O MAPA (A saga do anadel/70) – Um déspota simpático»-por Carlos Loures

Pouco antes de morrer, já fraco e doente e querendo resignar ainda durante o tempo de vida que lhe restava, soube da pretensão de seu irmão Agostino em lhe suceder à frente dos destinos da República. Revoltou-se contra a ideia. Na sua opinião de homem honrado, tal ambição carecia de sentido. No dia da eleição travou-se em pleno Senado uma acesa discussão entre ambos. Após tentar dissuadir Agostino com argumentos razoáveis que apelavam sobretudo ao bom senso e para a evidência de que existiam candidatos mais credíveis, Marco, esgotada a argumentação e em desespero de causa, gritou colericamente a Agostino que se todos os outros senadores o conhecessem tão bem como ele o conhecia, outro que não o irmão lhe sucederia. Apesar de tudo, estas palavras do doge quase moribundo foram ultrapassadas por um significativo facto – o procurador Bernardo Giustinian, o principal adversário de Agostino, homem poderoso e pertencente a uma das famílias patrícias da República, mas tão velho e quase tão doente como Marco, retirou a candidatura e apoiou, em pleno conclave, o antagonista afirmando com a voz trémula – voi siete magnifico, ed ora sarete serenissimo! E no meio de uma tempestade de aplausos, fez questão de ser ele a colocar o corno dogático na cabeça de Agostino Barbarigo. Porém em Veneza tudo se pagava – por detrás desta reviravolta tão espectacular, estavam secretos acordos. Disse-se depois que Giustinian, sabendo que a sua saúde não lhe permitiria ocupar o cargo por muito tempo, vendera o seu decisivo voto a troco de benefícios duradouros para os seus descendentes. Estava-se no dia 30 de Agosto de 1486.

          

Desde a reforma introduzida nas leis pelo doge Domenico Flabanico, que governara entre 1032 e 1042, que não acontecia que um membro da mesma família sucedesse a outro no dogado. Quando ascendeu ao poder, Agostino tinha a idade de sessenta e seis anos, embora parecesse mais novo. Era, como disse, um homem proveniente de uma família rica e poderosa, embora pertencente à casta dos novos-ricos, anatematizada pelas famílias tradicionais. O seu imenso património era avaliado em setenta mil ducados, importância, ainda hoje, astronómica. Tinha, apesar de tudo e das más vontades que se mobilizavam contra ele, uma história respeitável, pois destacara-se na juventude como valeroso militar na campanha contra Ferrara e fora já governador de Pádua, Verona e Capodistria. Em todo o caso, apesar de poderosa, a sua família era considerada como «nova», por oposição à velha cepa veneziana, a estirpe das famílias patrícias. Estas não viam nunca com bons olhos a ascensão aos centros de decisão e muito menos ao dogado de pessoas como os Barbarigos. Em Veneza, como acontecia no resto do mundo civilizado, a nobreza do dinheiro imperava sobre a nobreza do sangue. Desde a fundação da República, as linhagens mercantis sempre haviam tido clara prevalência sobre as do sangue. Tudo se resumia a uma questão de antiguidade – famílias antigas e famílias novas. Embora se possa também dizer, para não faltarmos à verdade, que este conceito se pode aplicar a todas as linhagens dinásticas: em todas as nações a nobreza do sangue haviam sido, ainda algumas centúrias antes, também elas «nobreza do dinheiro» ou conquistada por via da força. Se recuarmos muito no tempo, chegaremos à conclusão de que todas as nobrezas de sangue começaram por o não o ser, pela mais ou menos brutal conquista do poder. Há por aí dinastias que dizem descender directamente de Cristo, coisa bem difícil de aceitar porque, segundo rezam as Escrituras, o filho de Deus não teve filhos. Mesmo que assim fosse e Madalena dele tivesse concebido, não era afinal Cristo filho de um modesto carpinteiro? Porém, a Nova Idade tinha chegado e, com ela, extinguiam-se velhas ideias e ancestrais certezas, linhagens e antigas estirpes de nobreza. Novas estirpes se iniciavam. Veneza não escapava à transformação do mundo.

        

Agostino Barbarigo, o homem que vos descrevi a traços largos e que acabara de entrar na Casa Torriani, era, apesar dos seus quase setenta anos, bem-parecido, de figura elegante, ostentando uma respeitável barba longa e encanecida. A sua pessoa impunha-se, pela aparência, solenizada pelas majestáticas vestes dogais (toucado bordado a ouro e encimado pelo corno, amplas vestes de brocado descendo até aos pés, comprido manto de veludo e pequena capa de arminho) e pela elegância do verbo, que, segundo se dizia, era capaz de comover até às lágrimas quem o escutasse. Não aceitava que o contradissessem, nem era saudável contradizê-lo. Podia dizer-se, sem receio de exagerar, que era um tirano, um déspota e um homem corrupto. Mas um tirano, um déspota e um corrupto simpático.

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