
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

E se a General Motors “relocalizasse” a sua produção?
Sylvan Cypel, Et si General Motors relocalisait sa production?
Le Monde, 5 de Novembro de 2011
Depois das deslocalizações a relocalização! “Daqui a dois anos, teremos aqui outra vez uma cadeia de montagem, e seguidamente duas”, explica-se Michael O’ Rourke, presidente da secção 1853 do United Auto Workers (UAW), o sindicato de assalariados da indústria automóvel americana. Estamos em Spring Hill, Tennessee. Aí, se a negociação com o sindicato tiver sucesso, General Motors (GM) relançará a montagem de veículos nesta fábrica que esta empresa tinha parado há dois anos, e renunciará à fábrica que queria abrir no México.
Resumo dos episódios precedentes. No salão da câmara municipal, um fac-símile “” de 27 de Julho de 1985 do diário local, The Tennessean, proclama: “Saturn aterrou: 20.000 empregos serão criados. ” Na realidade, mesmo no pico da produção, aí nunca não houve mais de 7.200 em GM em Sprint Hill. Mas é aí que a firma, na época número um mundial da indústria automóvel, tinha escolhido montar o Saturn, estas berlinas que, em vinte e dois anos de existência, apenas tiveram um sucesso mitigado.
Em Junho de 2009, depois de ter perdido quase 100 mil milhões de dólares em quatro anos, a casa mãe está à beira da falência. Recapitalizada e salva pelo Estado, teve que se reestruturar de maneira drástica. Quatro das suas oito marcas, das quais o célebre Pontiac, seriam sacrificadas. Saturn também é lançada ao esquecimento, os assalariados da sua cadeia de montagem colocados na pré-reforma ou reclassificados noutros lugares.
Então que GM volte para aqui em vez de ir para o México, que injecte em Spring Hill 417 milhões de dólares para criar 1.700 empregos à prazo e daí montar dois novos modelos, os sindicalizados, em frente da sala do UAW, nem sequer se atrevem a acreditar. “O passado não joga a favor da confiança”, dizem-nos. Na General Motors, não se comenta mas “o acordo é uma questão de semanas”, quer crer O’ Rourke. O Presidente da câmara municipal, Mike Dinliddie, está disso igualmente convencido. “Este local é recente, de elevada qualidade, adaptado à mobilidade, explica, GM não age por filantropia mas porque investir aqui – custará menos caro que noutros lugares e em que a mão-de-obra é imediatamente operacional. ” Talvez, também, que GM devia “fazer um – gesto”.
« É necessária a adaptação «
O’ Rourke não discorda: “Obama salvou a GM, os seus assalariados e também milhões de empregos indirectos. ” E de recordar que naquela altura o senador republicano do Tennessee, Bob Corker, e o seu homólogo do Alabama, Richard Shelby, estavam dispostos “a deixar cair ” a indústria automóvel americana. Que hoje GM “retorne o ascensor”, se for esse o caso não é de espantar, sugere o sindicalista.
Mas a relocalização do construtor no Tennessee não tem apenas a ver com isso. Conhecem-se as grandes linhas do acordo que poderá ser assinado. A maior parte dos assalariados serão novos nesta fábrica. Segundo o contrato, ganharão de 15 à 19 dólares (10,9 à 13,8 euros) de acordo com o posto, contra 29 dólares para os seus homólogos de Michigan. Quanto à protecção social, quanto às condições de pensões de reforma serão também elas muito inferiores às normas de GM em vigor até agora.
Em toda a região, os construtores automóveis japoneses, alemães e sul-coreanos instalaram-se impondo condições sociais muito abaixo das que o UAW obteve. Volkswagen produz no Tennessee, da mesma maneira que Nissan. Mercedes e Hyundai estão Alabama, Toyota também aí está bem como no Mississípi. BMW monta os seus veículos na Carolina do Sul, etc.
Todos “reexaminam as condições de contratação em baixa, muito abaixo das convenções colectivas, 30% à 40% dos seus efectivos são temporários, explica. Diz-nos O’ Rourke, que todos fazem o possível para impedir a presença do sindicato nas suas fábricas. Se queremos preservar os nossos empregos, é necessário então sabermos adaptarmo-nos. ”
A Spring Hill, GM aceitou a presença do sindicato. Por outro lado, este deverá fazer concessões. “Estamos numa concorrência mundial. É necessário apertar-se os cotovelos, estarmos todos unidos, caso contrário iremos todos ao fundo, diz-nos este homem maciço de 54 anos, do qual 30 foram passados na GM. Quanto tempo ainda se poderá continuar a ser competitivo com as nossas condições de trabalho? ” Com um sorriso ligeiramente manhoso, o sindicalista conhecido como um duro nas negociações prossegue: “Para re-industrializar a América, deveremos aceitar fazer concessões. Vale melhor trabalhar em condições menos boas que não trabalhar coisa nenhuma.»
Re-industrializar a América? Para Jim Smith, banqueiro na reforma e que trabalha como tesoureiro municipal, o regresso de GM é “um bom sinal. A minha bola de cristal diz-me que vai-se ver cada vez mais empresas a reinvestirem nos Estados Unidos. Com a redução dos custos salariais, isto tornar-se-á mais vantajoso. Porque os nossos assalariados continuam ainda a ser melhores que noutros lugares!
» O’ Rourke, mantém uma muito boa lembrança de uma estada efectuada, no ano passado, na Alemanha, a convite do sindicato IG Metal. “Neles, é genial! Super condições de trabalho, uma estratégia industrial fundada sobre a qualidade e um sindicato respeitado. ” E dizer que com trabalhadores caros – pelo menos no seu país – e uma protecção social da qual os assalariados americanos não têm mesmo nenhuma ideia, Volkswagen está prestes a tornar-se o construtor mundial número um…
Sylvain Cypel
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