O MAPA (A saga do anadel/72)- Alma de almogárave – por Carlos Loures

Procurando não despertar atenções, Lourenço subiu a escada que vinha, dos andares cimeiros, desembocar no portego ou salão nobre da casa, o «salão dos espelhos» onde se realizava a festa. Aliás, em toda a arquitectura do palácio, se tornava evidente uma ânsia, partilhada pela gente rica, mas plebeia, da cidade, de, por via da ostentação, ascender até à altura de uma aristocracia que a pretensa, mas exigente linhagem do sangue nunca lhes concederia. Pilastras caneladas, capitéis coríntios, frisos escultóricos, de mármore ou bronze, com baixos-relevos, chaminés, uma profusão dos famosos espelhos locais, imitavam um gosto de algumas décadas antes e que, pela mão de grandes arquitectos como Brunelleschi, Battista Alberti ou Michelozzo, tinha assumido expressão, sobretudo em Florença, mas também em Roma, em Milão, em Nápoles e noutras cidades italianas. Quadros, esculturas e tapeçarias, completavam esse estilo empolado. Isto, numa altura em que a arte italiana florescia pelas mãos de Leonardo, de Rafael, de Miguel Ângelo…

O mercador veneziano, apesar de muito rico, não podia competir com, por exemplo, o riquíssimo e poderoso Ludovico o Mouro, duque de Milão, que tinha ao seu serviço, entre outros, o génio de Leonardo da Vinci. Porém, centenas ou milhares de epígonos dos grandes mestres, floresciam como cogumelos, colocando ao alcance de bolsas menos poderosas e de gostos menos exigentes a possibilidade de patrocinar imitações das obras desses mestres. Era o que ocorria no Palácio Torriani – uma mistura de gostos e de géneros, que demonstrava a riqueza do proprietário, conseguida sabe-se lá por que meios. Voltemos à escadaria.

         Fora por aqueles degraus que, minutos antes, o mercador e o secretário haviam subido, seguidos pelos estrangeiros. Desapareceram na curva em que se iniciava um dos dois lanços que, ladeando a parte central, conduziam ao primeiro piso.

Ouviu-se uma porta bater. Subindo devagar, com ar despreocupado, como se fosse pessoa da casa, Lourenço chegou ao átrio do primeiro piso sem ter despertado atenções. Parecera-lhe ter vindo dali o ruído da porta a ser aberta e fechada. Mobilado com coxins forrados de seda e com estátuas de mármore ou de bronze que, imitando figuras da Grécia e de Roma antigas, não só preenchiam cantos e recantos, como ladeavam também a entrada do corredor. Nos espaços livres das paredes, havia ainda alguns quadros, coloridos e ostentosos, mas da duvidosa qualidade a que já atrás me referi. As telas representavam austeras figuras e cenas bíblicas. Uma arte de inspiração moralista tentava compensar a falta de moralidade do dinheiro que a comprara.

Deste átrio, irradiava um corredor, de momento deserto e iluminado por archotes colocados em ambas as paredes, a espaços iguais nos intervalos existentes entre as portas e agarrados com metálica firmeza por braços de bronze que pareciam, vindos de outro mundo, irromper das paredes para os segurar.

Este corredor funcionava como espinha dorsal do palácio, pois para um lado tinha as salas que deitavam para o canal e para o outro as que ficavam para as traseiras onde se situava o bonito jardim por onde entrara. A escada prosseguia para um segundo piso superior, onde ficariam talvez os alojamentos da criadagem. Foi percorrendo, cauteloso como um gato, o corredor atapetado facilitava-lhe o não provocar ruído. Parava junto de cada uma das portas que se distribuíam, à direita e à esquerda, encostando um dos ouvidos. As primeiras salas por que passou estavam em silêncio. Foi andando silenciosamente. Parecia-lhe ouvir um distante ruído de vozes, mas não conseguira até então identificar a sua proveniência. Chegado ao centro do corredor, atrás de uma das portas fechadas do lado do jardim da casa, ouviu o ruído de diversas vozes que já vinha escutando desde o começo da busca. Era ali. Por sorte, não perdera muito tempo a dar com o local.

         Rodou lentamente, para não produzir ruído, a tranqueta da fechadura até abrir a porta que, felizmente, não estava fechada à chave. Pela cabeça de Torriani não passara a ideia de que alguém estranho à reunião pudesse ousar chegar até ao coração da sua fortaleza. Presunção muito útil aos propósitos de Lourenço. Empurrando um pouco a porta e espreitando pela frincha aberta, pôde observar que, em redor de uma grande mesa oval, à luz de velas e candeias, estavam sentados cinco homens, todos mascarados, mas de rosto descoberto, com as máscaras retiradas ou puxadas para a testa. Passou em revista os elementos presentes, deparando-se-lhe: o comerciante veneziano e o seu jovem secretário que manuseava com ar profissional alguns documentos, dois homens ainda novos, bem trajados com disfarces de seda e com ar distinto, embora austero e arrogante, que seriam, com certeza, os dois emissários de Castela. Contudo, surpresa das surpresas, o terceiro convidado era, nem mais nem menos do que o seu companheiro de bordo da Leeuwarden, o seu amigo Julián Nuñez vestindo um traje de médico. Tal como acontecia com as fantasias gastronómicas e com os disfarces de mascarados, na política, quase nada era o que parecia.

         Falavam agora todos em castelhano, incluindo Torriani e o seu empregado, que fazia episódicas e curtas intervenções de esclarecimento ao seu amo, pois ambos, ainda que com um acento fortemente italianizado, pareciam dominar com fluência o idioma dos nossos vizinhos. Lourenço falava-o também, embora com as imperfeições fonéticas apontadas pelo irmão Geovanni, pois em Portugal muitos o usavam como segunda língua, nomeadamente o pessoal ligado à corte, já que frequentemente rainhas e açafatas e gentes de suas comitivas de Castela nos chegavam. Muitos dos nossos reis aprendiam portanto o castelhano ao mesmo tempo que bebiam o leite materno, o mesmo acontecendo com os reis castelhanos, que aprendiam o português desde o berço, bebendo-o de suas mães. Era também uma língua de cultura, usada por poetas e dramaturgos. Lourenço aprendera-o com um bom frade toledano que fora seu professor na escola catedralícia e, assim, podia seguir toda a reunião sem perder uma palavra.

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