SOBRE AS ELEIÇÕES HOLANDESAS DE 15 DE MARÇO DE 2016 [1], por MICHAEL ELLMAN

Envio e introdução de Domenico Mario Nuti.

Tradução de Júlio Marques Mota.

Transition

Life is a transition from one transition to another

 

 

 Sobre as eleições holandesas de 15 de Março de 2016[1]

Michael Ellman, Universidade de Amesterdão,  Michael Ellman on the Dutch Elections

Blogue Transition, 16 de Março de 2017

 

Introdução

As eleições holandesas de 15 de Março têm sido amplamente interpretadas  como uma “derrota retumbante” para o populismo. Isso é muito difícil de conciliar com a coligação no poder ter perdido 37 lugares (8 de 41 no VVD de Rutte, apesar deste se ter deslocado para a agenda de Wilders – “Seja normal ou não normal ” – e 29 de 38 lugares no Partido Trabalhista PvdA), isto é já quase metade dos seus antigos 79 lugares. Rutte vai precisar de novos aliados para formar um governo. O partido de Geert Wilders, por seu lado, ganhou 5 lugares e subiu cerca de um terço para se tornar o segundo partido da Holanda. ” Cada um de nós tem direito à sua própria opinião, mas não aos seus próprios factos” (David Patrick Moynihan). Daí que eu tenha perguntado ao Professor Michael J. Ellman, da Universidade de Amesterdão, a sua opinião sobre os resultados das eleições holandesas. Aqui está sua resposta, que eu achei particularmente esclarecedora, e que tenho a sua permissão para reproduzi-la neste blog como meu hóspede. Daqui os nossos muitos agradecimentos.

Domenico Mario Nuti

 

From Michael Ellman (16 March 2017):

 

Parece-me, como se segue, que a nossa análise está condicionada atualmente ao facto de termos apenas resultados preliminares e os resultados finais podem diferir um pouco.

(1) A taxa de participação aumentou significativamente. Isso indica “que” para além das pessoas que normalmente votam, havia adicionalmente algumas pessoas que queriam fortemente expressar a sua desaprovação das políticas da coligação governamental e outros que fortemente queriam expressar os seus medos sobre Wilders.

(2) A coligação que tem governado desde as últimas eleições (em 2012) tem governado muito mal. Eles desceram de uma maioria (de 79 lugares num Parlamento de 150) para uma minoria de apenas 42. Isso indica que a maioria da população rejeita as políticas que têm sido aplicadas desde há quatro anos (ortodoxia orçamental / austeridade)

(3) O principal perdedor é o tradicional partido social-democrata, o Partido Trabalhista em que as suas iniciais holandesas são PvdA. Este partido tem desempenhado um papel importante na política holandesa desde 1945, mas saiu-se de forma muito lamentável nestas eleições. Pessoalmente, penso que a razão principal é o que fez o parceiro minoritário na coligação, os trabalhistas, e quão longe estes foram na ortodoxia orçamental / austeridade que atingiu muitos dos seus eleitores tradicionais que votaram noutro partido para expressar a sua insatisfação. Desde há muito tempo, estes têm-se apresentado como um “Novo Partido Trabalhista” e não uma casa para as vítimas da globalização. Esta prática não agradou a muitos dos seus eleitores tradicionais. É, portanto, um partido culturalmente liberal, o que não é do agrado de muitos dos seus eleitores tradicionais.

(4) O primeiro-ministro Rutte pode sentir-se satisfeito consigo mesmo. Embora a coligação que liderou tenha politicamente governado muito mal, o seu próprio partido não andou assim tão mal, perdendo apenas 1/5 dos seus eleitores e tornando-se, de longe, o maior partido (nas últimas eleições tinha ficado à  frente do Partido Social Democrata por poucos lugares), Além disso, muitos dos votos que ele perdeu foram deslocados para os democratas-cristãos que estão ideologicamente muito próximos do seu partido. Mais ainda, o partido de Rutte fez substancialmente melhor do que o partido de Wilders. Como resultado, o partido de Rutte quer desempenhar um papel dominante nas negociações para formar uma nova coligação.

(5) Os partidos do mainstream alcançaram 2/3 (102) dos assentos. Isso indica que o sistema político holandês e a sociedade são bastante estáveis. As negociações para a formação de coligação pode muito bem levar algum tempo (isto é completamente normal), mas o governo resultante quer ser um governo do mainstream.

6) As eleições foram em grande parte travadas em torno de questões de ordem cultural / de identidade. As tradicionais questões económicas desempenharam um papel menor. A identidade nacional holandesa, o papel das minorias étnicas na Holanda, as migrações e o papel dos Países Baixos na UE foram os principais temas. (É claro, as migrações também têm a sua vertente económica.) O Governo resultante será muito cético sobre os planos para aumentar a integração na UE ou expandir os seus membros (em 2 referendos no passado, sobre a proposta de Constituição da UE e sobre o acordo comercial com a Ucrânia, as maiorias rejeitaram a preferência política da UE). Isto significa, entre outras coisas, que a Holanda será hostil aos planos para uma UEM bancária ou para uma união de transferências. Um dos 6 membros fundadores da UE está agora em oposição a uma integração mais profunda.

(7) A fim de ganhar e bater Wilders, Rutte colou-se a alguns dos principais temas de Wilders. A necessidade para os imigrantes e para os seus descendentes, se quiserem ser bem-vindos, se quiserem ser assimilados, de terem de abandonar alguns dos seus costumes e aceitarem os costumes dos holandeses, foi um tema fortemente defendido por Rutte. Assim, a posição que ele tomou contra o ministro turco nos comícios eleitorais ao ar livre, na Holanda, foi bastante popular e, provavelmente, ter-lhe-á dado votos.

 (8) Embora Wilders possa ter ficado satisfeito com o facto de alguns dos seus temas entraram no discurso político dominante e serem repetidas pelo primeiro-ministro, ele não deve estar satisfeito com o resultado. É verdade que aumentou o seu número de lugares no Parlamento em cerca de um terço. Contudo, enquanto ao mesmo tempo se pensava que o seu partido poderia aparecer como o maior dos partidos, ele continua a ter pela frente um longo caminho a percorrer (passagem de 20 a 33) deixando para trás o partido de Rutte. Daí que Wilders não tenha a menor probabilidade de entrar no governo e se tornar ministro.

(9) O outro partido populista (que recebe menos publicidade fora dos Países Baixos) é o Partido Socialista. Este é um partido de esquerda tradicional em favor dos aumentos da despesa pública, de salários mais elevados, de alugueres de casa mais baratos, de impostos mais altos sobre os ricos e sobre as empresas etc. Ao que parece irá cair de 15 lugares para 14.

 (10) O resultado relativamente pobre dos dois partidos anti-sistema  é que a política,  como tem sido normal, sujeita a uma mudança cultural / nacionalista para a direita ganhou. Para “Bruxelas” isto pode ser reconfortante, mas a falta de apoio para uma maior integração e expansão da UE, e a aceitação geral de uma posição mais nacionalista não parece tão positiva.

(11) Que políticas é que a nova coligação vai aceitar é altamente incerto no momento presente (na Holanda os partidos que formam uma coligação tem que concordar com as políticas, estabelecidas num Acordo de Coligação em que estas são detalhadas por escrito, antes de que o novo governo seja formado e antes de tomar posse – nesse espaço de tempo, os antigos ministros permanecem no cargo, mas espera-se que não tomem nenhuma medida de fundo). Até que ponto a rejeição popular da austeridade e a preocupação com a identidade nacional vai influenciar a futura política continua a estar para ser visto.

 

Michael Ellman, On  the Dutch Elections, disponível no blog de Domenico Mario Nuti.

 

A guest post on my Blog, by Michael Ellman of Amsterdan University. Disponível em:

https://dmarionuti.blogspot.it/2017/03/michael-ellman-on-dutch-elections.html

________

[1] Agradecemos a gentileza de Domenico Mario Nuti em nos ter disponibilizado o presente texto.

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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