A CRISE DA FINANÇA – O CASO ITALIANO – 30. MONTE DEI PASCHI DI SIENA / EIS A BOMBA QUE NOS CHEGA DA CITY DE LONDRES, de ANDREA CINQUEGRANI

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Selecção, tradução e montagem por Júlio Marques Mota. Revisão de Francisco Tavares.

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MONTE DEI PASCHI DI SIENA / Eis a bomba que nos chega da City de Londres

 

Andrea Cinquegrani, ECCO LA BOMBA CHE ARRIVA DALLA CITY DI LONDRA

Voce delle voci, 29 de dezembro de 2016 

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Uma bomba Monte dei Paschi di Siena enquanto se anunciam novos impostos assassinos para os cidadãos, o BCE diz que o dinheiro não é suficiente e Merkel ataca o plano de resgate lançado pelo governo Gentiloni. Um J’accuse bem recente – evidentemente escrito por alguém que tem conhecimento de muitos mistérios e acontecimentos no interior do banco de Siena – apresenta em detalhe um cenário de verdadeiro crime executado pela alta finança, levado a cabo por estrangeiros, principalmente pelos ” hedge funds ” que, nos últimos anos, têm devastado as economias de meio mundo, devorando-as aos bocados. E desta vez, a presa, tem um nome bem conhecido, o banco MPS, mas quem irá pagar a conta será o habitual povinho, os habituais cidadãos já quase mortos de tantos impostos: e agora condenados a sofrer uma tareia de cerca de 20 mil milhões.

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A City de Londres

Aqui está o texto da denúncia: ” lê-se que a maioria das obrigações subordinadas do Mps passaram já de mãos em 2016 subscritas com um grande desconto por Davide Serra /Algebris e por outros fundos especulativos caucasianos da City londrina. Eles teriam sido subscritos com um desconto de 35% e agora o governo Gentiloni & C (C representa os Hedge funds caucasianos participantes na negociata) reembolsá-los-ia por 75% do seu valor facial, o que permitiria a esses fundos especulativos londrinos um ganho de capital de 10%, além de um retorno agora já vencido de cerca de 7% ao ano.

Não parece pois ser verdade que com a emissão de 20 mil milhões de euros de títulos de dívida pública dos quais 2,5 mil milhões para as obrigações MPS, se pretende salvar cerca de 40 mil famílias italianas, uma vez que grande parte destes títulos já teriam mudado de mãos, estando agora nas mãos dos especuladores, em Londres, que provavelmente investiram nestes títulos com a garantia do governo de que, mais cedo ou mais tarde, o Estado italiano os reembolsaria.

Mas não está certo, é inaceitável e vergonhoso, se fosse este o caso, que o governo Gentiloni & C utilize o dinheiro dos contribuintes italianos (uma dívida nacional a crescer de 20 mil milhões de euros = mais impostos e na ordem dos 20 mil milhões de euros) para reembolsar fundos especulativos em Londres. E estes hedge funds estão pois conscientes que não irão ser reembolsados como os aposentados que tinham subscrito títulos subordinados de 1.000 euros aos balcões de MPS, vendidos como títulos seguros quando na verdade o não são, ou ainda como aquelas famílias italianas que tinham ido ao MPS pedir um empréstimo de 10 mil euros para fazerem a sua vida e o MPS dizer-lhes que sim mas em vez de 10 mil emprestar-lhe-iam 20 mil com a condição de comprarem 10 mil em títulos MPS subordinados”.

Conclui-se pois: “seria necessário que um qualquer procurador adjunto, envie a Policia Financeira verificar quantos

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O primeiro ministro Paolo Gentiloni

títulos subordinados MPS mudaram de mãos em 2016 e que estão agora na verdade na posse dos fundos especulativos de Londres que, agora com esta manobra do governo Gentiloni e C., seriam reembolsados integralmente e com grandes ganhos por duas vias, pelos ganhos de capital de 10% e pelos ganhos em juros de 7% por juros já vencidos. É necessário que esse controle seja feito pelo poder judicial italiano, uma vez que CONSOB, a autoridade dos mercados financeiros não o pode fazer, pois não tem competências inspetivas, outra situação ignóbil, nos seus próprios estatutos.

Tratando-se de hipotéticas infrações cometidas por pessoas estrangeiras (usurpação de dinheiro público em detrimento dos contribuintes italianos) deve-se invocar a aplicação do artigo 10 do Código penal para fins de competência territorial, com a finalidade de estabelecer as hipotéticas infrações e a sua possível punição.”

Acusações de peso, sobre as quais é desejável que o poder judicial venha a lançar alguma luz, conforme pretende o próprio redator da denúncia.

Todas as conexões vão dar ao MPS

De resto, vários tribunais em breve deverão ter de analisar as variadas denúncias enviadas nos últimos meses pelo

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Elio Lannutti

incansável Presidente de Adusbef, Elio Lannutti. A partir de duas exposições sobre o caso Monte dei Paschi di Siena, de 15 de outubro (também com quatro signatários do Movimento 5 estrelas) e de 10 de novembro, dirigidas à procuradoria de Roma. Na segunda, vêm detalhadas 10 provas de “alta traição” por conta do Primeiro-ministro, Matteo Renzi, e do gigante financeiro JP Morgan dos EUA, a trabalharem em conjunto não só para “comer” o banco de Siena, mas também na batalha eleitoral do SIM, ou seja na batalha pelo “desmantelamento” da agora inútil Constituição “socialista” (incapaz de acabar com as greves e manifestações de desagrado nos PIGS, os países “periféricos” como Portugal, Itália, Grécia e Espanha), pela reforma do Trabalho (sic) sob a bota do Jobs Act, pela abolição do artigo 18, e para poderem pôr as mãos na justiça, ou nos pedaços que dela ainda nos restam. Entre as 10 provas, estão as numerosas reuniões entre Renzi (a primeira mesmo quando era ainda o prefeito de Florença, em Abril de 2013), o chefe do JP Morgan, Jamie Dimon, e o plenipotenciário do colosso financeiro americano para a Europa, o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Uma outra denúncia escaldante feita pelo mesmo Lannutti e também apresentada à Procuradoria da capital tem a ver com o mistério da morte de David Rossi, o chefe de comunicação do MPS, que voou de um quinto andar da sede do Banco em Siena, na praça Salimbeni: um homem, Rossi, que conhecia de fio a pavio factos e fraudes concebidos nas salas acusticamente seguras do banco mais antigo do mundo, entre capuzes, aventais e milhares de milhões, num perfeito “emaranhado harmonioso”. Rossi tinha decidido falar com os magistrados, talvez para despejar o saco: mas não foi possível, “suicidou-se” poucas horas antes de ir falar com os magistrados.

Por um milagre, o inquérito sobre o caso – rapidamente arquivado por um sonolento promotor de Siena – foi reaberto

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David Rossi

graças à tenacidade da família de Rossi e ao seu advogado Luca Goracci. O relatório de uma perícia foi anexo ao inquérito: fala-se de provável suicídio, da ausência de provas acerca da presença de outras pessoas na cena do crime; mas ao mesmo tempo também das lesões no corpo do pobre David, que são incompatíveis com o contexto de suicídio (de resto, Rossi dificilmente poderia ter pensado em autoflagelar-se antes do eventual ato de suicídio). Vamos ver a evolução deste processo.

Uma outra importante denúncia – sempre na base das intrigas & negócios com a marca Monte dei Paschi di Siena – tinha sido enviada para a Consob, para o banco de Itália e para a magistratura há já cinco anos, antes que a bolha Mps explodisse em toda a sua enorme dimensão e virulência. Escrita muito provavelmente por um alto funcionário caído em desgraça, ou então animado pelo desejo de denunciar esse emaranhado de negócios, conluios, conflitos de interesses que têm caracterizado os últimos anos de vida do banco mais antigo do mundo. O site Voce escrevia ainda há meses sobre o tema e em baixo está o link que lhe permite aceder à versão completa e “original” como foi escrita e enviada às autoridades de supervisão (sic) e controle.

Ainda. O processo em curso em Milão vê a deporem na barra do tribunal alguns dos pesos pesados do MPS, começando pelo seu ex-número 1, Giampiero Mussari, e continuando depois com os altos quadros da financeira Nomura Europa com sede em Londres. Vamos ver, também neste caso, o que é que mais se irá ficar a saber.

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Corrado Passera

Sublinha hoje um analista financeiro em Milão: “nós estamos a ver todo o tipo de coisas. O BCE que recusa conceder alguns dias mais para as operações de resgate, os fundos que se derretem como neve ao sol. Por exemplo, o caso do Qatar, que se retirou sem nenhuma justificação, sem dizer nada. Mas há outro mistério ao qual ninguém prestou atenção: porque é que o consórcio liderado pelo antigo ministro Corrado Passera desapareceu de repente depois de ter manifestado um enorme interesse pelo MPS? É só uma questão de a direção não ter recebido todas os documentos da possível operação ou existem outras coisas por detrás? Também sobre este assunto os magistrados fariam bem em dar uma olhada.”

E sem falar já de um pormenor não menos importante, detalhado pelo mesmo Lannutti, mostrando um documento precisamente na última audiência que se realizou em Milão no quadro do MPS: um documento assinado por Mario Draghi, então – 2008 – Governador do Banco da Itália a dar luz verde para a louca aquisição de Antonveneta, um golpe decisivo nos cofres já vazios do MPS. Como é que Draghi, que não explicou este seu comportamento incompreensível – ele, o Grande Banqueiro- foi em vez disso promovido a Governador do BCE?

Na estufa dos fundos especulativos de Londres

Para completar a informação, então agora acrescento alguns detalhes sobre Davide Serra e seu fundo de Algebris, [1]de que se fala na denúncia [vd. acima no 2º parágrafo]. Um fundo que foi criado precisamente em Londres há dez anos, apadrinhado por um parceiro francês, Eric Halet: hoje em dia, Algebris tem um volume de negócios de mais de 2,5 mil milhões de dólares. O apetite vai vindo com a comida que se vai comendo e no ano seguinte o financeiro acrobata – entre outras coisas um membro do Fórum Econômico Mundial e do Instituto de Finanças Internacionais – começa a escalada ao super banco dos Países Baixos, ou seja, ao banco ABN AMRO, que culmina com uma OPA (Oferta Pública de Aquisição) vencedora lançada por um pool de bancos (Royal Bank of Scotland, Banco Santander Central Hispanico e Fortis). O primeiro apoiante da campanha eleitoral de Renzi, de há dois anos atrás foi nomeado Comendador da República Italiana, coroado por um outro da realeza, o antigo chefe de estado Giorgio Napolitano.

Giorgio Napoliatano
Giorgio Napoliatano

Eis o que escreve o advogado Antonio Grazia Romano, que, em janeiro de 2014, deu vida a uma combativa Comissão que foi criada para denunciar as histórias de comerciantes, empresários e cidadãos que durante toda a sua vida foram oprimidos por impostos, taxas e injustiças. ” O expediente iníquo de Gentiloni & C. é que o Tesouro irá emitir outros 20 mil milhões de euros de obrigações do Tesouro para financiar os bancos, sem participar no capital desses mesmos bancos. O que significa outros 20 mil milhões a mais em impostos para os cidadãos italianos. O Tesouro deveria, em vez disso, emitir obrigações denominadas como “BTP nacionalização da banca“ que só pudessem ser subscritos por cidadãos italianos e por um máximo de 10 mil euros cada participação. Se todos os cidadãos de maior idade subscrevessem títulos no valor de 2.000 euros (2.000 euros e 30 milhões de pessoas são pois 60 mil milhões), o povo italiano poderia nacionalizar Intesa, Unicredit, Carige, Carisbo e MPS, reassumindo o controlo público do Banco de Itália”.

Acrescenta Romano: “Em vez disso, o Banco de Itália é, desde 1992, controlado – 265 votos em 529 – por uma dúzia de hedge funds anglo-americanos e caucasianos, típicos vendedores a descoberto, que foram adquirindo ações no mercado (através de interpostas pessoas, na realidade através de escritórios de advogados italianos) dos bancos italianos que são acionistas do Banco de Itália Spa, conseguindo assim um controlo em 90 por cento sobre esses bancos e desta forma controlando também o próprio Banco de Itália. E este, não vigiou nem vigia os abusos financeiros cometidos em Itália desde 1992, tais como os custos de crédito aberrantes, constantemente para além do limiar, a captação de juros sobre juros, os produtos derivados sobre as taxas de juro e sobre as divisas, e os estudados colapsos cíclicos das ações, tudo isto que fez evaporar as poupanças de cerca de 20 milhões de cidadãos italianos.”

Os Banksters da Máfia continuam imperturbáveis a ditarem as suas leis. E a receberem prémios multimilionários do Estado, desta vez, um espólio de 20 mil milhões: sangue e lágrimas dos cidadãos vampirizados.

 

Andrea Cinquegrani, Voce delle Voci, ECCO LA BOMBA CHE ARRIVA DALLA CITY DI LONDRA, texto disponível em:

http://www.lavocedellevoci.it/?p=9377

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[1] Desculpem-me os leitores de A Viagem dos Argonautas, mas vale a pena relembrar aqui um excerto de um texto publicado por nós há dois anos, intitulado O desastre italiano, de Perry Anderson. Diz-nos este: Renzi tinha vindo a construir uma rede de ligações com algumas empresas locais. O seu principal apoiante e financiador, era um patrão da construção local, Marco Carrai, cujos interesses se estendiam para lá do Atlântico e com ligações alargadas à Opus Dei. Uma vez Renzi colocado no Palazzo Vecchio, Carrai foi encarregado de construir o lucrativo complexo de estacionamento da cidade e do aeroporto, enquanto Renzi se instalou sem pagar nenhuma renda num apartamento que lhe foi colocado à disposição por Carrai – um arranjo actualmente sob investigação judicial. Três anos mais tarde concorria para ser o líder do PD, com a sua campanha a ser financiada até à quantia de €600.000 pela Fundação Big Bang e com muitos dos doadores a permaneceram secretos, Renzi não se poupou a despesas. Uma das maiores contribuições veio do director de um hedge fund, Davide Serra, cujo Algebris Investments inclui um esconderijo nas Ilhas Cayman. Residente em Londres, Serra tornou-se um ponto de ligação entre Renzi e o mais amplo mundo da finança, onde um banquete em honra do candidato reuniu a elite financeira de Milão durante a campanha. Em Florença, o Instituto municipal de poupança tem – sem dúvida, por pura coincidência – investido nos títulos Algebris. A noiva de Carrai, entretanto, uma graduada em filosofia de 26 anos, tornou-se uma das responsáveis pela exposição principal deste ano em Florença, um golpe de publicidade a promover as fictícias ligações entre Michelangelo e Jackson Pollock com um custo de €375.000. Um dos slogans mais populares do Renzi é a sua expressão reclamando um país onde “se arranje emprego pelo que se conhece e não por causa de quem se conhece”.

Os negócios podem dar origem a que se desfrute de uma troca de favores a nível municipal, mas é sobretudo a um nível mais geral que a mensagem ideológica de Renzi lhe fez ganhar os apoios da gente de muito dinheiro. A reclamação de que a gente mais velha da classe política pertencente ao PD fosse atirada para o armazém da sucata política funcionou bem com a imprensa e com a população, com esta fortemente desiludida com a classe política. Para os banqueiros e industriais, o seu apelo foi incisivamente mais económico. O enorme mal-estar da Itália provinha de um estado perdulário e das obstruções corporativistas feitas sobre os mercados, nomeadamente – senão exclusivamente – pelo comportamento altamente egoísta dos sindicatos. Os sindicatos tinham então que ser desmantelados. Liberalismo – livre comércio sobre as commodities, incluindo terra e trabalho – era uma doutrina não de direita, mas de uma esquerda esclarecida, como a de Renzi. A palavra de ordem desta esquerda deve ser inovação, mais do que igualdade e se este último termo é, no entanto, digno de representar e de ser um ideal, só o pode ser, se devidamente compreendido como expressando uma carreira aberta ao talento e acima de tudo, empreendedor. Blair foi o líder que melhor compreendeu tudo isto, estabelecendo o exemplo inspirador do tipo de política de que a Itália tinha urgentemente necessidade.

O culto de Renzi por Blair reflete, em certo sentido, as limitações provinciais da sua cultura: Renzi claramente desconhece que o objeto de sua admiração mal ousa mostrar a cara em público no país que ele governou. Mas, por outro lado, serviu como um cartão-de-visita para o maior amigo de Blair na Itália. Contactos informais com o centro-direita já existiam desde o início da subida de Renzi em Florença, onde a sua vitória sobre um candidato bem mais conhecido nas eleições primárias do PD em que não se exigia nenhum registo no partido é muitas vezes atribuída a votos daí resultantes. À volta deste período, estava em boas relações com um banqueiro florentino, Denis Verdini, cujo Crédito Cooperativo Fiorentino entraria em colapso no meio de acusações de crime formuladas contra ele, mas em que, como uma figura de liderança na organização de Berlusconi na Toscana, poderia oportunamente tornar-se um interlocutor fundamental do centro-direita. Enquanto Renzi era o prefeito, viajou para a villa de Berlusconi em Arcore, para com ele discretamente jantar, uma peregrinação tabu na altura para o PD e que só mais tarde foi revelada. Não apenas um gosto em comum com Blair e a apreciação do valor do empresário terão, no entanto, juntado Renzi e Berlusconi. Este último, frequentemente explicou que vê em Renzi, uma versão mais jovem de si mesmo: o mesmo talento, a mesma audácia e o mesmo encanto com o qual ele tinha cativado a nação, vinte anos antes. Claramente, quanto ao estilo político os dois homens na verdade têm muito em comum. Primeiro que tudo, uma intocável autoconfiança na sua capacidade única em conduzir o país. A personalização de Berlusconi na política é lendária. A projecção de Renzi de si mesmo é dada num registo diferente, mas combina com o anterior. Colocado em cartazes ao longo da rota da sua viagem pela Itália, o slogan da sua campanha para ganhar o comando do seu partido dispensa qualquer agenda para isso, para além da sua própria pessoa. Nestes cartazes, simplesmente lia-se: ‘Matteo Renzi agora!’ Como com o Silvio, isto foi suficiente.

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