O MAPA (A saga do anadel/74) – por CARLOS LOURES

Devido ao incêndio que lavrava na maior sala do sobrado intermédio, ameaçando alastrar a outras dependências e mesmo aos pisos de baixo e ao de cima, estabelecera-se entre a maioria dos convidados e da criadagem grande confusão, à beira do pânico. Ao cabo de um período de total confusão, os mais serenos conseguiram, comandados por alguém mais calmo, ganhar alguma organização, acabando por se estabelecer uma cadeia humana que ia passando baldes de água de mão em mão, desde uma das fontes ornamentais do jardim até aos locais onde as chamas estavam a lavrar com maior intensidade no sobrado central. Decorrido pouco tempo, extinguiram o fogo que, afinal, fora mais aparatoso do que destruidor, pois apenas devorara os reposteiros, diversos móveis, livros e alguns quadros do salão do primeiro piso onde tivera lugar a reunião secreta e atacara a madeira das janelas desse. O calor produzido pela irrupção das chamas, fizera estalar os vidros das janelas desse salão.   A festa terminara de forma insólita, pois após aquele grande susto, algumas das pessoas foram partindo para suas casas. Outros convidados, entontecidos pela ingestão de bebidas e de excessivas iguarias, males agora bastante agravados pela inalação do fumo, vieram para os jardins, tropeçando, gritando, empurrando-se, injuriando-se. Algumas matronas e donzelas respeitáveis, perdendo a compostura devida à sua condição, gritavam, sem motivo, pois o perigo já passara. Havia também quem vomitasse junto das estátuas que rodeavam o tanque que ficava em frente da fachada principal. Sereias, anjos, jorrando água de suas bocas, bem como majestosos neptunos de pedra, assistiam impávidos a esta demonstração da fragilidade da humana natureza. Outros tinham vindo para o embarcadouro de madeira e aliviavam os estômagos nas águas no canal.

Porém, apesar de todo o pânico, do incêndio, ao cabo de poucos minutos apenas restava uma nuvem de fumo. A festa do rico mercador ficaria inesquecível para quem nela participou, sem que tal facto acontecesse pelas melhores razões: um assassínio de uma pessoa insignificante e um incêndio medíocre! No entanto, o crime e o fogo iriam ser, no entanto, os assuntos mais falados nos dias seguintes em Veneza. Até que outro acontecimento mais importante viesse remeter este para as trevas do olvido. Do outro acontecimento ali ocorrido, do roubo de um mapa, mais importante do que a morte do mercador e do que um incêndio de pouca monta, quase nenhuns, vieram a saber. Um dos principais interessados nesse negócio, o doge Agostino Barbarigo, cioso da sua segurança, logo aos primeiros sinais de perigo, apressara-se a abandonar a casa, metendo-se numa liteira, rodeada pela gente da sua comitiva. Não fora informado do desaparecimento da cópia do mapa, pois os seus guardiães tinham ainda esperanças de o recuperar e, por outro lado, as más notícias não devem ser dadas com pressa. Há quem mantenha o antigo costume de matar os mensageiros desse tipo de novas.

Três ou quatro dos mais fiéis sicários de Torriani, os emissários castelhanos, sangrando um deles da mão, que trazia envolvida num grande lenço branco que se ia tingindo de vermelho, e o outro, mais superficialmente, ferido na testa, o andaluz, ainda meio combalido pelo murro que sofrera, e o próprio comerciante anfitrião, talvez com o queixo fracturado, muito menos preocupados com o fogo e com os seus ferimentos do que com a perda do mapa, foram em sua demanda, perseguindo o português. O amanuense, com a face pálida, quase desvanecido de terror, nem esboçara a intenção de participar na batida ao lobo, deixando-se ficar, a tremer, desfalecido, encostado a uma parede.   *

Lourenço deixou-se conduzir por quem, na escuridão, o arrastara para o interior do palácio, logo fechando a porta de onde surgira. Foi guiado através de salas e compartimentos sem luz. Desceram umas escadas e entraram num extenso e gélido corredor. A pessoa que o guiara ia agora à sua frente, enquanto ele, sem parar de correr, se desfazia do toucado de bobo, bem como da mascarilha de seda e colocava sobre a cabeça o capuz do manto. Subiram umas escadas e entraram numa sala fracamente iluminada. Quem vinha a sua frente abriu uma porta e afastou-se para o deixar passar. Estava no pomar das traseiras, por onde entrara:

– Vá! – Disse a voz. O vulto estava agora mais perceptível pela luz que vinha do exterior. Era Elisabetta. Quis agradecer. Ela disse só: – Fuja, não perca tempo. Correu para a cancela de madeira, aberta no muro. O mapa fora guardado na bolsa que trazia junto do peito. Ao desembocar na rua, passada a cancela, esperava-o uma desagradável surpresa. Havia mais de uma dezena de guardas do doge, reconhecíveis pelas suas brilhantes couraças, todos eles fortemente armados, certamente atraídos pelo imenso ruído de gritos que se elevara do palácio e pelas colunas de fumo que se viam de outros pontos da cidade ou então, hipótese ainda mais provável, previamente colocados nas imediações quando se soubera que no palácio havia um enculca estrangeiro – Torriani dissera na reunião que «nem um rato poderia dali fugir». Na verdade, os soldados barravam-lhe o caminho em ambos os lados da estreita passagem, embora parecessem muito surpreendidos com o seu súbito aparecimento. Aquele homem envolvido numa adejante capa preta, correndo de cabelos ao vento e de espada desembainhada, tinha um aspecto suspeito e logo os colocou em alerta. Atrás dele, a matilha dos seus perseguidores, faziam-no assumir aos olhos dos alabardeiros o aspecto de um criminoso. Talvez fosse mesmo um assassino em fuga. Pois não tinha havido um apunhalamento mortal durante a festa? Tudo parecia perdido.

Todavia, nessa altura, dois homens, também eles embuçados em amplas capas com capuz, que os cobriam da cabeça aos pés, sendo um deles quase um gigante, vindos da retaguarda, abriram caminho entre os indecisos guardas, brandindo o mais possante dos dois, um cacete na mão direita e exibindo o outro, embora alto e forte, menos corpulento, uma curta, mas temível, adaga. Beneficiando da surpresa que provocaram com o seu aparecimento, aquelas duas sombras infernais alcançaram Lourenço que, empunhando a sua arma se dispunha a vender cara a vida. Agarraram-no um por cada braço e empurraram-no, incitando-o a correr para a esquerda onde apenas quatro homens munidos de alabardas lhes barravam o caminho. Na outra extremidade, além de haver mais guardas, em número de sete ou oito, estavam os perseguidores saídos do palácio. O cacete do gigante embuçado e adaga do seu companheiro, bem como a espada de Lourenço, produziram milagres entre a pequena hoste dos quatro espantados alabardeiros. Lourenço apenas os ameaçava com a lâmina descrevendo um círculo em seu redor. O gigante ia dando cacetadas e amachucando as borgonhotas que protegiam os guardas de maiores estragos. Os homens, talvez mal pagos, não pareciam dispostos a arriscar-se contra aqueles três adversários que parecendo ter saído do Inferno, estavam como que enlouquecidos. Lourenço e os seus dois salvadores abriram com alguma facilidade uma brecha e os guardas deixaram-nos escapar-se por ela, parecendo aliviados por verem afastar-se aqueles furacões humanos. Os outros oito guardas que tapavam o extremo oposto da rua, vieram juntaram-se aos primeiros, os que tinham sido derrotados, e a este grupo de doze alabardeiros, colou-se o outro, o mais perigoso, por mais empenhado na perseguição, o do mercador, dos castelhanos, do andaluz e de três ou quatro sicários de Torriani. Era, no seu conjunto, uma matilha de quase vinte homens que perseguiam, gritando em forte alarido, os fugitivos.

Estes, corriam como só é capaz de correr quem tem a vida em perigo, com os perseguidores gritando escassos metros atrás. Pouco a pouco, no entanto, bastante mais ágeis, os três fugitivos foram ganhando avanço. Para tal, iam dobrando esquinas, meteram por esconsas ruelas, atravessaram pontes, correram ao longo de canais e, deste modo, acabaram por despistar a matilha, ululante, mas desordenada, que os seguia. Ofegantes, sem alento, ocultaram-se sob a protecção de um portal de uma igreja, a de Santa Maria Formosa, no Campo do mesmo nome. Ficaram calados, pois não conseguiam falar, durante alguns minutos estiveram recuperando o fôlego. Ao longe, ouviam-se os gritos dos perseguidores e, provocados por estes, os ladridos e uivos de numerosos cães espalhados pela urbe. Finalmente, os homens que tinham salvo Lourenço de ser preso ou de sorte ainda pior, descobriram os rostos suados pelo esforço. Quase deixava cair a espada, tal o espanto que o tomou ao ver-lhes as caras. Os seus salvadores eram Jan Peter, o contramestre e, surpresa talvez ainda maior, Diogo, o beleguim que lhe fizera a vida negra em Lisboa.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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