O MAPA (A saga do anadel/80)- por Carlos Loures

Mar Mediterrâneo, Outubro de 1487.

 

No dia seguinte, já em plena viagem, Lourenço achou um esconderijo seguro para o mapa: uma estreita fenda aberta entre uma trave do porão das mercadorias e o tecto. Fê-lo numa altura em que ninguém estava por perto. Embrulhou o mapa num pano resistente, para o proteger da humidade e introduziu-o na fenda, cobrindo-a depois com uma massa feita de pão, água e escuras aparas de madeira que obteve raspando o soalho com a sua adaga. Estava talvez demasiado bem escondido. Memorizou o local exacto contando as vigas, pois o disfarce era perfeito e havia o perigo de não conseguir descobrir o esconderijo quando chegasse o momento de abandonar o navio. O facto de só ele o conhecer, tranquilizava-o.

         Os dias decorreram sem ocorrências dignas de menção. Uma viagem calma, sem tormentas nem incidentes. Diogo e Lourenço tinham pago uma quantia que permitia serem tratados como passageiros, não lhes sendo pedido que trabalhassem. Dulmo, que além de espião era também um homem do mar, engajara-se como tripulante. Diogo vagueava pelo barco, ajudando logo que o capitão lho pedia. Lourenço não trabalhava tanto, mas nunca negava a sua ajuda. Lia livros da pequena livraria do capitão, conversava ou jogava xadrez com este, um astucioso jogador. Embora se tratasse de arte demasiado lenta para o seu feitio vocacionado para o movimento e para a acção. Mas o capitão era simpático e a Lourenço dava prazer a alegria que manifestava sempre que vencia, o que acontecia quase sempre. O que recusara ao frio Van der Meer, concedia ao cordial Perrin.

         A fusta Saint-Louis era pouco maior do que uma caravela comum, com uma capacidade aproximada de cento e cinquenta tonéis, embarcação leve e esguia, concebida para o comércio no Mediterrâneo e para a navegação de cabotagem nos portos europeus, Provida de uma vela redonda, possuía além dos trinta tripulantes, uma chusma de quarenta remadores, vinte a cada um dos bordos. O armamento era reduzido, apenas quatro falconetes. A melhor arma para poder fugir a ataques de piratas, era a sua esbeltez e elevada velocidade. Com vento a soprar de feição, tornava-se presa difícil de apanhar. Só o fogo de bombardas a poderia deter.

Tudo parecia correr da melhor forma e tinham já ultrapassado por estibordo as costas de Itália e de França, de Aragão e do Reino de Granada, navegando agora com a Andaluzia à vista, por entre uma leve neblina que cobria a verdejante paisagem de montes e colinas pontilhadas de pequenas aldeias. A bombordo, a costa de África perdera-se na distância. Viajando para ponente e tendo apanhado bom vento de levante, quando tinham ultrapassado Cádis e navegavam em águas atlânticas, foram interceptados por uma caravela com as cores de Castela que surgiu, navegando com rapidez, vinda da costa andaluza. Como se os esperasse.

A fusta tentou fugir, pois a caravela vinha longe quando foi avistada pelo gageiro e, com mais pano e maior força de remos, era mais rápida do que a nave castelhana, também ela ligeira e veloz. Porém, um tiro de bombarda cujo pelouro caiu poucas braças adiante da proa erguendo uma grande coluna de espuma, aconselhou a arrear velas e a esperar que de bordo da caravela viesse um escaler com cerca de vinte homens armados. Lourenço, Diogo e João Dulmo misturaram-se com os tripulantes. Os soldados não lhes deram mais importância do que a qualquer dos outros. Segundo disse o oficial que subiu a bordo, seguido por homens de armas, a fusta francesa era, de acordo com as leis de Castela apoiadas pela bula papal, considerada um navio corsário que poderia ser afundado e executados os seus tripulantes, caso assim se justificasse. De nada serviram os protestos do comandante que demonstrou não possuir outras armas que não fossem as indispensáveis à defesa do barco, nem outra carga que não a mercadoria adquirida em Veneza e que se destinava quase toda aos portos da Flandres, estando prevista uma escala em Lisboa, onde meteria carga, sobretudo marfim. Tinha toda a documentação em ordem e as listas de carga emitidas pelas autoridades venezianas coincidiam com o que se guardava nos porões. Não havia lugar para suspeitas. O oficial simulou nada compreender, invocando ignorância da língua. Os soldados começaram a revistar o barco de alto a baixo. As operações de busca eternizavam-se sem resultados. Passada cerca de uma hora, chegou o navio de Van der Meer que lançou âncora a poucas braças.

         Esperar pela Leeuwarden era a causa evidente para o barco ter sido interceptado, dando tempo aos inimigos de Portugal para chegar. Tendo partido antes da Saint-Louis, a carraca tinha arribado a Cádis e combinado com as autoridades castelhanas a forma de interceptar o barco onde sabiam viajar os agentes portugueses. Confirmando a dedução, transportando-se num escaler, Van der Meer e Julián Nuñez subiram a bordo da Saint-Louis. Com eles vinham os dois emissários de Castela, que deviam ser gente importante, pois o oficial desfez-se em vénias. Um deles, aquele cuja mão direita Lourenço cravara no tampo da mesa, trazia-a ainda ligada e lançou um olhar de ódio logo que descortinou o português, apesar dos esforços que este fazia para passar despercebido, escondendo-se na última fila de tripulantes alinhados no convés. O andaluz ostentava algumas equimoses na face provocadas pelo soco desferido por Lourenço. Desta vez, não se deu ao trabalho de simular amizade, o que, teria sido inútil. Todos os recém-chegados foram lestos em apontar Lourenço e João que logo se viram presos e acorrentados pelos soldados de Castela. Diogo, que parecia ter escapado, foi pouco depois identificado por Julián, que reconheceu nele, Muhammad. A situação não se apresentava favorável para os portugueses.

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