CRISE DA DEMOCRACIA, CRISE DA POLÍTICA, CRISE DA ECONOMIA: O OLHAR DE ALGUNS ANALISTAS NÃO NEOLIBERAIS – 2. PARADOXOS EM MACROECONOMIA E A MODERNA ECONOMIA POLÍTICA (1ª PARTE), por HEINER FLASSBECK –

Selecção, tradução e dedicatória por Júlio Marques Mota

Paradoxos em macroeconomia e a moderna economia política (1ª Parte) – A contribuição de Wolfgang Stützels para uma economia racional

Heiner Flassbeck[1]

 

Dedicatória

Dedico este trabalho de edição, que foi extremamente violento acrescente-se, aos meus colegas Luis Peres Lopes, Margarida Antunes e Clara Murteira, pelo trabalho que vão realizando em cada um deles num dos temas específicos aqui tratados. Ao Luis Peres Lopes pelo trabalho aquando da sua licença sabática sobre a criação de moeda ex-nihilo, à Margarida Antunes pelos seus trabalhos, a merecerem outra divulgação, sobre os mercados de trabalho neoclássicos, à Clara Murteira sobre o seu trabalho sobre as pensões de reforma.

Mas uma coisa mostra este texto, se com ele estamos de acordo, e eu estou completamente de acordo com tudo o que nele está escrito, é que toda e qualquer análise ao nível dos temas citados não deve nunca ser parcelar, isto é, não dever nunca deixar de ter como base as relações fundamentais da macroeconomia. Não o fazer, significa então fazer raciocínios parcelares ou incorretos, significa também no plano das medidas de política económica, ficar aquém do necessário ou assumir decisões que em termos de política são puramente colaterais em face das soluções necessárias ou até serem contraproducentes relativamente a estas necessidades. Sejamos claros, tomemos um exemplo mesmo à mão, tomemos como exemplo a política de flexibilização quantitativa do BCE, mecanismo puro de criação monetária ex-nihilo.

Tudo isto porque a filosofia política que anima as Instituições Europeias é a oposta do que aqui logicamente se defende. Com efeito, muitos centenas de milhares de milhões foram já injetados na economia europeia e a pergunta a fazer é então: onde está o crescimento que a criação de moeda deveria gerar, se inserida à partida no processo produtivo? A lembrar aqui portanto Wilhelm Lautenbach e Michael Pettis, os últimos autores que publicamos com textos sobre este tema.

Nesta dedicatória devo também envolver, por um lado, quem me possibilitou estes dois textos, o original alemão e o texto francês cujas versões são diferentes, o Francisco Tavares, e, por outro, as pessoas a quem peço que me revejam o texto, o José Pinto Eduardo e o António Martins da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

O trabalho que edito junta a versão alemã e a versão francesa do texto. em alemão “Gesamtwirtsschaftliche Paradoxa und Moderne Wirtschafttspolitik”, em francês “Quatre grands débats en Allemagne: le rôle de la logique dans la politique économique moderne”.

Coimbra, 18 de Novembro de 2016

Júlio Marques Mota

1. Introdução à versão alemã

Se agora passarmos em revista a contribuição de Wolfgang Stützels para a ciência económica e a confrontamos com o estado da arte da política económica actual ficamos numa situação que podemos situar entre o desespero e o cinismo, entre a raiva e o espanto e – muita dor. Wolfgang Stützels escreveu sobre a mesma coisa há já trinta anos. Nos cursos de teoria e política económica, a que chamou com algum carinho o seu “Seminário [Oberseminar é um seminário avançado para graduados…]”, o participante neste seminário começava invariavelmente a sua apresentação com os modelos teóricos ambiciosos e pomposos e acabava, quase sempre, em consequência de erros que ele mesmo cometia ou “estimulado” por Wolfgang Stützel por uma recusa da mecânica dos balanços/equilíbrios económicos. [modelos teóricos do equilíbrio geral]. Porém, estes participantes devido ao conhecimento limitado que tinham das identidades contabilísticas da macroeconomia cometiam também aqui alguns erros na sua análise o que levava a que Stutzel lhes desse algumas lições sobre estas identidades. Estes cursos e os seus modelos teóricos,[ o modelo neoclássico] seriam ainda hoje os cursos preferidos por muitos economistas e políticos, pelos decisores das políticas económicas . Assim, tal como então, na discussão da política económica atual são introduzidas, constantemente, posições acerca das quais já sabemos, por razões que tem que ver com a mecânica dos equilíbrios económicos (saldenmechanischen) que não são sustentáveis.

Apesar disso, ou talvez por causa disso, os economistas, especialmente na Alemanha, têm uma relação ambivalente para com os seus fundamentos lógicos. Um matemático que, nas suas apresentações, se distancie sempre das operações aritméticas básicas, rapidamente reduziria a sua disciplina ao silêncio. Um físico que, nas suas inferências tivesse “refutado” , casualmente, ou, simplesmente ignorado as leis de Newton, seria certamente desarmado em poucos minutos pelos seus pares. Na economia é diferente: nesta área é-se verdadeiramente virtuoso quando alguém se distancia das “identidades” e da “mecânica dos saldos” não importando sequer quantas vezes se viola a lógica pura.

A observação de que uma afirmação está baseada na “mecânica dos saldos” é vista em certos círculos como um dos contra-argumentos mais fortes[2]. Isto é como se alguém dissesse a um físico que a sua afirmação é “demasiado lógica “ e, por isso mesmo, não pode ser válida. Quando os nexos, contextos ou relações, são enfraquecidos ou são mesmo subvertidos, o economista moderno sente-se, especialmente na Alemanha, mais confortável. Se nada mais é contestável (no sentido de poder ser objecto de discussão e crítica) tangível mas em vez disso se é deixado a uma grande arbitrariedade, todos podem comentar sobre qualquer tema e declarar que os seus próprios objectivos são um resultado convincente da ação das leis económicas, sem que ninguém o possa obrigar a regressar ao trabalho oficinal .

No sentido de Stützels e em seu apoio quero agora analisar com um certo detalhe alguns dos preconceitos modernos, e que são devidos especialmente ao fracasso dos economistas no campo da lógica pura. Muitas das posições que são hoje consideradas de modo bem apressado como sendo uma questão de teoria ou de ideologia para as imunizar contra o criticismo a que podem ser sujeitas, segundo a velha expressão de “serem apenas opiniões diferentes “ representam, em termos de crítica, não um problema quanto à sua alegada natureza, mas apenas uma posição conscientemente assumida ou um pensamento impreciso. A natureza do debate na economia deixa imensos e inconfundíveis traços na política económica. Não há nenhuma questão económica em que um não economista, um advogado, um empresário ou um professor do ensino médio não tenha a sua própria visão ou interesse no “conhecimento mais elevado” (J,A. Schumpeter) e não a possa explicar, sem se referir aos economistas de profissão.

O insucesso da ciência económica na Alemanha não é fácil de explicar. Já não há aqui intelectuais independentes como Wolfgang Stützel. Os economistas dividem-se entre aqueles que estão embebidos e interessados em irem muito fundo em nichos muito pequenos e portanto de pouca relevância, ou seja, sem olharem para o futuro, e aqueles que estão desde sempre fora do pensamento dominante e dos seus interesses próprios e sem nenhuma perspectiva de influência ou de outras compensações da moderna sociedade de informação. Mas se os economistas não integram no debate político a lógica macroeconómica, isto leva a que este debate degenere num discurso ideológico ou se traduza simplesmente em simples análise económica, em simples cálculo económico. No que diz respeito quer aos empresários quer aos trabalhadores, somente a experiência económica molda a compreensão do que é a economia, uma permanente correcção é então necessária pela teoria económica se a política económica se quer situar ao nível das decisões racionais. Na grande maioria das questões actualmente em debate, a discussão na base “das questões de fé ” está somente situada na segunda ou terceira linha. Se o debate fosse feito com base numa análise económica sem preconceitos, muitas “questões de fé”, seriam resolvidas por si sós, porque determinadas posições ficariam, a priori, “não ocupadas” e ficam, portanto, facilmente descartáveis.

2. Introdução à versão francesa

Tem-se às vezes a impressão na Alemanha que a política económica deveria inspirar-se inteiramente nos métodos da política internacional: tratar-se-ia por conseguinte apenas em avaliar os interesses em presença, de ter em conta os poderes dos grupos constituídos e de pôr em marcha mecanismos de arbitragem entre eles. Quanto à política económica moderna, esta seria reduzida ao papel de se vergar aos constrangimentos da mundialização e a garantir a flexibilidade da economia. Com efeito, os fatores de coerência económica, “as leis”, como se dizia antigamente, já não existem. Desapareceu todo e qualquer vislumbre de lógica. Tudo é “mercado”, e quando “o mercado” estabelece as suas exigências, a política só tem uma coisa a fazer, satisfazê-las. É assim que os debates em torno de questões essenciais como as pensões de reforma, os impostos e os salários degeneraram e transformaram-se em discussões anémicas entre os representantes de diversos grupos de interesses, e cuja saída ou resultado já só depende da capacidade de tal ou tal lóbi em se impor politicamente.

Quereria na exposição que se segue voltar à origem de alguns preconceitos modernos, imputáveis antes do mais às insuficiências dos economistas no domínio da lógica pura. Muitas teses que, hoje em dia, sobre as quais se declara apressadamente que são do domínio da teoria ou da ideologia, procurando assim coloca-las ao abrigo da crítica em nome de uma necessária divergência de opinião, não pertencem e de modo algum, se as analisarmos com um olhar crítico a uma qualquer destas duas categorias, mas contrariamente ao que se afirma, decorrem pura e simplesmente de raciocínios caracterizados pela ausência de rigor, seja isto dito de forma consciente ou inconsciente.

Vamos desenvolver a seguir quatro exemplos das insuficiências da ciência económica moderna.

(continua)

________

[1] Foi membro do gabinete de Oskar Lafontaine e responsável dos estudos económicos da UNCTAD em Genebra.

[2] Veja-se por exemplo a resposta de Rolf Langhammer (o comércio internacional não destrói empregos) como uma resposta aos meus argumentos (in the ZEIT of the 2nd / 9th / 16th March 2000). Neste seu texto, o autor acusa-me de falácia quanto à “mecânica dos saldos setoriais“ e com o argumento, sobre a perda de empregos de que eu falo, de que os défices correntes são anulados pelos excedentes e que portanto há uma destruição de empregos que é depois compensada por um ganho de empregos correspondente, daí que, diz ele, que eu argumento com categorias de “soma nula, que ”defendo “situações de soma nula”. É o argumento favorito dos economistas de Kiel, mas mesmo assim é um disparate, É claro, o comércio-livre não é um jogo de soma nula, ninguém fez tal afirmação a sério …. Contudo, não é menos verdade que o comércio internacional é habitualmente analisado com a balança comercial em equilíbrio e com resultados, ou seja com ganhos, iguais para ambos os lados. Se introduzimos a hipótese de balança comercial equilibrada, os ganhos e as perdas de empregos comportam-se da maneira descrita e sem que o livre-comércio seja desacreditado. Quem é que seriamente é capaz de pretender, na base das contas nacionais, que o acréscimo de excedentes sobre a balança de pagamentos (a contribuição externa) não tem nada a ver com empregos adicionais, que é independentemente da variação de empregos na região?

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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