CARTA DO RIO – 136 por Rachel Gutiérrez

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Costumo repetir a frase de Nietzsche segundo a qual “temos a Arte para não morrer da Verdade.” E agora, diante de um escandaloso e assustador surto de febre amarela, em pleno século XXI, no Brasil; diante dos trágicos massacres nos presídios do norte e do nordeste; diante da morte do relator da operação Lava-Jato e suas inquietantes consequências; e, acima de tudo, diante da ameaça que o novo governo Trump, dos Estados Unidos, representa para o convívio entre as nações e para a própria sobrevivência do nosso planeta, só mesmo a Arte e seu poder transfigurador para nos restituir um pouco de esperança. E foi justamente minha amiguinha Esperança, saída com um ar cansado do poema de Charles Péguy, quem me sugeriu, ontem, que escrevesse sobre um filme de Alain Resnais e Marguerite Duras, o inesquecível Hiroxima, mon amour, ao tomarmos conhecimento da morte de sua protagonista, a atriz francesa Emmanuelle Riva, aos 89 anos.

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A lembrança daquele filme, de 1959, vem a calhar numa época em que a xenofobia cresce tanto na Europa quanto na América. Quando o drama dos refugiados se apresenta como um desafio tanto aos políticos de lá quanto aos de cá. Quando o mundo não consegue perceber que o Outro, o diferente não só nos enriquece, mas contribui para nos revelar a nós mesmos.

O filme começa com as imagens dos corpos de um homem e de uma mulher, cujas costas e ancas se movem e se contorcem, “como no amor ou na agonia” e parecem se desmanchar, transformando-se em cinza ou areia – “da morte atômica” – ou molhados pelo suor do amor consumado.

Essa é a ouverture inusitada e impressionante. Mas a trama é quase banal: uma atriz francesa, que se encontra em Hiroxima para representar  uma enfermeira num filme sobre a Paz conhece, na véspera de seu retorno à França, um arquiteto japonês com quem se relaciona no que  hoje costuma-se chamar de  “sexo casual”. Não ficamos sabendo como eles se encontraram e nenhum dos dois é jamais mencionado pelo nome: no roteiro de Marguerite Duras, (que conservo desde 1992), os personagens são referidos sempre como Ele e Ela.

Ele está visivelmente fascinado por Ela, uma estrangeira tão atraente quanto enigmática; Ela, por sua vez, está encantada com o domínio que ele demonstra possuir da língua francesa – um japonês, que pertence àquele outro mundo, cujo museu da destruição e dos horrores da explosão nuclear Ela fez questão de conhecer. Eles conversam, um procura saber quem é o outro, sua história, sua vida. A atração que os aproxima não é apenas física. São dois mundos, duas culturas, duas histórias. Ele é bem casado e tem filhos; ela também tem filhos, e é bem casada. Despedem-se, mas tornam a se encontrar. Ele a procura, não pode deixar de revê-la antes que Ela retorne ao seu mundo distante. Ele ainda a deseja e, de repente, pensa que a ama. E o que vai acontecer nesse romance fugaz fadado ao esquecimento é que numa determinada conversa num bar, Ela vai revelar a Ele o que lhe aconteceu na adolescência quando, durante a guerra, esteve loucamente apaixonada por um jovem soldado alemão, que morreu nos seus braços quando o amor deles foi descoberto pelos partisans, da Resistência de Nevers, sua pequena cidade natal. Rasparam-lhe a cabeça e os pais a esconderam num porão durante meses, até que o cabelo crescesse de novo e ela pudesse fugir para Paris. Para esquecer a vergonha e a desonra e começar uma outra vida . Mas o amor é sempre o amor, seja por um alemão, por um compatriota ou por um japonês. E o momento mais dramático e mais comovente dessa confidência que Ela faz a Ele é quando Ele pergunta se o marido dela tem conhecimento do que lhe havia acontecido durante a guerra. Não! Ela jamais contara aquela história a ninguém. Ele então ri, nervoso e feliz, extremamente feliz:  Ela acabara de lhe dar –  e só para Ele –  o mais importante segredo de sua vida.

Na última noite em Hiroxima, angustiados, eles ora se reencontram, ora se afastam um do outro, e caminham desorientados pela cidade, mas na última cena, quando Ele retorna mais uma vez ao quarto do hotel onde Ela se encontra, após um longo silêncio em que apenas se olham, profundamente enamorados, Ela finalmente diz:

Teu nome é Hiroxima.

Para além de toda a sua poesia, o filme é, certamente, o mais expressivo libelo contra a guerra e contra a bomba atômica. A narrativa é entrelaçada pelo documentário sobre a destruição e a reconstituição de Hiroxima. Mas o que perpassa todos os horrores é a possibilidade do encontro e da transcendência do amor.

E em matéria de transfiguração, me encanta este diálogo em que Ela transforma a feiura e a deformação, e até mesmo a agressividade, em gesto de amor:

…Quem és tu?

Tu me matas.

Tu me fazes bem.

Como é que eu poderia imaginar que esta cidade tinha sido feita na medida do amor?

Como é que eu poderia imaginar que tu tinhas sido feito na medida do meu próprio corpo?

Tu me agradas. Que acontecimento. Tu me agradas.

Que lentidão de repente.

Que doçura.

Tu não podes saber.

Tu me matas.

Tu me fazes bem.

Eu tenho tempo.

Te peço.

Devora-me.

Deforma-me até a feiura.

Por que não tu?

Por que não tu nesta cidade e numa noite como esta, igual às outras, a ponto de ser confundida?

 

Um dos mais belos filmes que já vi é, sem dúvida, Hiroxima, mon amour, feliz encontro entre Marguerite Duras e Alain Resnais, com Emmannuelle Riva e Eiji Okada (1920-1995).

 

 

 

1 Comment

  1. …a frase de Nietzsche segundo a qual “temos a Arte para não morrer da Verdade.”

    “…. o novo governo Trump, dos Estados Unidos, representa para o convívio entre as nações e para a própria sobrevivência do nosso planeta, só mesmo a Arte e seu poder transfigurador para nos restituir um pouco de esperança.””*Hiroxima, mon amour”-inesquecível “* contribui para nos revelar a nós mesmos.”-A lembrança daquele filme, de 1959, vem a calhar numa época em que a xenofobia cresce tanto na Europa quanto na América. Quando o drama dos refugiados se apresenta como um desafio tanto aos políticos de lá quanto aos de cá. Quando o mundo não consegue perceber que o Outro, o diferente não só nos enriquece, mas contribui para nos revelar a nós mesmos.”

    Obrigada por este momento de grandes medos -o medo presente toma uma dimensão sem finitude –

    O mundo está nas garras de um homem que não olhará a meios para atingir objectivos apocalípticos -outra BESTA?

    Maria

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