CRISE DA DEMOCRACIA, CRISE DA POLÍTICA, CRISE DA ECONOMIA: O OLHAR DE ALGUNS ANALISTAS NÃO NEOLIBERAIS – JEAN-LUC GRÉAU CONTRA O NEOLIBERALISMO, um texto de CHEMINADE, em JEUXVIDEO

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota 

JEUXVIDEOCOM

Jean-Luc Gréau contra o neoliberalismo

Cheminade, Jean Luc Gréau contre le néoliberalisme

Jeuxvideocom, 25 de Julho de 2017

 

Um texto a propósito de um livro[1]  de Jean-Luc Gréau escrito antes da crise. Vale a pena lê-lo.

 

Depois de “o futuro do capitalismo”, onde anunciava, desde 2005, o risco de uma crise financeira e defendia que houvesse uma melhor regulamentação do comércio internacional, Jean-Luc Gréau retorna com um novo texto e faz o seu ajuste de contas com o pensamento neoliberal e fá-lo de forma brilhante.

A denúncia das ideias recebidas

Jean-Luc Gréau não está contente, e isso dá-nos um certo prazer em ler! É com um talento  único de contador de histórias  que ele decide enfrentar os mitos do nosso tempo. O primeiro a sofrer um destino é o modelo de desenvolvimento dos países asiáticos, de que sublinha que este modelo combina “mercados internos fechados ao consumo de bens estrangeiros e produções nacionais viradas para a exportação de mercadorias”. Este modelo, inventado pelo Japão e depois copiado pela Coreia, Taiwan e agora pela China, assegura o desenvolvimento económico pela associação do seu protecionismo e da livre‑troca nos outros países…

Em seguida, Jean-Luc Gréau aborda a teoria que defende a livre-troca ridicularizando literalmente o pensamento, (datado) de Ricardo. O autor mostra bem que para além das matérias-primas, a teoria da vantagem comparativa não funciona porque “onde estas existem, (estas) não são nunca vantagens permanentes, mantidas como tal para sempre,” conforme se mostra com a ascensão de China em produtos eletrónicos. Além disso, Jean‑Luc Gréau destaca os perigos que a especialização excessiva possa vir a pesar sobre a concorrência. Finalmente, reflete sobre a ideia de sociedade pós-industrial, sublinhando que o consumo de produtos industriais se aguenta melhor do que a produção.

Jean-Luc Gréau, aborda depois o mito de uma França em falência. Ele explica como é que nós, os franceses, passámos de 21 a 65% do PIB em termos de dívida desde 1980, mas não alinha nos discursos alarmistas, os discursos das Cassandras, sublinhando que, como o Japão, não estamos endividados face ao estrangeiro, em contraste com os Estados Unidos. Ele salienta o papel da diminuição da inflação, no aumento da dívida, devido ao aumento brutal induzido das taxas e acusa claramente a passagem para o euro uma vez que a nossa dívida saltou de 32 para 58 por cento do PIB a partir de 1992 e até 1998. Ele também ataca o governo de Jospin, que delapidou os frutos do crescimento.

Por último, através de uma apaixonante retrospetiva da história dos bancos centrais, analisa a questão da sua independência sublinhando que os dois casos particulares se devem à história: nos Estados Unidos, foram os bancos privados que constituíram o FED em 1913 e na Alemanha em que esta sofreu um episódio de híper inflação muito doloroso. Sublinha que a sua independência não é, em nada, responsável por uma menor derrapagem inflacionista nos anos 70 e que foram as políticas que venceram a inflação nos anos 80. Denuncia além disso a deriva atual de bancos que parecem sobretudo preocupados de proteger o valor dos ativos financeiros

Os limites do neoliberalismo

Após este feliz florilégio, Jean-Luc Gréau retoma a sua tarefa de desmontagem dos limites do sistema económico atual. Relembra rapidamente que a liberalização financeira associada à liberalização do comércio conduz a uma deflação salarial pela procura do custo de trabalho o mais baixo possível, “desligando então a remuneração do trabalho da própria produtividade”. Mostra então como é que esta deflação salarial foi compensada em certos países pela explosão da dívida, nomeadamente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, onde as famílias estão endividadas e ao nível de 100% do PIB (+ 30 pontos em dez anos).

Evoca em seguida e muito naturalmente a primeira parte da crise dos subprimes (o livro foi escrito na Primavera 2008) como um autêntico romance, desmontando o conjunto dos mecanismos que conduziram ao desastre atual, sublinhando o papel do efeito de alavanca e atribuindo a crise “ a um colapso brutal do crédito”. Denuncia a titularização dos créditos dos bancos, que “constitui uma negação da função tradicional do banqueiro” e sublinha os excessos da especulação, que fazem com que um barril de petróleo pode ser trocado 480 vezes antes de ser entregue ao destinatário final do circuito…

Critica um mundo onde “os inovadores de todos os tipos da nova finança procuram disseminar os riscos que desmultiplicam pelas suas inovações”. Critica igualmente os hedge funds, de que Charlie McCreevy, Comissário europeu, considerava em Junho de 2007 que “faziam um bom trabalho” e que “se as regras lhes devessem ser aplicadas, caberia aos gestores de fundos decidirem-no então ”. Por fim, retoma a sua análise muito positiva do Private Equity do seu último livro para sublinhar os seus limites. Conclui infelizmente sobre o facto que o sistema está em vias de se salvar por injeções massivas de dinheiro.

Algumas pistas para o futuro

Escrito na primavera de 2008, este livro não toma em conta a aceleração terrível da crise do último Outono. Em contrapartida, pode-se dizer que a antecipa um pouco quando o autor afirma “que seria suficiente que um risco sistemático se materialize para que os credores até agora complacentes restabeleçam prémios elevados de risco” para os empréstimos de Estado, o que se verificou. Do mesmo modo sublinha que a crise vai pôr em causa “a corrente vigorosa de exportações de bens de equipamento que salvou de um marasmo total as economias alemã e japonesa”: a sua produção industrial está em baixa 15 e 20% no final de dezembro…

O autor é um pouco mais curto sobre as soluções a pôr em marcha. Em contrapartida desenvolve um pouco mais a sua proposta de protecionismo europeu recomendando que se apliquem  tarifas proporcionais ao desvio de salários com o país interessado, sobre o modelo que já existe sobre as bicicletas, onde mais de 60% do nosso consumo é produzido localmente. Apresenta o exemplo da Suécia que considera a estabilidade do capital das suas empresas, a sua estrita regulação financeira e a sua independência monetária como vantagens essenciais. Conclui com sete propostas interessantes para que a Europa saia do seu impasse neoliberal.

Com este novo livro, Jean-Luc Gréau confirma o seu estatuto de economista alternativo. Demonstra, com um brilho inédito que eoe é hoje uma dos melhores críticos das derivações neoliberais, tanto pela força dos seus argumentos, muito bem ilustrados, como pelo talento, novo, de um contador de histórias.

 

Jean Luc Gréau contre le néoliberalisme, texto disponível em :

http://www.jeuxvideo.com/forums/1-55-845293-1-0-1-0-jean-luc-greau-contre-le-neoliberalisme.htm

________

[1] 6. Jean-Luc Gréau, « La trahison des économistes », Gallimard

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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