CRISE DA DEMOCRACIA, CRISE DA POLÍTICA, CRISE DA ECONOMIA: O OLHAR DE ALGUNS ANALISTAS NÃO NEOLIBERAIS – 4. A CONFUSÃO NÃO É RESPOSTA À ORTODOXIA ECONÓMICA. O DEBATE SOBRE A MODERAÇÃO SALARIAL ALEMÃ – 3ª PARTE, por HEINER FLASSBECK e COSTAS LAPAVITSAS

Selecção de Júlio Marques Mota. Apresentação e tradução de Francisco Tavares.

A confusão não é resposta à ortodoxia económica. O debate sobre a moderação salarial alemã- 3ª Parte

Por Heiner Flassbeck and Costas Lapavitsas, Confusion is no response to economic orthodoxy. The German wage moderation discussion.

Flassbeck economics, 23 de Fevereiro de 2016 

Heiner Flassbeck Countries and RegionsEconomic PolicyEconomic TheoryEuropeGeneral Politics

(CONCLUSÃO)

4. Os bancos e o fluxo de capitais dos países excedentários para os países deficitários

Finalmente, chegamos aos fluxos de capitais e aos bancos, os responsáveis preferidos de Storm pela crise da Eurozona. Contrariamente ao que Storm sugere, não ignorámos minimamente o papel dos fluxos de capital e os bancos na crise da Eurozona, e debatemo-lo até numa série de textos publicados [1]É uma questão conhecida que os capitais fluíram substancialmente da Alemanha e de França para os países periféricos nos anos 2000. É também conhecido o facto de que os bancos alemães e franceses estiveram profundamente envolvidos neste processo, e que não se cobriram propriamente de glória em termos da prestação das funções básicas bancárias de avaliação e acompanhamento dos devedores. De facto, eles fracassaram absolutamente. Além disso, muitos dos seus empréstimos dirigiram-se a outras instituições financeiras na periferia.

Não obstante, o ponto é que os fluxos de capital, o crédito e os bancos não foram a causa primária da crise; essa honra pertence às divergências de competitividade. A crise da Eurozona não foi nem uma crise de crédito que se tenha expandido excessivamente, nem uma crise de capital líquido fluindo para os países periféricos para induzir bolhas e má alocação de recursos. A este respeito também, Storm está simplesmente errado na sua fundamentação, quer teórica quer empírica. E uma vez que mencionámos a teoria, Hilferding, que surge de modo totalmente inesperado na narrativa de Storm, nunca defendeu uma teoria do “monopólio da finança” e nunca sugeriu novas formas de concorrência entre as empresas capitalistas. No seu tempo o mercado mundial caracterizava-se por tarifas aduaneiras, que constituíam o elemento definidor da concorrência. Na verdade, Hilferding acreditava no “capitalismo organizado”. Se alguma coisa isto significa, era desde logo o oposto do mundo contemporâneo[2].

Ao analisar-se os efeitos da política de baixas taxas de juro do BCE nos anos 2000 é vital ter em conta que a divergência dos custos unitários nominais do trabalho – e, consequentemente, das taxas de inflação (mais elevadas na periferia, mais baixas no centro e principalmente na Alemanha) – significa que as taxas de juro reais eram, de facto, mais elevadas no centro ao longo deste período. Nesta perspetiva, teria sido uma forma estranha de capital financeiro aquele que fluiu do centro para a periferia para criar bolhas nesta periferia. Certamente, o capital fluiu do centro para a periferia, mas a economia deste processo de fluxos de capital e de expansão do crédito é muito mais complexa do que no relato de Storm.

Observe-se o Quadro 4 que mostra a composição regional de ‘outros’ fluxos de saída da Alemanha ao longo dos anos de 1990 e 2000, ou seja, essencialmente empréstimos internacionais dos bancos alemães. Os empréstimos à zona que depois veio a ser a Eurozona eram perfeitamente insignificantes na primeira metade dos anos de 1990; tornaram-se consideráveis na segunda metade daquele período; cresceram com maiores flutuações durante 2001-6; e explodiram em 2007. A violenta inversão dos fluxos de empréstimos bancários em 2008 assinalou o início da crise da Eurozona. A este respeito, aquilo que sucedeu na Eurozona após 2008 foi uma pura e simples crise financeira, observada muitas vezes em países desenvolvidos à medida que os fluxos de créditos externos se esgotaram. A diferença foi, claro, que a inversão de fluxos ocorreu dentro de uma união monetária, excluindo assim a normal opção da desvalorização da taxa de câmbio. O inevitável ajustamento deu-se pelos salários, preços e produto, e o resultado foi catastrófico, em lugar nenhum mais dramático que na Grécia.

Quadro 4  ‘Outros’ fluxos de saída alemães por região, Euro, bn

Fonte: Bundesbank

O que interessa aqui é que a explosão dos empréstimos bancários alemães para a Eurozona se deu tardiamente na década de 2000, e principalmente como reação ao desenvolvimento da crise mundial. Os primeiros sinais de crise no mercado hipotecário dos EUA ocorreram no Verão de 2006; por volta do Verão de 2007 a bolha imobiliária nos EUA estava em pleno recuo. Os bancos alemães (e outros do centro da Eurozona) voltaram-se para a Eurozona acreditando insensatamente que tais empréstimos eram seguros. Então, contudo, a bolha imobiliária em Espanha e na Irlanda, bem como o forte crescimento do crédito na Grécia estavam em pleno andamento desde há vários anos.

Em resumo, o principal responsável da expansão de crédito na periferia foram as instituições financeiras locais que tiraram partido das taxas de juro do BCE, que eram historicamente baixas para os países periféricos, mas também baixas se comparadas com as taxas reais nos países do centro. Os bancos espanhóis expandiram o crédito para o imobiliário e o consumo, enquanto os bancos gregos expandiram o crédito para financiar uma diversidade de atividades, embora nunca tenha havido uma verdadeira bolha financeira na Grécia.

O essencial da questão do crescimento do crédito não foi o fluir de capital da Alemanha para a Espanha ou para a Grécia, mas antes a busca pelos credores alemães de oportunidades de lucro no estrangeiro. Na realidade, as instituições domésticas expandiram o crédito doméstico, enquanto aproveitavam a oportunidade para obter empréstimos no homogéneo mercado monetário da Eurozona, suportado pelo BCE. Os bancos da periferia estavam preparados para pagar aos bancos do centro a taxa de mercado aplicada, mesmo se as taxas de juro reais eram comparativamente mais baixas na periferia Os bancos da periferia esperavam fáceis lucros domésticos especulativos em compensação, e durante algum tempo tiveram razão. O preço foi pago mais tarde, mas não pelos bancos e pelos seus proprietários.

Entretanto, o endividamento externo aumentou na Grécia, em Espanha e em Portugal, como inevitavelmente acontece quando surge o défice da conta corrente devido à perda de competitividade e o mesmo tem de ser financiado. É esse o caminho normal, segundo os manuais, para manter as contas equilibradas. O endividamento assumiu uma variedade de formas refletindo as condições locais, sendo primordialmente público na Grécia e privado nos casos de Espanha e de Portugal. Muito naturalmente a dívida era principalmente para com os países excedentários, ou seja, para com a Alemanha em primeira instância.

A explosão de crédito nos países da periferia foi certamente importante para a crise da Eurozona mas não pelos motivos que Storm aponta. A sua importância assenta no facto de encobrir o nefasto impacto da perda de competitividade criando uma falsa sensação de prosperidade e dando a impressão de que as tradicionais preocupações com os défices da conta corrente pertenciam ao passado. Como explicar de outro modo o impressionante facto de a Grécia ter registado um défice na conta corrente de 15% do PIB em 2008 sem que houvesse um sério alerta político no país e na UE em geral?

Em conclusão, uma análise coerente da crise da Eurozona que retenha uma perspetiva fortemente crítica e heterodoxa não deverá perder-se em análises analítica e empiricamente confusas. Opôr-se à ortodoxia não significa conceber uma economia sem fundamentos. O problema fundamental da Europa nasceu de desequilíbrios das contas correntes gerados por um tremendo ganho de competitividade da Alemanha. A causa desse ganho de competitividade foi uma dramática alteração na balança do poder entre o capital e o trabalho na Alemanha, a favor do capital. A restrição salarial durante vários anos dentro dos limites restritivos da UEM fez o resto. O capital financeiro desempenhou um papel importante no desastre, mas secundário nos processos chave.

Se o debate que irrompeu recentemente ajudar a estabelecer esta visão fundamental entre os economistas que são críticos, poderá que seja possível desenvolver uma análise coerente daquilo que é necessário fazer na Europa neste momento. Este seria na verdade um dos contributos de Servaas Storm.

 

REFERÊNCIAS

Bibow, J., 2016, How to Make a Mess of a Monetary Union, and of Analyzing It Too, Feb. 12, Multiplier Effect, The Levy Economics Institute Blog,  http://multiplier-effect.org/how-to-make-a-mess-of-a-monetary-union-and-of-analyzing-it-too/, accessed on 16.2.2016.

Bofinger, P., 2016, Friendly Fire, INET, Jan. 20, http://ineteconomics.org/ideas-papers/blog/friendly-fire, accessed on 16.2.2016.

Flassbeck, H. and C. Lapavitsas, 2013,   ‘The Systemic Crisis of the Euro: True Causes and Effective Therapies’, Rosa Luxemburg Stiftung Studien,

http://www.rosalux.de/fileadmin/rls_uploads/pdfs/Studien/Studien_The_systemic_crisis_web.pdf, accessed on 16.2.2016.

Flassbeck, H. and C. Lapavitsas, 2015, Against the Troika: Crisis and Austerity in the Eurozone, Verso: London and New York.

Flassbeck, H. and C. Lapavitsas, 2016, INET, Jan. 28, Wage Moderation and Productivity in Europe,http://ineteconomics.org/ideas-papers/blog/german-wage-moderation-and-the-eurozone-crisis-a-critical-analysis, accessed on 16.2.2016.

Keynes, J.M., 1929, “The German transfer problem,” The Economic Journal 39

Lapavitsas, C. 2013, Profiting without Producing: How Finance Exploits Us All, Verso: London and New York.

Lapavitsas C, and A. Kaltenbrunner, G. Lambrinidis, D. Lindo, J. Meadway, J. Michell, J.P. Painceira, J. Powell, E. Pires, A. Stenfors, N. Teles, and L. Vatikiotis, 2012, Crisis in the Eurozone, Verso: London and New York.

Storm, S., 2016a, German Wage Moderation and the Eurozone Crisis: A Critical Analysis, INET, Jan. 8,http://ineteconomics.org/ideas-papers/blog/german-wage-moderation-and-the-eurozone-crisis-a-critical-analysis, accessed on 16.2.2016.

Storm, S., 2016b, Response to Peter Bofinger’s “Friendly Fire”, INET, Jan. 20,http://ineteconomics.org/ideas-papers/blog/response-to-peter-bofinger, accessed on 16.2.2016.

Storm, S., 2016c, Rejoinder to Flassbeck and Lapavitsas, INET, Jan. 28, http://ineteconomics.org/ideas-papers/blog/rejoinder-to-flassbeck-and-lapavitsas, accessed on 16.2.2016.

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[1] N.A. Ver Flassbeck e Lapavitsas (2013, 2015); ver também Lapavitsas, et.al. (2012).

[2] N.A. Um de nós escreveu extensamente sobre Hilferding. Ver, por exemplo, Lapavitsas (2013).

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Poderão ler o original clicando em:

http://www.flassbeck-economics.com/confusion-is-no-response-to-economic-orthodoxy/

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Para ler a Parte II deste trabalho de Heiner Flassbeck e Costas Lapavitsas, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

https://aviagemdosargonautas.net/2017/03/27/crise-da-democracia-crise-da-politica-crise-da-economia-o-olhar-de-alguns-analistas-nao-neoliberais-4-a-confusao-nao-e-resposta-a-ortodoxia-economica-o-debate-sobre-a-moderacao-salarial-2/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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