

Eu tenho uma teoria, difícil de provar, eu sei. Mas também quero lá saber. Eu explico, no entanto.
Não há rapazes maus? Pois não: são quase sempre péssimos, à partida. Depois e com o tempo, é que lá conseguimos discernir os bons, os beras e os ainda assim.
Os bons, os maus e os vilões. Foi sempre assim na escola da vida, na escola primária, liceus, universidades, tropa, empregos, lar.
A filosofia de Direita sabe disto (melhor que a de Esquerda) e sempre optou pelos beras, ou pelo menos pelos ainda assim, para se safar e singrar. Tanto do estratégico ponto de vista dos que mandam, como para se aproveitar dos que são mandados. Há também a estupidez mais ou menos congénita da humanidade, que pode obviar, mas isso é um outro assunto.
A filosofia de Esquerda assenta na luta de classes. Que explica tudo ou quase tudo – o “bem” e o “mal”, o capital e o trabalho, a sujeição, o poder, o despotismo, etc.
Mas depois contradiz-se quando (e bem, diga-se) fala em filhos da puta, em ladrões, em fascistas, etc. Discute comigo e com outros, sobretudo com os que como eu, não acreditamos de todo na bondade inequívoca e inata da tal humanidade. Desconfiamos mesmo dela, alguns dos outros e eu, o mais possível – basta estudar um pouco de História, mesmo sem ser a do Vilhena. Ou ter andado na escola – lá está. Se não, se todos fossem bonzinhos desde sempre, para quê haver leis? Ou regras? Que necessidade de códigos de conduta,de juízes, tribunais, etc.?
E lá vem então a Corrupção, fenómeno basto notável, maior nuns países do que noutros, mas necessariamente transversal e corrente. Os povos, a humanidade, são os mesmos, aqui ou na Escandinávia – todos intrinsecamente honestos e bonzinhos? São os mesmos, sim (Bíblia, Constituições, Direitos do Homem, etc.) mas não necessariamente todos honestos e bonzinhos. São péssimos, a meu ver. Foi talvez por isso que se inventaram as tais leis, as regras de conduta, os modos de participação. Entre as quais há, certamente, uma grande, enorme preocupação de evitar a Corrupção. De julgar a Corrupção. De condenar a Corrupção.
Em Portugal, no entanto (tudo leva a crer) pode já não ser considerada uma doença, crime ou algo de condenável, uma vez que ela, a Corrupção – além de instalada há muito, nos usos e costumes do nosso dia a dia – já faz regularmente parte de nós, da nossa identidade. Não interfere, não sobressalta, é uma coisa aceite.
Diria mesmo que quase que aplaudida pelo bom povo (o tipo é ké esperto, fez muito bem, se fosses tu ou eu, fazia o mesmo, tázaver ó meu?).
Geralmente começa por cima (o interessante artigo de jornal é apenas acerca de mais um dos milhares de casos semelhantes, sem fim à vista) mas com o tempo e dada a crescente impunidade com que é tratada, acaba por se estender a outras classes, que entram no jogo (cada vez menos arriscado) da corrupção. E também da corrupçãozinha: eu arranjo um emprego pró teu neto e tu compras-me este electrodoméstico sem factura. Eu cedo-te o meu lugar na lista de espera disto ou daquilo, tu ofereces-me isto ou aquilo. Ó freguês, tem aqui bilhetes prá bola, é o dobro do preço mas vale a pena, está esgotado.
Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem corrompes.
Naturalmente que é na Direita que os casos se multiplicam, é com a inteligente Direita que é mais acessível funcionar nesses termos, como se sabe. Ela, a Direita, é mais despreocupada e descontraída com estas coisas, com estas ninharias. Quando se afirmou, há quatro ou cinco linhas atrás que casos destes não tinham fim à vista, tratou-se de um engano nosso, de um precipitação.
O fim existe e é sempre o mesmo, embora leve o seu tempo (mas não custa muito, o tempo voa, mal se dá por ele): é só aguentar, encanar a perna à rã, distrair o já tão distraído pagode com umas merdas quaisquer televisivas e outras e prontos.
Até tudo voltar ao mesmo, ao sossegado e discreto sossego dos mesmos eternos filhos da puta todos. Geracionais e hereditários.
Carlos



