CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – EVOLUÇÃO NA CONTINUIDADE

As boas notícias nem sempre são más. Com a perspectiva de mais uma superfície comercial (eufemismo esdrúxulo de centro comercial) uma indizível e jubilosa alegria acena e acede aos nossos corações, sabendo como sabemos o que significa para as irrequietas e azougadas populações das grandes cidades portuguesas, a existência de tais acolhedores centros de acolhimento urbano. Populações essas que mal podem esperar pelos justos fins de semana para se vestirem diferentemente e com um outro critério (“casual”, em português) para se passearem, para se promenarem por eles adentro, com uma alegria ímpar, um bulício saudável e contagiante, mesmo que não comprem coisa nenhuma, sobretudo quando ainda longe dos fins dos meses. E os fins justificam os meios. Dos meses.

Eu acho que a plenitude destes maravilhosos templos de meditação e prazer será saudavelmente atingida quando houver um centro comercial por cada bairro ou freguesia –  melhor, por cada quarteirão, em cada rua, por cada lado de rua, em cada esquina um abrigo.

Porque as pessoas merecem. E todos sabemos que somos os campeões da Europa, neste afã, nesta edificação sucessiva destes centros, futuros monumentos históricos a recordar e estudar, a fazer parte de uma nossa evolução, também ela ímpar, relativamente ao resto da pobre e infeliz Europa. Aliás cada novo centro que emerge neste incontido horizonte, é logo e sempre denominado como “um dos maiores da Europa”. Já temos mesmo vários, todos eles um dos maiores da Europa. E do mundo. E uns do zoutros

Sim, porque a nossa evolução e diferença não passa apenas por esta explosão cultural, consubstanciada em tais aprazíveis espaços ou superficies. Não. Temos também bons, grandes e recentes antepassados, como por exemplo aqueles antigos, inúteis e mastodônticos cinemas, hoje feliz e virtuosamente transformados em maravilhosos templos religiosos, em património, enfim, com uma afluência que ainda assim pede meças às dos centros comerciais, fiquem sabendo.

Como se perdia tempo no meu tempo a entrar e a sair daquelas inutilidades, só para ver e apreciar, fugazmente, umas coisas denominadas de filmes ou Cinema! Felizmente que o mundo pula e avança e Portugal, os portugueses – sobretudo esta excelente e culta geração e alguns restos ou excedentes da anterior – compreenderam que a evolução é uma coisa natural, que é uma coisa a que têm acesso, uma felicidade a que têm direito.

Carlos

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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