocadas sob montes de dívida. Enquanto isso, o capital movia-se em círculos cada vez mais pequenos entre uma odiosa geração de novos ricos, de super-ricos, ganhando sem nenhum suor milhares de milhões a partir da movimentação fácil dos capitais.

Por volta de 2008, a melancolia parecia ter-se evaporado do espírito americano. O país viu o seu próprio governo repetidamente pregar o medo do futuro aos seus cidadãos. A paranoia tinha-se tornado a última indústria em crescimento. A partir das High Sierras para a Blue Ridge, a paisagem política tornou-se azeda e rancorosa, a preparação adequada do terreno político para que a semente do Tea Party germinasse e crescesse, assim como a plataforma ranker ou ainda movimentos mais venenosas da direita norte-americana. Estes não eram os descendentes ideológicos do arrebatado libertário que foi Barry Goldwater. Os adeptos do Tea Party perderam a inocência ocidental e o idealismo ingénuo de Goldwater. Estes populistas suburbanos, de um modo geral, são brancos, infelizes e envelhecidos. Animados por uma penosa nostalgia por uma terra da fantasia pré-lapsariana defendida pela Administração Reagan, muitos sentiram a sua posição na sociedade a descer de uma forma impossível de ser evitada. Eles queriam: o seu país de volta. De volta, mas de onde?

Em vez de responsabilizarem as grandes empresas multinacionais pelas enormes e violentas deslocalizações ou os banqueiros predadores, eles dirigiram o seu desejo de se vingarem para os imigrantes e negros, para os funcionários públicos e professores, para os cientistas e para os homossexuais. Há algo de profundamente patético sobre o fatalismo político desta nova espécie de know-Nothings . Mas, deve-se dizer, a sua ira é basicamente pura. Esta estranha associação de descontentamento fervilhava com um sentido rudimentar de alienação, de um desespero ácido com a diminuição das potencialidades de vida na América pós-industrial.

(…)

Evidentemente, as mais dolorosas feridas políticas de Obama foram autoinfligidas, e começaram mesmo antes da sua eleição, quando veio a correr para Washington e para ajudar a salvar o plano de resgate de Bush para Wall Street. Esta foi talvez a primeira indicação real de que os luminosos discursos de campanha sobre a mudança sistémica e geracional mascararam a mentalidade servil de um homem que ansiava desesperadamente por ser abraçado pelas elites políticas e financeiras da nação. Em vez de se encontrar com as vítimas dos predadores de Wall Street ou com os seus advogados, como Elizabeth Warren e Ralph Nader, Obama preferiu ir apertar a mão aos cérebros de Goldman Sachs e tagarelar com o creme de la creme dos lobistas ao serviço das multinacionais da K Street. Por fim, Obama ajudou a salvar algumas das empresas mais venais e corruptas em Wall Street, aceitando proteger os seus executivos de topo por acusação de crimes financeiros e, possivelmente, mais tarde terá sido compensado com desprezo.

Assim, a revolução de Obama terminou antes de começar, balizada sempre pelo desejo arrogante do político se mostrar aos grandes do Establishment. A partir daí, outras promessas, desde o desejo de enfrentar as mudanças climáticas ao encerramento de Guantánamo, desde o desejo de acabar com a tortura ao desejo de querer iniciar um sistema de saúde nacionalizado, todas elas se mostraram ainda mais fáceis de não serem cumpridas.

Peguemos no tema que alimentou toda a sua campanha: o fim da guerra no Iraque. Poucas semanas depois de tomar posse, Obama foi levado ao Iraque e ao Afeganistão, pela mão de Robert Gates e do general David Petreaus e tinha regressado à Casa Branca ferido e humilhado. A retirada prosseguiria lentamente, mas uma força sinistra ficaria por trás indefinidamente, um contingente mortífero de cerca de 50.000 agentes da CIA, de unidades de forças especiais, esquadrões de caçadores assassinos e mercenários implacáveis ao serviço de empresas privadas. A guerra aberta de Bush tornou-se silenciosamente numa operação clandestina sob Obama. Fora de vista, fora do pensamento.

Até ao Outono de 2009, mesmo os mais insensíveis de Washington estavam a ficar cansados com o facto de que a ocupação americana no Afeganistão se ter enredado completamente. Os ritmos e os sons selvagens da guerra tinham saído pela culatra. Muitas promessas quebradas, muitos casamentos foram bombardeados, muitos assassinatos foram realizados, muitas crianças foram mortas ou mutiladas, muita covardia e corrupção nas satrapias fantoches em Cabul. A maré tinha-se virado irrevogavelmente contra os EUA e as suas políticas esquálidas. Longe de serem finalmente neutralizados, os Talibãs estão agora mais fortes do que em qualquer outro momento desde 2001. Mas, em vez de capitalizar essa mudança tectônica de sentimentos no que se refere a este falhanço das tropas americanas, Obama, num estratagema cínico para provar a sua posição militarista, viajou Para West Point e anunciou num discurso sombrio que ele estava a subir o nível de objetivos militares e políticos no Afeganistão pondo em prática uma série de propostas elaboradas pelo General Petreaus, como o aumento de forças no terreno para levar a cabo novas campanhas letais que permitiriam descobrir o rasto e visar alvos suspeitos de rebeldes através das cordilheiras da Asia Central (Hindu Kush) e no Paquistão.

Naquela noite, Obama falou com uma severa cadência, repleta de pausas imperiosas, como se sugerisse que ele, ao contrário do inconstante George W. Bush, ia continuar a guerra no Afeganistão até que a vencesse. Mas ele sabia melhor fazê-la. E assim a faziam os seus altos comandos – mesmo Stanley McChrystal e David Petreaus, que tinham concebido a estratégia de contra-insurreição dos rebeldes Sabia que não havia nada a ganhar no Afeganistão. Naquela distante m zona do mundo, não havia sequer padrões para medir o sucesso militar. Isto significava ser uma guerra punitiva, pura e simples, destinada a extrair o máximo de sangue possível, uma guerra obscena feita em grande parte por aviões teleguiados atacando indiscriminadamente e de modo assassino aldeias de camponeses

Depois, o movimento pacifista norte-americano não foi capaz de mostrar mais do que uma impotente indignação. Mas à medida que as guerras de Obama se espalharam do Afeganistão e do Iraque para o Paquistão e para o Iemen, Somália e Líbia, com exclusão dos ativistas Trabalhadores Católicos e dos Quakers e ainda alguns Code Pinkers – as últimas trémulas luzes morais da nação – mesmo aqueles gritos de protesto ocos dos pacifistas dissipavam-se em murmúrios abafados e cheios de desilusão. Será que a esquerda americana se extinguiu como qualquer tipo de forte força política e tomou a presidência de Barack Obama como prova disso mesmo?

Onde esteve a esquerda americana até agora, é a pergunta implícita no texto, onde estiveram as tantas centenas de milhares de pessoas que agora estão nas ruas quando a Administração Obama procedeu da forma acima descrita, quando se praticaram todos os crimes de que se fala nestes excertos ou ainda quando se praticaram todas as políticas internas agressivas e desfavoráveis para uns, os 85% da população americana, e favorável para outros, para os 15% mais ricos deste mesmo país? Onde estavam a final? Não estavam, pura e simplesmente, nas ruas.

A presença das pessoas na rua, agora, e a sua ausência durante os oito anos de Administração  Obama em que não há memória de um período recente onde tantos negros tenham sido abatidos pela polícia,  é para  mim muito difícil de perceber. E a questão é tanto mais complicada quando o Wall Street Journal nos mostra que um dos mais relevantes apoiantes e fundraiser da candidatura de Clinton, Georges Soros, um verdadeiro assassino económico de países inteiros, perdeu mil milhões de dólares porque apostou erradamente em K-Street, em Nova Iorque, apostando que os mercados iriam rejeitar de imediato Trump .

Como se assina na imprensa internacional:

O multimilionário americano-húngaro que ganhou fama e muita ao ganhar um milhar de milhões de dólares numa só noite em 1992, quando obrigou a libra a sair do SME, perdeu a mesma quantidade nas semanas seguintes à eleição de Donald Trump.

Se a votação para Donald Trump fez sorrir muitos investidores ocidentais, incluindo americanos, durante dois meses (o Dow Jones descolou de 9% neste período), o especulador e multimilionário famoso George Soros deve ter ficado com a cara em cor de cinza. Com efeito, gestor de Hedge Funds, bem conhecido pela comunidade financeira pelas suas apostas de grandes quantias de dinheiro nos mercados de títulos, terá agora perdido cerca de mil milhões de dólares nas semanas que se seguiram ` às eleições, uma vez que apostou massivamente à baixa dos títulos, o mesmo é dizer especulou à baixa dos mesmos, informa o Wall Street Journal. No entanto, os cortes de impostos previstos pelo programa do 45º Presidente são considerados favoráveis ao crescimento económico e os lucros das sociedades cotadas, apoiaram a K-Street de Nova Iorque desde 9 de novembro.

Neste contexto uma movimentação pura e dura, canalizável por grupos especializados viria mesmo a calhar. Repare-se que grosso modo, a jogada de Soros será mais ou menos a seguinte: aposta na descida dos títulos, vende-os a descoberto antes da descida que está a querer provocar. Depois atira uns rumores para o ar, que podiam ser ampliadas pelos ruídos de grandes manifestações, os “mercados” antecipam que as coisas vão correr mal, os preços dos títulos descem e George Soros vai comprá-los. A diferença entre a venda dos títulos (antes) e a entrega dos títulos (depois) de os ter comprado significa a sua margem de ganho. Imaginemos que a diferença é de 2%. Se perdeu 1 milhar de milhões significa que o valor da sua aposta na bolsa foi de 50 mil milhões! Mas a crença na vitória de Clinton era enorme. Como alguém disse:

Ela tinha o jogo ganho, ela tinha o dinheiro, ela tinha a imprensa, ela tinha os peritos, e tinha as sondagens, tinha tudo pelo seu lado. Tudo isto não significou nada.

George Soros apostou nessa mesma dinâmica, nas asneiras seguintes de Donald Trump e, quem sabe, se numas movimentações de base democrática para ajudar aos seus objetivos pessoais. Jogou forte e duro, perdeu.

Falando da Europa, das muitas manifestações que por ela se fizeram, podemos levantar a mesma pergunta e perguntar por que ruas andaram enquanto a realidade económica era manipulada de tal forma pela classe dominante que os níveis de desempregados corrigidos das estatísticas oficiais são os seguintes:

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“Os números oficiais do desemprego não dizem grande coisa sobre o estado real do mercado de trabalho e a capacidade de uma economia para satisfazer as necessidades de emprego da população”, diz Pierre Sabatier, o Director-geral de PrimeView. Para ser oficialmente contabilizado como desempregados, é necessário não somente não trabalhar, mas também estar imediatamente disponível e andar ativamente à procura de trabalho

Mas esta definição, estabelecida pela Organização Internacional do Trabalho (BIT), deixa de lado os “desempregados desencorajados ” – que gostariam de trabalhar, mas eventualmente desistir à procura de um emprego. Esta definição também ignora aqueles que, à  falta de melhor, se contentam com trabalho a tempo parcial. Os dados existem, no entanto. O organismo europeu para as estatísticas, Eurostat, publica-os regularmente. Mas esses números são pouco comentados e ainda mais raramente comparado entre países.

Todos os estatísticos dizem: a “boa” medida de desemprego não existe, tudo é uma questão de convenções. No entanto, ultrapassar o indicador oficial e integrar dados deste “halo de desemprego”, como nos dizem especialistas, permite uma melhor visão do desempenho de diferentes países, no domínio do emprego. E o resultado não é famoso.

Desempregados desencorajados e empregados a tempo parciais esquecidos pelos estatísticos:

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Fonte: Prime View, Eurostat

Estes números dão-nos uma visão clara do drama que atravessa a Europa. Esperemos então que eu esteja enganado, e que as centenas de milhares de pessoas que se movimentem contra Trump, se movimentem com a mesma força contra esta realidade, contra os políticos e os banqueiros que a geraram. Se o fizerem,  as forças de luta pela dignidade humana, é disso que se fala quanto a estes números, vencerão as forças das trevas. Se o fizerem, e mesmo que a luta não seja fácil, a vitória será de todos nós.

Vale a pena aqui lembrar um ativista americano do século XIX, Frederick Douglass, que nos deixou uma grande mensagem:

Aqueles que lutam a favor da liberdade e ainda desvalorizam a agitação são as pessoas que querem ter o usufruto das culturas sem terem de  semear  a terra; eles querem a chuva sem trovões e sem relâmpagos; eles querem o oceano sem o ruído das suas ondas, das suas muitas águas.  A luta pode ser moral, ou pode ser física, ou pode ser ambas. Mas deve ser uma luta. O Poder nunca deu nada a ninguém que lhe não tenha  sido exigido. Nunca o fez e nunca o fará.

Não acredito que as gentes da pequena e média burguesia que vieram para as ruas se lembrem das razões que levaram à vitória de Trump, e até agora não vejo que o tenham feito e que retifiquem o tiro, ou melhor, que passem a atirar nas duas direções, em Trump e naqueles que objetivamente lhe deram a vitória, os Soros, Obamas, os grandes media, as gentes de K-Street, etc. etc.. Por isso não acredito na força destas manifestações e por isso mesmo prefiro, por agora,  ouvir o Som do silêncio de Simon and Garfunkel. Aqui vos deixo a letra da canção:

 

Hello darkness, my old friend,

I’ve come to talk with you again,

Because a vision softly creeping,

Left its seeds while I was sleeping,

And the vision that was planted in my brain

Still remains

Within the sound of silence

In restless dreams I walked alone

Narrow streets of cobblestone,

‘Neath the halo of a street lamp,

I turned my collar to the cold and damp

When my eyes were stabbed by the flash of a neon light

That split the night

And touched the sound of silence

And in the naked light I saw

Ten thousand people, maybe more

People talking without speaking,

People hearing without listening,

People writing songs that voices never share

And no one dared

Disturb the sound of silence

“Fools” said I,

“You do not know, silence like a cancer grows

Hear my words that I might teach you,

Take my arms that I might reach you”

But my words like silent raindrops fell,

And echoed

In the wells of silence

And the people bowed and prayed

To the neon god they made

And the sign flashed out its warning,

In the words that it was forming

And the signs said,

“The words of the prophets are written on the subway walls

And tenement halls

And whispered in the sounds of silence”

 

Referências bibliográficas:

 

JEFFREY ST. CLAIR, sitio Counterpunch, The President Who Wasn’t There: Barack Obama’s Legacy of Impotence, a editar pelo blog A Viagem dos Argonautas.

JEFFREY ST. CLAIR, sitio Counterpunch, O cataclismo: notas sobre o Dia das Eleições e a Política da Hubris, texto já publicado pelo blog A Viagem dos Argonautas. Ver em:

O CATACLISMO: NOTAS SOBRE O DIA DAS ELEIÇÕES E A POLÍTICA DA HUBRIS, por JEFFREY ST. CLAIR

Cyriaque de Castelnau, revista Causeur, une croisade sans ingérence Ce qu’annonce sa nouvelle administration. Texto a publicar  em A viagem dos Argonautas.

L’Express, L’expansion, À la recherche des chômeurs invisibles en Europe, texto disponível em:

http://lexpansion.lexpress.fr/actualite-economique/a-la-recherche-des-chomeurs-invisibles-en-europe_1798738.html

Frederick Douglass, disponível em:

http://www.publiceye.org/buildingequality/Quotes/Frederick_Douglass.htm

Wall Street Journal, Billionaire George Soros Lost Nearly $1 Billion in Weeks After Trump Election. Disponível em

http://www.wsj.com/articles/billionaire-george-soros-lost-nearly-1-billion-in-weeks-after-trump-election-1484227167

Bloomberg,  Soros Lost Nearly $1 Billion After Trump Election, WSJ Reports. Disponível em:

https://www.bloomberg.com/news/articles/2017-01-12/soros-lost-nearly-1-billion-after-trump-election-wsj-reports

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