PRAÇA DA REVOLTA – QUEM ESCREVEU A LETRA DE «CANTAR ALENTEJANO»?- por Carlos Loures.

Não posso precisar quando é que me chegou a informação de que a letra de «Cantar alentejano», canção gravada por José Afonso em Cantigas de Maio (1971), nas condições que o José Mário Branco descreve, era da autoria do poeta e ficcionista António Vicente  Campinas. Julgo que já ambos teriam morrido -o Zeca em 1987 e o Campinas em 1998.  Sendo amigo de ambos e tendo tido muitas ocasiões para o fazer – era desde há muito, amigo do Campinas e quando ele voltou a Portugal, após 1974,  falámos numerosas vezes – indo quase sempre almoçar com ele ao INATEL , na Rua Victor Córdon, onde ele era funcionário (da CGTP-IN). Devo ter exemplares de todas as suas colectâneas poéticas, bem como das  suas ficções. Era um bom amigo. Quanto ao Zeca, só o conheci pessoalmente no dia 11 de Março de 1975, em Setúbal, nas circunstâncias que já tenho relatado. Em 76 encontrámo-nos com frequência durante a campanha do Otelo e estivemos depois em várias ocasiões – quando do Congresso dos Escritores na Gulbenkian, por pura coincidência, ele, a Maria Rosa Colaço e eu, ficámos em cadeiras seguidas (o Zeca conhecia a Maria Rosa de Moçambique e eu conheci-a desde há muitos anos.

Onde quero chegar é que a dúvida se tem levantado em vida do Campinas e do Zeca, não teria hesitado em a esclarecer. Com a legitimidade proveniente do facto de ser sócio (com o Manuel Simões e com o Júlio Estudante) da editora artesanal que lançou os CANTARES, em 1966. Mas nem teria sido necessário invocar essa condição . quer um, quer o outro, eram homens de grande integridade moral . nem o Zeca seria capaz de plagiar, nem o Vicente Campinas deixaria que uma suspeita dessa natureza, caísse sobre um homem que tanto admirávamos.

A primeira explicação que dei a mim mesmo foi a de que o facto de o Vicente Campinas estar exilado e não poder vir a Portugal, por comum acordo tivessem optado por escamotear o nome do Campinas – ficando por explicar  por que razão ns edições posteriores a 74, o erro persistia.  E havendo múltiplas ocasiões para o fazer, o facto de o Zeca ser um «despistado» não explicava o seu silêncio.

Em Maio de 2011, no blogue ESTROLABIO publiquei um texto onde colocava a questão, partindo do princípio de que, de facto, o poema seria do poeta algarvio e interrogando-me sobre os motivos que levavam a que o autor da letra não fosse nunca referido pelo Zeca em nenhuma das quatro edições de CANTARES. Muito recentemente, embora o referido blogue esteja desactivado, houve comentários que me levam a voltar ao tema. Peço aos amigos que os escreveram o favor de aduzirem aqui, neste blogue sucessor do ESTROLABIO as suas ideias quanto a este tema. Pedirei a outras pessoas de algum modo envolvidas neste caso, qu digam o  que sabem.

Um dos comentários desvaloriza a questão. Mas lembro que está em causa a idoneidade de uma pessoa que admiramos e que não seria capaz de um acto menos correcto como seria o de repor uma verdade. Note-se que não se trata de uma gralha num texto .Numerosas fontes referem António Vicente Campinas como autor da letra de «Cantar alentejano» . A Wikipédia é uma delas, embora diga «Especialmente famoso é o seu poema “Cantar Alentejano”, em honra de Catarina Eufémia, musicado por José Afonso, no álbum “Cantigas de Maio” editado no Natal de 1971[carece de fontes?]».

José Casanova na sua antologia Catarina Eufémia (publicada em 2014) atribui a autoria a Vicente Campinas. Abro um parêntesis para, lamentando a morte de Casanova, não ser oportuno criticar negativamente um trabalho de uma má qualidade que o autor tinha meios para superar. O famoso «anticomunismo primário» é muitas vezes explicado pelo «comunismo primário» dos pecepistas – será que não é evidente que amarrar uma heroína como Catarina a um partido é uma acção redutora da sua imagem? Fecho este parêntesis, lamentando que uma figura simbólica da resistência à ditadura e da coragem dos trabalhadores, da mulher portuguesa,  não tenha merecido um trabalho de melhor qualidade.

Peço ajuda a quem tenha elementos que ajude a esclarecer uma dúvida que lança uma sombra sobre a idoneidade de uma figura maior da nossa cultura,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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