EDITORIAL – o Regicídio foi há 108 anos

Imagem2 “Mata-se o bicho, acaba a peçonha”. Era um dito em voga e, de certo modo, resumia a justificação teórica para os numerosos magnicídios que a história  regista e particularmente para a vaga de regicídios que se verificou entre meados do século XIX e começo do século XX. Teoricamente sabemos que uma orientação politica dominante nunca é sustentada por uma pessoa – para que uma ideia triunfe, necessita de quem a conceba, de seguidores que a ponham em prática. Geralmente, suprimir um ser humano nunca implica a supressão daquilo que ele defende. O século XIX foi particularmente fértil em atentados contra governantes; e a tendência manteve-se pelo século XX. Passa hoje o 109º aniversário do Regicídio que em 1 de Fevereiro de 1908, vitimou D. Carlos I, rei de Portugal, e o príncipe herdeiro.

 

O nosso blogue tem dedicado a este tema numerosos artigos, pelo que nos dispensamos de relatar o Regicídio que na tarde de um sábado, em 1 de Fevereiro de 1908, transformou o Terreiro do Paço de Lisboa, no palco de uma tragédia – sugerimos a quem o tema interessar, uma incursão pelo nosso arquivo.

A vaga de magnicídios mais recente (desde ol último quartel do século XIX) começou com a supressão do Czar Alexandre II, da Rússia (1881), Alexandre I da Sérvia (1903). Em 1908, ocorreu o «nosso» Regicídio. Em 1914, o assassínio do Arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, foi o de consequências mais graves, pois conduziu a uma guerra mundial.

Na nossa opinião, a morte de D. Carlos I e de seu filho, não tiveram grande peso na política portuguesa. A instituição monárquica estava condenada e, mais tarde ou mais cedo, a República seria proclamada. Aliás, os políticos republicanos, com uma ou outra excepção, não abandonaram a maneira de fazer politica que minou a monarquia – a chicana, o nepotismo, a demagogia desenfreada, defeitos que vinham do passado, deram à República uma vida curta e abriram as portas a una ditadura onde eram dominantes a tacanhez, a repressão, o catolicismo beato, o subdesenvolvimento.

Na nossa opinião, o Regicídio foi um episódio tão dramático quanto inútil.

1 Comment

  1. Na minha opinião quem esteve na origem e na realização do regicídio foi o Império Inglês que utilizou uns agentes bem escolhidos pela sua manifesta cegueira política e fidelidade canina aos orientadores dos seus procedimentos cívicos. O projecto que o rei Carlos acalentava – apoiado nos militares conhecidos como os oficiais africanistas – era o de desviar todo o esforço nacional para os territórios coloniais já que, na metrópole, a luta política impedia qualquer tentativa de desenvolvimento e a experiência positiva (do ponto de vista português) das campanhas de pacificação mostrava como era promissor mudar a agulha para a exploração da riqueza das colónias o que, embora demasiado tarde, seria uma tentativa saudável de executar o velho plano do Marquês de Sá da Bandeira. Infelizmente, tudo quanto fosse no sentido de desenvolver qualquer das colónias portuguesas, era absolutamente indesejável para as ambições desmedidas e hegemónicas do império inglês como, anos atrás, já tinham demonstrado com o Ultimato. A visão que, entre nós, tem sido atribuída ao Regicídio, quanto a mim, não passa dum pensamento um tanto paroquial, afinal, nada mais que o procedimento dominante nas possibilidades intelectuais, sempre presentes, nas esferas nacionais formadoras da opinião pública. CLV

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