EDITORIAL – A utilidade da tortura

Imagem2Quando foram conhecidos os resultados das eleições nos Estados Unidos, defendemos a ideia de que a vitória de Donald Trump e, sobretudo, a derrota de Hillary Clinton, constituíra uma vantagem para a democracia – se temos de defrontar um monstro é preferível que ele se nos apresente com a sua face horrenda. Se ele nos aparece disfarçado de madre Teresa de Calcutá, sentiremos escrúpulos em ferir a santa criatura. E lembrámos as medidas assumidas por alguns dos mais simpáticos moradores na Casa Branca – de Hiroxima à destruição do Iraque. Trump defendeu ontem o uso da tortura em interrogatórios a presos acusados de terrorismo. Há tempos, um inquérito entre os cidadãos norte-americanos, 46% dos inquiridos estava de acordo com essa prática, inaceitável em estados onde prevaleça a democracia e o respeito pela Declaração dos Direitos Humanos.

Sempre temos dito que existem duas nações nos Estados Unidos – uma delas, a que geralmente oculta a imagem da outra, uma nação onde impera a estupidez disfarçada de sentido prático e onde germinam as modas mais aberrantes e as práticas mais desumanas , uma linha de montagem de produtos para consumo próprio e para exportação, pois nas restantes partes do mundo há sempre nichos de mercado preparados para acolher as americanices, por mais idiotas que sejam. Há uma outra nação onde floresce a excelência – ciências e artes de primeira, atingindo graus de qualidade que, em alguns casos, são inexcedíveis. Trump e Paul Auster ou Woody Allen, são cidadãos norte-americanos, mas pertencem a nações diferentes. Há depois aqueles (como Hillary) que sendo naturais da pior das Américas, fingem pertencer à melhor.

Ontem, fiel às suas promessas eleitorais, enfrentou parte da classe política e os grupos defensores dos direitos humanos e defendeu a «utilidade» da tortura contra as suspeitos jihadistas. Deve dizer-se que, neste tipo de sistema de interrogatório, se usam com outros nomes os mesmos sistemas que o Santo Ofício empregava há centenas de anos. Por exemplo, aquilo a que os inquisidores chamavam a «boneca», os torcionários de Guantánamo chamam waterboarding – uma toalha encharcada é enfiada na boca do “paciente”, produzindo-lhe um sofrimento e uma sensação de afogamento irreversível. Os agentes da CIA submeteram Khalid Sheik Mohammed, suspeito de ser o cérebro da Al Qaeda que esteve por detrás dos atentados de 11 de Setembro, 183 vezes ao waterboarding, a “boneca”, que os padres dominicanos mandavam aplicar aos interrogados   é a mesma coisa, mas parece a designação de um desporto radical.

As polícias políticas (como a PIDE) também se socorreram dos ensinamentos da Santa Inquisição – a «estátua» ou o «sono», mais não eram do que o velho tormentum insoniae que enlouqueceu muitos dos que caíam sob o braço da «justiça». Trump quer voltar a esse modo de interrogar e a parte civilizada (ou que por tal quer passar) dos USA está indignada – ou finge estar.

Para o mundo é bom que o monstro mostre o seu verdadeiro rosto.

1 Comment

  1. Mas não são os EUA que procuram impingir (para o que vale tudo, desde golpes de estado, ministrados pela CIA, derrube de governantes legítimos, bombardeamentos, invasões, arrasar de países) aos outros a ‘sua’ liberdade, os ‘seus’ direitos humanos e a ‘sua’ democracia?!

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