CARTA APÓCRIFA DE BOCAGE AO MARQUÊS DE SADE
Meu Marquês,
É com grande alegria que lhe escrevo esta terceira carta. Li as suas palavras que fizeram de mim um seu eterno discípulo nas lides do sadismo “in extremis”. Foi por sorte que pude receber a sua última carta, apenas porque esse seu amigo francês mexe-se que nem uma pulga sórdida nos meandros execráveis desde podre clero português.
Talvez esta seja a minha última oportunidade de lhe escrever por isso quero deixar uma confissão e um pedido, que espero ver tão bem recebido por si quanto nossas porras são em sedosas cricas.
Decorria o anno de 1787, frequentava eu os estudos regulares de oficial da marinha em Pangim, quando em certa noite festiva, privando do convívio de oficiais e marechais de várias nações, conheci um dos meus grandes amores da vida, entre as muitas freirinhas velhas e novas que perfumavam o salão do palacete do governador.
Cabelos negros, pele morena, olhos castanho-esverdeados, opulenta, de apenas dezassete annos de idade, pia jovem tão cândida no andar mas lasciva no olhar, de seu nome Joana D’Alcoforado. Foi nessa noite que, Meu Marquês, vi o mais belo rosto de mulher que alguma vez vira. Bebi, dancei e muito conversei com esta jovem. Embora noviça, percebi que era uma das freirinhas mais respeitadas do grupo. Depois da festa acabar, eu e uma mão-cheia de oficiais mais vigorosos fomos convidados secretamente a passar o resto da noite no convento de Santa Mónica no monte santo, fundado em 1606 pela vontade da então abadessa Filipa Ferreira, uma dama rica e viúva. Meu Marquês, pois que a festa apenas tinha começado. Mal chegámos ao convento, confesso que o que vi tudo se parecia menos do que um ambiente espiritual, prepararam-nos um serão íntimo nos arejados claustros do convento, repleto de opulências, favores trombiqueiros e abundosos pinos. A festança foi tal que no dia seguinte consegui fugir com a tal Joana sem ninguém dar por nada.
Fugimos na primeira frota de naus com destino a Portugal pois que a minha mais bela amante tinha uma missão: desvendar a verdade por detrás das famosas cartas de sua trisavó Mariana Alcoforado ao Marquês de Chamilly, conhecidíssimas também no interior das ordens religiosas das Índias. Durante as várias semanas da viagem que vivemos escondidos na nau, com a conivência de vários conhecidos meus da marinha, experimentámos as mais deleitantes diabruras da arte do coito que vós, Meu Marquês, tendes escrito nessas grandes obras primas das letras nesse país da liberdade.
Depois de chegarmos a Lisboa, minha amante freirinha D’Alcoforado seguiu para Beja e nunca mais a voltei a ver ou saber novas. Antes de partir, deixou-me um pedido do coração que lanço agora para si, Meu Marquês, pois só a sua pessoa poderá mover a mão divina do destino: por favor que interceda junto de alguém influente e erudito na República de França para que venham à luz do dia as cartas de amor de Mariana Alcoforado, trisavó da minha mais bela amante. Sei bem que não será em vão esse seu favor, para o bem da liberdade e da verdade.
Em jeito de gratidão da sua acção, encerro esta carta com um soneto dedicado à sua pessoa:
Não lamentes, oh Nise, o teu estado:
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:
Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cléopatra por puta alcança a c’roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que ainda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fique, pois, oh Nise, duvidosa
Que isto de virgo e honra é tudo peta.
Receba do seu amigo os melhores cumprimentos,
Barbosa du Bocage
em 4 de Abril do anno de 1800
Real Hospício das Necessidades, Lisboa.
[criação baseada em alguns factos verídicos
por FILIPE DE FIÚZA]
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fique, pois, oh Nise, duvidosa
Que isto de virgo e honra é tudo peta.
Receba do seu amigo os melhores cumprimentos,
Barbosa du Bocage
em 4 de Abril do anno de 1800
Real Hospício das Necessidades, Lisboa.
[criação baseada em alguns factos verídicos
por FILIPE DE FIÚZA]
