O MAPA (A saga do anadel/83)- por Carlos Loures

Os haveres dos prisioneiros, foram, peça por peça, revistados, as bainhas das roupas rasgadas. Em vão. Não encontraram o que buscavam. Ao cabo de muito tempo, desistiram. Nuñez, colocou então assim a questão:

         – Se estes perros, não nos disserem onde está o mapa, matamo-los. Como o têm escondido por aí, caso não cheguem a Lisboa, o mapa também não chegará. É pena não termos um potro onde os pudéssemos esticar ou uma poleia para os içar e que nos ajudassem a fazê-los cantar mais depressa antes de os pormos a dançar – e concluiu – Mas teremos ideias. Retirara máscara de boa pessoa. Nem só na antiga Grécia ou em Veneza se faziam máscaras. No mundo da perfídia, tal arte estava bastante avançada.

 Lourenço compreendeu algo que até então lhe escapara: os espias supunham que o mapa era um original, não sabiam tratar-se de uma cópia. Ficou confiante. João, podia, como qualquer pessoa, ceder à tortura, mas, mesmo que assim fosse, não sabia onde estava o mapa. O mesmo se passava com Diogo. Lourenço confiava na sua capacidade de resistência, o que lhe seria útil, pois, neste tipo de situações, nada existe de pior do que se partir vencido. Se o matassem, o mapa ficaria perdido no interior da trave do porão até que, sabe-se lá quando e em que circunstâncias, alguém o iria encontrar. Não compreendia por que não lhe tinham dado em Lisboa ordem para destruir a cópia. Visto não passar de uma cópia, podia tê-la queimado no palácio de Torriani. Em sua opinião, essa teria sido a melhor solução. Mas, quem era ele para pôr em causa as instruções de el-rei?

 

          Começaram por os chicotear, pois esse era o mais comum dos castigos de bordo e, não havendo na fusta os requintes inquisitoriais que Julián desejaria, o capitão Perrin foi obrigado a mandar buscar o chicote. Começaram por João. Amarrado a um mastro, suportou, sem soltar um queixume, cinquenta vergastadas. O mesmo tratamento foi depois ministrado a Diogo e a Lourenço, que tampouco claudicaram. Os soldados tiveram de ir sendo substituídos, pois, exaustos, não aguentavam o esforço. Quando a violência do azorrague começava a fraquejar, o andaluz mandava que o verdugo fosse rendido. Concluiu que, por aquele meio, não falariam e foram desamarrados. Inanimados, foram estendidos de borco no convés. Sangravam das costas e Julián mandou que lhes derramassem sobre as feridas baldes com água do mar. Os tripulantes da Saint-Louis, assistiam, e os soldados tinham de conter a ira dos mais indignados. Julián teve então outra «ideia». Foi à cozinha e voltou trazendo para o convés uma caldeira de cobre com brasas. Trouxe, ajudado por um tripulante, ferros, garfos, facas. Colocados sobre o braseiro começaram pouco depois a ficar ao rubro:

         – Tratámos-lhes já das costas, agora vamos tratar-lhes do peito, dos braços e das pernas – comentou, concluindo – e, se for preciso, do rosto.

         Verificando o descontentamento dos soldados, por ele compartilhado, o oficial disse que os seus homens eram guerreiros e não torcionários. Quando um dos nobres ia o a admoestar, Julián deteve-o com um gesto:

         – Basta que lhes segurem os braços. Eu trato do resto.

         Começou por João. Usando objectos de ferro postos a aquecer dentro de uma caldeira, em cima das brasas, que trouxera para o convés, foi-lhes queimando braços pernas, tronco. A carne chiava com um som sibilante, produzindo um desagradável cheiro. João fazia um grande esforço para não revelar o sofrimento que as queimaduras lhe produziam. Não tendo ideia onde estava o mapa, fazia crer aos inimigos que o sabia. Com estoicismo, enquanto a sua carne ardia e o corpo se ia cobrindo de manchas vermelhas, ria-se e insultava o torcionário. Cuspiu-lhe no rosto. Conseguiu mesmo dar um violento um pontapé nos testículos de Julián que se aproximara demasiado para acompanhar agora a tortura física com insultos e ironias que, supunha, iriam destruindo as defesas da mente. Assim, em vez de esticar os braços com os instrumentos, aproximou o rosto e o corpo. Apesar de agarrado por dois soldados de cada lado, Dulmo tinha os pés livres. O andaluz rebolou no convés, gritando, tanto mais que ao cair se queimou nos seus instrumentos de tortura. João, Diogo e Lourenço riram.

    

         Quando Julián recuperou do quase desmaio, o tormento prosseguiu com acrescida raiva. Os ferros foram sendo aplicados nos braços, nas pernas, no tronco, nos órgãos genitais. João, que nunca gritou, perdeu os sentidos com as dores provocadas pelas queimaduras e, enquanto lhe deitavam água no rosto tentando reanimá-lo, começaram a torturar Diogo. Ainda dorido do pontapé desferido pelo flamengo, Julián aproximou-se. Raivosamente, gritou-lhe:

         – Fala maldito mouro, fala filho de uma puta! – Diogo respondeu-lhe:

         – Eu sou o capitão Diogo Mendo, do terço de arcabuzeiros de Sua Majestade el-rei de Portugal. Sou mais cristão do que tu. E não sou filho de uma puta. Tu, sim, és filho de uma puta e de um mouro, um dos muitos que iam ao bordel da tua mãe  – e começou a berrar a plenos pulmões uma brejeira canção de caserna dos seus tempos de jovem guerreiro.

         Julián quis esbofeteá-lo. Os soldados não lho permitiram. Sentiam-se revoltados com o trabalho que os estavam a obrigar a fazer e embora não o pudessem recusar, respeitavam mais os presos do que o andaluz que saltitava em redor, insultando e sugerindo novos locais do corpo para queimar. Aplicaram a Diogo os ferros em brasa como haviam feito com João. Procurando alhear-se do que lhe estavam a fazer ao corpo, começou a recordar os dias de Agosto de 1471 participara na expedição a Arzila. As recordações desse dia foram-no ajudando a suportar a dor. Parecia-lhe que a carne que estava a ser queimada não era a sua. Até que desmaiou.

Van der Meer e os emissários tinham-se afastado da cena – não queriam ser associados a métodos tão bárbaros, embora não desdenhassem aproveitar os resultados. Lourenço foi também submetido àquela tortura. Queimaram-no por todo o corpo. Considerando-o mais frágil e inexperiente do que os outros, estavam esperançados de o vergar antes que desmaiasse. Tentou um estratagema – como se, tivesse atingido o limite da resistência, «confessou» que o mapa fora queimado. Quando vira aproximar-se a caravela apressara-se a queimá-lo. Preferira destruí-lo a deixá-lo cair em mãos inimigas. Fazia sentido. A sua missão consistia em destruir o documento e não em levá-lo para Lisboa. Embora não acreditando, os inimigos decidiram então, após rápido conciliábulo, executar os três homens. Julián pareceu concordar – como o flamengo e os castelhanos não concordavam que a tortura continuasse, os prisioneiros seriam enforcados. Assim se faria, embora se pudesse tentar «mais uma coisa

 

 

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