“Mata-se o bicho, acaba a peçonha”. Era um dito em voga e, de certo modo, resumia a justificação teórica para os numerosos magnicídios que a história regista e particularmente para a vaga de regicídios que se verificou entre meados do século XIX e começo do século XX. Teoricamente sabemos que uma orientação politica dominante nunca é sustentada por uma pessoa – para que uma ideia triunfe, necessita de quem a conceba, de seguidores que a ponham em prática. Geralmente, suprimir um ser humano nunca implica a supressão daquilo que ele defende. O século XIX foi particularmente fértil em atentados contra governantes; e a tendência manteve-se pelo século XX. Passa hoje o 109º aniversário do Regicídio que em 1 de Fevereiro de 1908, vitimou D. Carlos I, rei de Portugal, e o príncipe herdeiro.

Na minha opinião quem esteve na origem e na realização do regicídio foi o Império Inglês que utilizou uns agentes bem escolhidos pela sua manifesta cegueira política e fidelidade canina aos orientadores dos seus procedimentos cívicos. O projecto que o rei Carlos acalentava – apoiado nos militares conhecidos como os oficiais africanistas – era o de desviar todo o esforço nacional para os territórios coloniais já que, na metrópole, a luta política impedia qualquer tentativa de desenvolvimento e a experiência positiva (do ponto de vista português) das campanhas de pacificação mostrava como era promissor mudar a agulha para a exploração da riqueza das colónias o que, embora demasiado tarde, seria uma tentativa saudável de executar o velho plano do Marquês de Sá da Bandeira. Infelizmente, tudo quanto fosse no sentido de desenvolver qualquer das colónias portuguesas, era absolutamente indesejável para as ambições desmedidas e hegemónicas do império inglês como, anos atrás, já tinham demonstrado com o Ultimato. A visão que, entre nós, tem sido atribuída ao Regicídio, quanto a mim, não passa dum pensamento um tanto paroquial, afinal, nada mais que o procedimento dominante nas possibilidades intelectuais, sempre presentes, nas esferas nacionais formadoras da opinião pública. CLV