O MAPA (A saga do anadeç/68) – A festa – por Carlos Loures

Depois de se despedir do capitão, de Nuñez e dos outros tripulantes com quem mais privara, voltou então ao centro da cidade onde, num algibebe da Calle Merceria, seguindo a ideia de Van der Meer, a despeito das muitas e variadas sugestões que o mercador lhe ia fazendo para que adquirisse roupas mais caras, comprou umas grandes calças tufadas e bem apertadas nos tornozelos, uma touca verde ornada à frente por um brilhante crescente dourado, um pequeno colete de veludo negro, uma ampla camisa de seda branca, com mangas largas apertadas nos punhos, uma faixa vermelha para pôr à cintura, umas babuchas de fazenda e sola, também vermelhas e uma inofensiva réplica em folha-de-flandres de um alfange.

Comprou ainda uma comprida e ampla capa de veludo negro, provida de capuz, capa com que podia cobrir todo o conjunto e circular na rua sem violar a lei que proibia o trânsito de mascarados, e, claro, uma mascarilha que imitava a convencionalmente façanhuda e barbuda cara de um turco, com grandes e negros bigodes, fartas sobrancelhas e um respeitável e adunco nariz. No imaginário veneziano, mais ainda do que no dos Portugueses, por razões óbvias de proximidade, os Turcos eram uma ameaça permanente. Em Veneza, as mães metiam medo às crianças rebeldes e com a ameaça de que se não comessem a papa, ou se não dormissem, iriam chamar o turco. Porém, Lourenço talvez não tivesse escolhido muito bem a sua máscara. O conselho do capitão flamengo não fora tão bom como parecia, conforme iremos ver em breve.

Além das vestimentas de façanhudo turco, havia ainda uma grande quantidade de disfarces possíveis à venda nas muitas tendas de adelos e algibebes da cidade – de pescador, com canastra de peixe incluída, de médico, com os acessórios ligados à profissão, uma enorme seringa de clisteres, de advogado, com livros enormes, de diabo, com o respectivo tridente, de felpudo urso, de sátiro, de astrólogo, de frade, de asno, de urso, de marinheiro, de carvoeiro, de viúva, de camponesa… Enfim, uma interminável lista, não faltando, claro, o tal disfarce de turco que Lourenço procurava e pelo qual optou, cortando cerce as tentativas do mercador que lhe queria vender algo de menos vulgar e, sobretudo, de mais dispendioso.

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A tradição veneziana das máscaras de rosto e da indústria a que deu lugar, vinha já muito de trás. Usadas pelo Carnaval como meio de ultrapassar por uns dias as regras sociais da velha idade, possibilitando transgressões que, fora dessa época, seriam punidas de forma severa, as máscaras foram também utilizadas no quotidiano da cidade como modo de ocultar rostos, permitindo privacidade, liberdade e facilitando aventuras românticas…Foram usadas no popular teatro de rua, o dos jograis ou bufões, artistas de feira – os tais mattaccini – tão em uso na época, pois com a máscara a personagem ficava, sem esforço histriónico do actor, definida, caracterizada de forma imediata e permanente – expressões fixas de riso, dor ou pranto. Como acontecia já no teatro grego. A partir da era de Quatrocentos, o uso da máscara generalizou-se como forma de representação cénica, em espectáculos nupciais. No teatro, permitia bizarrias fantásticas, alegorias de dança, pantomima, de representação de divindades e de intermezzos de música e de canto. A máscara e o teatro tornaram-se inseparáveis.

O uso da máscara em Veneza remonta à conquista do Levante, no início do segundo milénio. Encontra-se uma primeira menção a estes artefactos numa lei de 1268, que proibia os mascarados de, a coberto da impunidade do anonimato, arremessar «ovos» aos transeuntes. Estes não eram ovos vulgares, mas sim cascas ou bexigas, geralmente cheias de água de rosas, essências de almíscaro ou de jasmim. Embora os odores fossem geralmente amáveis, os visados ficavam encharcados da cabeça aos pés. Protegida pelas máscaras, gente de baixa condição permitia-se arremessar os ovos a pessoas de elevada estirpe. Uma outra lei, esta já de 1339, continha diversas prescrições quanto ao uso da máscara: vedando o disfarce por modum inhonestum, bem como o entrar-se mascarado nas igrejas ou nos conventos de freiras. Outra lei mais recente que a anterior, proibia o uso de armas verdadeiras como adereço dos disfarces. As armas usadas teriam também de ser simuladas e inofensivas. Esta lei veio como resposta das autoridades à vaga de crimes que, a coberto do anonimato da máscara, se cometia, por vezes à vista de muita gente. Nesta época, não existia a grande variedade de máscaras de rosto e de disfarces que nas eras de Quatrocentos e de Quinhentos veio a existir. Vendiam-se sobretudo nas bancas da Praça de São Marcos e constituíam variações em torno do rosto dos tradicionais mattaccini, berrantes, vermelhos e ornados de chifres.

No início de Quinhentos, começou a haver, não apenas em Itália, como em toda a Europa, grane interesse pelo teatro, não se limitando já ao reduzido público cortesão – estendendo-se a mesteirais e povo miúdo, com uma atitude expectante por parte da Igreja, atenta a manifestações que, de algum modo, possam dizer algo mais do que aquilo que de facto parecem dizer. Lembrando-nos do esplendor do teatro grego, talvez seja mais correcta a afirmação de que o interesse popular pelo teatro regressou e renasceu. Em Portugal, só no princípio de Quinhentos, e muito por mérito da obra de Gil Vicente, as representações litúrgicas, os mistérios que colocavam sobre as tábuas dos recintos teatrais cenas da vida de Cristo, as moralidades, caracterizando vícios e virtudes de personagens típicas da nossa sociedade, os momos, ou fúteis pantomimas representadas na corte, os sermões burlescos, onde actores vestidos de sacerdotes caricaturavam homilias clericais, toda esta ridícula tralha, deram lugar a um verdadeiro teatro – com actores, músicos, oficiais mecânicos especializados e, sobretudo, com autores em vez dos anónimos populares. Por toda a Itália, as máscaras passaram a ser usadas neste tipo de espectáculos, realizados por toda a parte – salas, praças e ruas de comércio ou feiras, principalmente pelos mattaccini, saltimbancos ou bufões que actuavam pelas ruas das cidades e aldeias em representações de dramas e farsas de gosto popular. Para além do uso das máscaras no Carnaval ou no teatro popular e de rua, outra função muito em voga era a de pôr máscaras e disfarces em festas e bailes, sendo, neste caso, obrigatório o seu uso por todos os convidados. A uma dada hora, as mascarilhas eram retiradas e reveladas as identidades. Eram as regras estabelecidas para o baile que se preparava para essa noite no palacete de Torriani. A hora marcada para retirar as máscaras era, como habitualmente, o bater das doze badaladas da meia-noite.

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