
A REDUÇÃO DO DÉFICE EM 2016 FOI CONSEGUIDA À CUSTA DA SEGURANÇA SOCIAL, DA FUNÇÃO PÚBLICA, DO INVESTIMENTO PÚBLICO E DA CONTENÇÃO DA DESPESA DO SNS

O governo e seus defensores na comunicação social gabam-se de ter conseguido reduzir o défice orçamental em 2016 para além do que era exigido pela própria Comissão Europeia, e de ser mesmo o mais baixo depois do 25 de Abril, como a redução do défice fosse o objetivo mais importante a alcançar. Em tais comentários parece estar implícito, embora o não afirmem, que tudo, ou quase tudo, se deve sacrificar no altar da redução do défice. Mas mais importante que a redução do défice, embora a redução do défice sustentada deste seja também importante pois o défice aumenta a divida, é saber como o défice de 2,3% ou mesmo de 2,1% foi conseguido em 2016, se a redução é sustentada e quais os seus efeitos. É o que vamos esclarecer, utilizando os dados divulgados em Jan.2017 pelo Ministério das Finanças sobre a execução orçamental das Administrações Públicas.
O DÉFICE DO ESTADO AUMENTOU EM 2016, MAS O DÉFICE DAS ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS DIMINUIU À CUSTA DOS EXCEDENTES DA SEGURANÇA SOCIAL E DA ADMINISTRAÇÃO LOCAL
O quadro seguinte, com as variações dos saldos das diferentes Administrações Públicas (dados do Ministério das Finanças), mostra como foi obtida a redução do défice global em 2016.
Saldos das contas das Administrações Públicas em 2015 e 2016

Entre 2015 e 2016, o saldo negativo (défice) da Administração Central, que inclui o subsetor Estado e os Serviços e Fundos Autónomos, aumentou em 113 milhões € pois passou de -6.337 milhões € para -6.450 milhões€. Este aumento foi mais que compensado pela subida do saldo positivo (excedente) da Segurança Social que, no mesmo período, aumentou de 1.037 milhões € para 1.559 milhões € (+522 milhões €). E entre 2015 e 2016, a Administração Regional conseguiu reduzir o défice em 167 milhões €, pois passou de -194 milhões € para apenas -27 milhões €, e Administração Local, embora o seu excedente tenha diminuído em 79 milhões €, o seu saldo manteve-se positivo em 2016 pois foi de 662 milhões €. Em resumo, a redução do défice global das Administrações Públicas (497M€) foi conseguido à custa do aumento significativo do excedente da Segurança Social (+50,4%,) que, em 2016, atingiu +1559 milhões € e do excedente da Administração Local. Mas o aumento reduzido do défice da Administração Central foi conseguido à custa do congelamento dos salários e das carreiras dos trabalhadores da Função Pública e de um corte significativo no investimento como vamos ver.
OS JUROS DA DÍVIDA PÚBLICA JÁ REPRESENTAM 58% DAS REMUNERAÇÕES CERTAS E PERMANENTES DAS ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS E, EM 2016, FORAM 2,1 VEZES SUPERIOR AO INVESTIMENTO
Este quadro, com dados do Ministério das Finanças, mostra o que sucedeu em 2016:

Como os dados do Ministério das Finanças do quadro anterior revelam, o aumento registado nas Remunerações Certas e Permanentes de todos os trabalhadores da Função Pública (355 milhões €) foi fundamentalmente determinado pela reposição dos cortes salariais feitos pelos governos de Sócrates e Passos Coelho, mantendo-se o congelamento das remunerações e das carreiras dos trabalhadores da Função Pública, o primeiro desde 2009 e o segundo desde 2000, o que tem causado a degradação das condições de vida destes trabalhadores. Uma parte destes trabalhadores (cerca de 300.000), com remunerações mais baixas, nem tiveram a ilusão da reposição dos cortes. Para além disso, e como mostra o quadro anterior, a redução do défice foi conseguida também através de um corte importante de 9,9% no já reduzido investimento público (-433 milhões € do que em 2015, e -956 milhões € do que constante nos orçamentos aprovados para 2016), com efeitos negativos significativos na recuperação económica e no desenvolvimento do país.
Os dados do quadro anterior revelam também uma situação preocupante que deve merecer uma grande atenção e reflexão por parte dos portugueses. Os juros pagos pelo Estado, aqui no sentido mais amplo, já representam 42% das Despesas de Pessoal de todas as Administrações Públicas (Central, Regional e Local) e mais de 58% das Remunerações Certas e Permanentes de todos os trabalhadores da Função Pública. Em 2016, o gasto com juros correspondeu a 2,1 vezes o Investimento realizado por todas as Administrações Públicas neste ano. E o défice global de todas as Administrações Públicas em 2016 somou -4.256 milhões€, mas se retirarmos os juros, este elevado défice transforma-se num enorme saldo positivo (excedente) de 4.029 milhões €.
Em conclusão, os juros e os encargos com a divida publica já se transformaram num grave obstáculo à recuperação económica e ao desenvolvimento do país, pois estão a impedir que o Estado assuma a sua função importante de dinamizador da recuperação económica e do desenvolvimento. A despesa com juros, já que é a causa do défice, está a ser utilizada para justificar a degradação das condições de vida dos trabalhadores das Administrações Públicas através da manutenção do congelamento de salários e das carreiras desde 2009 (as carreiras desde 2000). Portanto, na análise da redução do défice é preciso ter presente o que está por detrás, e analisar como foi conseguida, se foi de uma forma sustentável e justa ou não. É preciso que “arvore não oculte a floresta” e não cegar.
COMO ESTÃO A SER OBTIDOS OS ELEVADOS EXCEDENTES NA SEGURANÇA SOCIAL QUE TÊM SIDO UTILIZADOS PARA REDUZIR O DÉFICE GLOBAL PARA “VALORES HISTÓRICOS”
Para compreender corretamente o que está a suceder na Segurança Social é importante ter presente alguns dados oficiais. Eles constam do quadro seguinte:
A politica do governo PS do combate à pobreza em números

