Com viagem programada para “fugir do Carnaval”, resolvi compartilhar com os leitores do nosso blog, não apenas algumas reflexões de uma antiga Carta do Rio sobre minha pintora predileta, mas, o que diz muito mais do que quaisquer palavras, alguns exemplos da própria pintura de Vieira da Silva.
Na Carta do Rio 29, de 16 de dezembro de 2014, pude escrever sobre essa grande artista portuguesa:
Sua pintura diferente, híbrida, ora abstrata ora figurativa e as duas coisas ao mesmo tempo, é vertiginosa, labiríntica e expansiva em sua nova concepção da perspectiva, que sugere muitas palavras, títulos que poderiam ter os ensaios sobre ela, todos muito contrastantes, verdadeiros oximoros: Estruturas da Impermanência, ou Vertigem da Modernidade, ou Labirintos da Incerteza, ou Itinerário do Aberto, para sugerir apenas alguns…
Também escrevi o que insisto em repetir agora:
No século XX, assim como a literatura deixou de ser a escrita da aventura para tornar-se a aventura da escrita, da qual nossa Clarice Lispector é uma das mais ricas expressões, penso que a pintura de Vieira da Silva, além de ter deixado de ser a pintura do real para tornar-se uma espécie de real da pintura, é também um pensamento da pintura sobre o real. Sua pintura pensa e nos faz pensar. Ela mesma disse certa vez: “A gente finge que trabalha, mas não trabalha, medita.” E também disse que de nada tinha certeza: “É a incerteza que é a minha certeza!”
E evoquei observações do poeta francês, de quem Vieira foi durante muitos anos vizinha, além de amiga muito fraterna:
René Char, disse de forma definidora e definitiva: A obra de Vieira da Silva surgiu e o aguilhão de uma suave força obstinada, inspirada, reinstalou o que é preciso chamar de arte no mundo solidário da terra, que corre, e do homem, que se espanta.
Citei também o que havia escrito a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen, ao descrever um dos quadros de sua compatriota:
As paredes, o chão, o teto avançam para o fundo. Mas no fundo outro espaço desponta. E em cada espelho um novo espaço nasce. É um lugar onde tudo está atento, denso de memória e de veemência. Lugar de revelação, de espanto e cismar e descobrimento.
É interessante observar que os dois poetas usam a palavra espanto. E quando Sophia se refere ao “novo espaço que nasce” , assim como ao “ descobrimento”, e ao “cismar”, percebemos mais uma vez as afinidades de Vieira com Clarice Lispector, cuja obra se apresenta igualmente como um constante e inquieto perguntar, um espantar-se diante da vida e do mundo, só comparável ao deslumbramento dos primeiros filósofos gregos, os pré-socráticos.
E naquela antiga Carta, eu ainda afirmava que…
A perspectiva em Vieira da Silva não é uma perspectiva matemática (geométrica) , não é a que se estudava nas escolas de antigamente, mas a que poderia ser chamada de “perspectiva atmosférica” ou perspectiva aérea, essa que ela parece visualizar como se sobrevoasse cidades, portos, bibliotecas, edifícios. É muitas vezes uma visão esvoaçante, vertiginosa mesmo: um turbilhão. Tudo se passa como se num delírio, ou sonho, ela voasse sobre as cidades e as pintasse a partir do movimento vertiginoso de seu voo.
Sabe-se que Maria Helena Vieira da Silva e seu marido, Arpad Szenes se refugiaram no Brasil, durante 4 anos da Segunda Guerra Mundial. Fizeram aqui muitos amigos, entre os quais vários poetas: Cecília Meireles, Murilo Mendes e Manuel Bandeira, de quem transcrevo agora esta apreciação crítica:
O que fere desde logo a atenção de quem olha os trabalhos de Maria Helena é essa livre e surpreendente agilidade com que ela divaga nos domínios da fantasia. (…) E quanto à segurança de sua técnica basta apontar o quadro Guerra, magistral composição em que o espírito de unidade (…) conjuga todos os monstros inumeráveis do assunto para dar-lhes quase um equilíbrio lúcido de um espetáculo de circo. (Crônica publicada em 10 de julho de 1942, no Jornal A Manhã).
Melhor, porém, do que todas as palavras, é nos deixarmos emocionar e maravilhar diante dos quadros da grande portuguesa, privilégio do qual já tive a oportunidade de desfrutar, no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva, de Lisboa, na encantadora companhia de Clara Castilho, minha querida amiga e editora.






Muito, muito interessante, Rachel. É incrível a sua capacidade de quase sempre me surpreender com algum artista ou escritor do qual eu nunca tinha ouvido sequer falar. Essa Vieira da Silva faz quadros que me dão a impressão de terem a marca de Escher num estilo contemporâneo. E aproveito para dar um palpite meu, como muitas vezes faço: Você poderia também chamar aquela pintura com muitos títulos de “Homenagem a Heisenberg”, o criador da Teoria da Incerteza. Maravilhosa essa obra da pintora. Pena que são só três quadros. Beijos, amiga.
Obrigada, querido Davy. Seus palpites, sempre ótimos, são recebidos com prazer e alegria.,
beijos,
Vieira da Silva sempre exerceu em mim um fascínio enorme. Já visitei o Museu, em Lisboa, várias vezes, sempre encontrando novos motivos de interesse para apreciar.
Também Sophia de Mello Breyner, a minha poetisa Portuguesa preferida, aqui foi recordada.
Muito obrigado por estas lembranças.
Um beijo, minha amiga