O MAPA (A saga do anadel – Conclusão) – por Carlos Loures

Lisboa, Paço da Alcáçova, terça-feira, 19 de Novembro de 1487.
Chegado a Lisboa e após ter ido abraçar e beijar a mãe e demais familiares, visitado Débora e se ter apresentado na alcaidaria, Lourenço, no dia seguinte, foi recebido no Paço. Ia acompanhado por Diogo Mendo, ainda convalescente da infecção que lhe envenenara o sangue. Entre os fidalgos e prelados que rodeavam o trono, à direita do rei, viu o «ébrio arruaceiro» que supostamente ferira na taverna. Diogo lembrou-o de que se tratava de D. Pedro de Meneses, conde de Cantanhede. O fidalgo, sorridente, dirigiu-lhe um malicioso aceno. Este importante senhor da corte, andaria pela idade do rei e distinguira-se, muito jovem, na batalha de Toro, travada na veiga de Peláyo González, comandando a força das hostes do então príncipe D. João que rompeu a ala castelhana. El-rei D. Afonso concedeu-lhe o título em 1479, tendo sido depois alcaide-mor de Coimbra e passando a integrar o conselho do novo monarca.
No falso duelo da taverna, D. Pedro de Meneses, que era um gentil fidalgo e não, como simulara, um arruaceiro, levava vestida uma cota de malha sob o gibanete de veludo e Lourenço não o ferira. O sangue que a sua roupa ostentava, ora tinta derramada por um dos comparsas que sobre ele se debruçara. O escrivão do conde, Julião Fernandes, que conhecia Lourenço desde que nascera, prestara informações sobre o jovem besteiro. Julião ainda conhecera o almogárave e pôde confirmar que o moço herdara o carácter impulsivo e corajoso do bisavô. Fora essa característica que levara o conde a imaginar a armadilha. O ardil resultara e o jovem, após o suposto crime, agira como melhor aprouvera ao serviço de informação de Sua Majestade. Sabendo-se que o pai fora assassinado pelos buscadores do mapa, esta fora a maneira expedita de o forçar a fazer algo a que, de outro modo, dificilmente o teriam convencido, pois, disposto a bater-se por causas que entendesse nobres e honradas, as artimanhas de espia não se adequavam à sua maneira de ser. O conde, colhida informação junto de Julião e da alcaidaria-mor, aconselhara o seu recrutamento forçado de para a missão em Veneza. Tudo isto, Diogo já lhe contara em Veneza. Porém, D. Pedro de Meneses, sob o sorriso benévolo do rei e os risos de simpatia dos cortesãos tudo recapitulou. Com um ar de júbilo, concluiu:
– Deste modo, senhor Lourenço de Mateus, fostes até Veneza onde cumpristes a vossa missão! – Verificando que se fizera um silêncio total e que os olhares, inclusive o do rei, estavam postos na sua figura e pareciam agora dele aguardar uma resposta, Lourenço redarguiu em tom prudente:
– Saiba vossa senhoria que mui contristado fiquei ao saber que, apesar dos nossos esforços, os nossos inimigos fizeram copiar o mapa e a informação nele contida. O meu esforço e o dos meus amigos terá sido em vão, pois falhámos a missão – Uma gargalhada do conde e um sorriso do rei acolheram esta declaração. O conde, depois de ter trocado um olhar com el-rei e de ter recebido um mudo assentimento, explicou a razão dos risos:
– Desculpai-me por só agora vos fazer esta revelação. O mapa roubado da Casa da Mina foi, muito provavelmente, copiado enquanto esteve em poder do Torriani. – Mas, esse mapa que com tanto destemor recuperastes, é falso. Vosso pai o desenhou, a pedido de Vaz da Cunha, com as falsas informações que lhe recomendámos – e desdobrou então o planisfério que Lourenço trouxera junto do peito e que, sem o ver, escondera na trave da fustaVede que a ocidente da Europa está debuxada a Ásia, como alguns querem; vede que entre o Atlântico e o Índico não existe comunicação, como tanto o desejam os Venezianos – e acrescentou – É um mapa que, embora mentiroso, deixa toda a gente feliz. No entanto, não vo-lo podíamos dizer, pois queríamos que o tentásseis recuperar com a força da convicção. Se não tivéssemos reagido ao roubo na Casa da Mina – o qual facilitámos com a simulada negligência do arquivista e deixando o falso mapa em local bem visível. A não ser assim, os nossos inimigos não fariam fé na sua autenticidade. Parecendo pouco importante, por apenas terdes recuperado uma cópia falsa, o vosso esforço foi decisivo para o triunfo da operação. O mapa autêntico está em poder de Sua Majestade – Segundo consta, vosso pai tinha feito uma cópia dessa carta que ele e os outros sábios realizaram, cópia que não aparece. Talvez, ao receber as cartas de ameaça, a tenha destruído – e o conde concluiu – Esta missão foi coroada de sucesso. O vosso trabalho deu credibilidade ao falso mapa. Ninguém se esforçaria tanto por uma coisa sem valor – sorriu. Lourenço, no entanto, não sorria e Diogo observava preocupado a sua expressão fechada. Todavia, deixou o conde concluir e, num tom grave contestou:
– Sabei, senhor, que a missão não está terminada – e reforçou – Respeitosamente vos afirmo que tenho ainda algo de importante a fazer.
– A missão está terminada e com sucesso, pois trouxestes o mapa que foi roubado pelos venezianos e os convencemos, a eles e aos Castelhanos, que para nós, o mapa era de grande importância – com ar estupefacto, o conde, enquanto falava, olhava de Lourenço, para Diogo e deste para el-rei. Lourenço curvou a cabeça ao dirigir-se a Sua Majestade:
– Falta-me ainda vingar a morte de meu pai! – De cabeça curvada e falando de forma respeitosa, a voz saíra-lhe alterada e todos os presentes adivinharam que aquelas palavras vinham molhadas em lágrimas de dor.
O rei e o conde entreolharam-se de novo. Foi ainda D. Pedro de Meneses que, após discreto aceno de assentimento do rei, respondeu:
– Sabei que os assassinos de vosso pai, três miseráveis, vão ser enforcados. Pêro Vaz da Cunha, que se sentiu moralmente responsável pelo crime, não descansou enquanto não foram presos. Podeis consultar os autos do julgamento dos três homens e interrogá-los antes da execução. Deveis contentar-vos com isto – vosso pai, pessoa mui ilustrada e sabedora, a nosso pedido desenhou um mapa que sabia estar errado, começou um trabalho contra os inimigos do nosso Reino e esse trabalho foi concluído por seu filho – olhou o tecto – No céu estará orgulhoso de vós. Quanto à sua morte, será feita justiça – os assassinos serão enforcados.
– Perdoai-me, mas essa justiça não me satisfaz – o conde ficou atónito e el-rei abandonou o sorriso e franziu o sobrolho. Lourenço, apercebeu-se da brusca mudança de temperatura na sala, mas prosseguiu – Esses homens foram os braços que seguraram o punhal e eu quero decapitar a cabeça que ditou o crime. Soube em Veneza que os matadores de meu pai agiram a mando de um tal Ulrich Imhoff. É com esse que eu quero estar uns minutos a sós –            O rei falou com a voz fria e peremptória:
– Os assassinos foram pagos por Veneza através de um espião sardo, Antòni Ruju, assim o confessaram. Embora garantam que não foram eles a cometer o crime, mas sim o tal sardo. Não tendo encontrado o mapa na oficina de vosso pai, foi depois o mesmo ou outro agente, com a nossa colaboração, roubá-lo à Casa da Mina. O senhor Imhoff é um amigo deste Reino, ao qual devemos bons e leais serviços. O assunto está encerrado.
Mantendo a cabeça curvada e tendo, aparentemente, aceite o veredicto de el-rei, o assunto não estava encerrado para Lourenço. O tal Ruju, Julián e Torriani, tinham de pagar. Mas, contra a vontade real pouco havia, pelo menos de momento, que se pudesse fazer. No entanto, pensou que tinha muito tempo pela frente para indagar o que realmente ocorrera naquele funesto fim de tarde outonal dois anos antes, quando seu pai fora apunhalado na oficina. Se, como D. Pedro de Meneses afirmara e ele não tinha razões para de tal duvidar, havia provas de que os criminosos tinham actuado a mando de Torriani, de Nuñez e do tal Ruju ou dos três, ele saberia encontrá-los. Porque, a verdade é que o gosto pelo trabalho de enculca, com seus perigos, suas manhas e enganos, colara-se-lhe à pele. E começava, não perdendo a impulsividade herdade do bisavô, a saber contê-la, e a estabelecer os raciocínios pacientes e sinuosos dos espias.
Mas não nos adiantemos no tempo, pois estamos ainda na reunião da Alcáçova. Após ter elogiado a coragem, a determinação com que Lourenço ultrapassara as dificuldades, el-rei outorgou-lhe o cargo de anadel de uma hoste de besteiros do alcaide-mor de Lisboa, entregando-lhe com solenidade a carta régia em que tal dignidade estava lavrada. E disse-lhe, sempre num tom austero, embora afável, que tinha outra missão pensada para ele. Coisa de monta, pois, mofou Sua Majestade, «este passeio a Veneza» fora uma forma de experimentar as suas capacidades perante situações realmente complicadas. Os conselheiros riram. Fazendo uma pausa para os deixar rir, mas mantendo o semblante fechado, o rei continuou o discurso. Tratava-se agora de uma diligência junto do papa…
É uma outra história que talvez um dia ganhe alento para vos contar, se até esse dia eu lograr viver. Para já, urge concluir esta, que já vai longa. O monte das laudas que nestas semanas escrevi, assusta-me. Como fui capaz de escrever tanto?
 Paço da Alcáçova, quinta-feira, 21 de Novembro de 1487.
 Desta vez sozinho, Lourenço aguardou numa antecâmara que o conde de Cantanhede o recebesse. Mandara um dos seus secretários ao castelejo onde o jovem estava de serviço ao comando da guarnição, com o recado de que lhe queria falar com urgência. D. Nuno Soares, o alcaide-mor, autorizou de imediato a saída do anadel, pois o poder que D. Pedro de Meneses não suportava demoras e muito menos negativas. Enquanto esperava, saiu da sala do conde, sobraçando pastas com papéis, Julião Fernandes. Fez um tímido aceno na direcção de Lourenço, que correspondeu. Poucos minutos depois de ter chegado, foi recebido pelo conde na sua sala de trabalho, com as paredes cobertas de estantes com livros e de mapas. O conde pediu a Lourenço que se sentasse em frente dele e entrou logo no assunto:
– Pedi-vos que aqui viésseis, porque no paço, diante de el-rei e de tanta gente estranha, não pude dar-vos algumas explicações a que tendes direito. Porque vosso pai foi assassinado e porque o vosso trabalho para este serviço foi exemplar – Lourenço ouvia em silêncio. D. Pedro de Meneses continuou: – Vosso pai foi assassinado por um espia ao serviço de Castela, um homem que conheceis sob o nome de Julián Nuñez, mas que na realidade se chama Alonso Antòni Díaz Ruju, um protegido do inquisidor de Sevilha, frei Alonso de Ojeda. Este agente castelhano, que nasceu na Sardenha, esteve também em Veneza onde trabalhou para a Chancelaria Secreta, ligado ao mercador Torriani – Lourenço falou pela primeira vez:
– Julián matou meu pai sozinho?
– Não. Contratou três pequenos meliantes que o ajudaram. Foram presos porque recebemos uma carta assinada por um tal Cristóvão Álvares, que não localizámos e que deve ser um nome falso, dizendo-nos que na taverna Paraíso encontraríamos os assassinos de Lopo de Mateus. A carta dizia o nome do chefe da quadrilha, um tal Gato Pardo. E dava pormenores sobre o crime. Pendemos esse homem e os dois outros cúmplices. Não nos custou muito fazê-los dizer tudo o que sabiam. Embora estejamos convictos de que o crime não foi cometido por eles, mas sim pelo tal castelhano nascido na Sardenha. Mas, por terem colaborado com o criminoso e não o terem impedido o homezio, vão ser enforcados. Podeis interrogá-los se quiserdes.
– Se o permitis, não deixarei de o fazer. E o tal Ulrich Imhoff de que o Torriani falou?
  1. Pedro de Meneses, ficou por momentos calado. Depois disse:
– Houve, de facto, um certo envolvimento do Imhoff neste caso, mas não teve nada a ver com o crime. Sabemos que pressionou o comerciante e cientista Martinho da Boémia no sentido de saber o essencial sobre o planisfério secreto. Não esqueçamos que Martin Behaim é um homem que está ligado às grandes famílias alemãs. Com uma grande lealdade para com os seus companheiros, os mestres José Vizinho e Rodrigo, Saul Navarro e vosso pai, colocou-lhes a questão e, colectivamente, como sempre trabalharam, encontraram uma solução – Behaim informou o senhor Imhoff de que o mapa provava que ele deveria reforçar a sua posição em Lisboa e nas feitorias que Portugal estava a criar ao longo da futura rota marítima das Índias, que cada ceitil aplicado na empresa dos Descobrimentos portuguesa, se multiplicaria muitas vezes. E nada mais lhe disse ou mostrou.
– Então ele, o Imhoff, nada teve a ver com a morte de meu pai.
– Nada. Tendes a minha palavra. O Torriani quis valorizar o roubo do mapa que o Díaz fez, com a nossa ajuda, e sabendo do interesse do Ulrich, imputou-lhe o assalto à oficina de vosso pai e o crime. Ou mentiu ou o Díaz convenceu-o de que assim foi – reflectiu um pouco – Não. Conhecendo o Torriani, inclino-me mais para a cumplicidade dele no crime – sorrindo, concluiu – Neste momento, sabeis deste triste assunto tanto como eu. A um homem da casa, como eu vos considero, não podia fazer menos do que contar-lhe a verdade.
– Muito agradeço a vossa senhoria.
– Já não me odiais? – Riu-se – Ainda me quereis cortar as orelhas?
– Compreendo que os interesses do Reino estão acima de tudo.
– Bem respondido, é isso mesmo. Em todo o caso, peço-vos desculpa, sobretudo pela cena que fizemos com aquela bonita moça judia – Lourenço ficou em silêncio, com uma expressão fechada – Vejo que é um assunto melindroso e sério – voltou a sorrir – pensais desposá-la?
– E se assim for? – o tom de Lourenço era desafiador – o conde suspirou:
– Se assim for, aconselho-vos a que não percais tempo. A moça e a família que se converta quanto antes. Casai depressa. Não vos posso dizer mais nada, mas vêm aí tempos maus para os hebreus. – E mudou de assunto – Vou chamar-vos em breve. El-rei quer confiar-vos outra missão – e despediu-se – Cuidai de vós e dos vossos, Lourenço de Mateus – A entrevista terminara.
À saída, Julião que, pelos vistos, era também um agente dos serviços de polícia do Reino, embora com funções administrativas, voltou a cumprimentar Lourenço, com o ar de quem lhe queria dizer alguma coisa.
*
Vou falar-vos, como prometi, das famílias alemãs que tinham vindo a ganhar peso na nossa sociedade e que, além de amigas e aliadas, eram, por vezes, cobiçosas do nosso poderio e expansão. As mais poderosas instaladas em Lisboa eram cinco: os Hirschvogel e os Imhoff, oriundos de Nuremberga, e os Hoechstetter, os Welser e os Fugger, provenientes de Augsburgo. Os Hirschvogel tinham vindo desde há diversas gerações estabelecendo contactos e abrindo estabelecimentos e entrepostos nas principais cidades comerciais e portos da Europa, criando uma rede de expansão de uma actividade mercantil que, basicamente, consistia em comprar tão barato quanto possível e em vender os mais caro que pudessem, tendo em conta o equilíbrio do mercado. Quando a Lisboa começaram a afluir, devido às navegações, especiarias, ouro e escravos, a família, já radicada em cidades da Áustria, da Polónia, da Hungria, da Inglaterra, da Flandres e de França, estendeu até aqui os tentáculos, iniciando a expansão na Península. De Nuremberga, onde estava a cabeça do polvo, Linchar III, que era quem dirigia os negócios dos Hirschvogel, mandou a Lisboa o cunhado Ulrich Imhoff, marido de sua irmã e membro de outra importante família nuremberguesa, nomeando-o aqui seu feitor. Astucioso, apesar de jovem, Ulrich Imhoff, aquele que Torriani acusara de ter ordenado o assassínio de meu avô, viria a firmar, com outras casas comerciais alemãs aqui instaladas, um convénio com a Coroa portuguesa que além de lhes conceder o direito a participar em algumas das nossas expedições marítimas os isentava do pagamento de impostos nas compras e vendas realizadas no Reino. Os Hoechstetter chegaram a Lisboa pela mesma altura, na viragem de Quatrocentos para Quinhentos, e com objectivos idênticos: participar na comercialização dos produtos que os Portugueses traziam das suas feitorias em África primeiro e, depois, na Ásia – entre outros, o açúcar, o sândalo, o cravo, a canela, a malagueta, a noz de pimenta, a noz-moscada, o ouro, a prata e outros metais. Também oriundos de Augsburgo, os Fugger, cuja riqueza se iniciou com o banqueiro Jacob Fugger, fizeram empréstimos a diversos estados da Europa, vindo a ser credores de Maximiliano e de Carlos V, financiando inclusivamente a eleição como imperador do Sacro Império Romano-Germânico deste último.
E termino com os que primeiro aqui se instalaram, os Welser, também oriundos de Augsburgo. Além de Lisboa, esta casa, associada à poderosa família Vohlin por laços matrimoniais, mantinha escritórios em Veneza, Milão, Florença, dedicando-se ao tráfico de especiarias e, mais tarde, à exploração de minas de prata. Algumas das nossas mais importantes viagens do início de Quinhentos, foram financiadas por estas famílias – em 1504, Lucas Rem, representante dos Welser, obteve um contrato pelo qual foram integrados na armada do vice-rei D. Francisco de Almeida, três navios comandados por Baltasar Sprenger, feitor dos Welser em Lisboa. Embora adversárias, as famílias germanas, formavam entre si uma rede de interesses que as levava a espiar os movimentos que aqui se iam produzindo. Espiavam por motivos diferentes dos de Veneza ou Génova. Mantinham uma rede de informação que lhes permitia saber quando e como comprar e vender em condições favoráveis. Até as zangas dentro da família real lhes eram úteis para poderem pressionar nos pontos certos e momentos adequados. E pagavam melhor do que os mediterrânicos os serviços prestados. Por isso nunca lhes faltava nem informadores, nem braços prolongados por punhais que eliminassem inimigos ou testemunhas incómodas. Coisas obscuras do mundo subterrâneo.
9
Lisboa, Cadeia do Tronco, sexta-feira, 22 de Novembro de 1487.
 
Lourenço, acompanhado por Diogo Mendo, voltou à Cadeia do Tronco. Antecedido por dois alabardeiros da guarda, percorreu de novo os corredores lúgubres que meses antes atravessara como prisioneiro. Num calabouço escuro, enterrado na terra, bem pior do que fora o seu, estavam os três facínoras. Ao verem aquele cortejo, temeram que a hora do enforcamento tivesse sido antecipada e caíram de joelhos, rezando. Um dos alabardeiros segurava um archote e aproximou-o. Ordenou aos presos que se levantassem e que viessem até junto das grades. Temerosos, os homens obedeceram. Eram três miseráveis, três ratazanas como as que habitam os muitos caneiros por onde se expelem os excrementos da cidade. Lourenço fitou-os com uma expressão de dureza:
– Sou o filho de Lopo de Mateus – Fernão e Gaspar voltaram a cair de joelhos, chorando, pedindo perdão. Lourenço compreendeu que aqueles miseráveis eram tão culpados, como a adaga com que tinham degolado Lopo. Eram instrumentos. Lourenço interrompeu o choro e as súplicas:
– Se quereis o meu perdão, tendes de me dizer quem vos pagou. Se não, bem podeis ir arder no Inferno!
O Gato Pardo mandou calar os outros e respondeu:
– Senhor, se nos dais o vosso perdão, diremos tudo o que sabemos.
– Tendes o meu perdão, se assim fizerdes – o Gato Pardo olhou os outros e disse:
– Quem nos contratou e pagou foi o aprendiz…
– O Nicolau? – Lourenço estava verdadeiramente surpreendido. O homem acrescentou:
– Mas quem o contratou a ele foi um estrangeiro um rapaz que umas vezes falava castelhano e outras uma espécie de toscano – «Julián», pensou Lourenço – foi com ele que o aprendiz veio à taverna onde nos encontrou. Quando fizemos o nosso preço, o aprendiz olhou para o estrangeiro, que disse que sim. Não lhe ouvimos uma palavra.
– Não me estais a mentir?
– Oh senhor, estamos à beira da forca. Porque iríamos mentir agora?
Diogo Mendo falou então com a sua voz possante. Ameaçou-os de substituir a forca, na qual morreriam rapidamente, pela fogueira, antecedida por uma sessão de potro, caso não dissessem a verdade. Por momentos, voltou a ser o beleguim Diogo. Descreveram o estrangeiro em pormenor, não deixando dúvidas de que se tratava de Julián Nuñez. O da cicatriz, contou como o estrangeiro havia interrogado o debuxante de mapas enquanto os outros dois o agarravam, ia encostando cada vez mais a adaga ao pescoço do homem… «do senhor», emendou.
– E depois – perguntou Lourenço fuzilando-o com os olhos.
Depois, vendo que o debuxante insistia em afirmar que não possuía o tal mapa, que o entregara ao cliente que, por sua vez, o dera a el-rei, Fizera-lhe sinal para que o matasse, passando-lhe a adaga para as mãos. O que ele não fora capaz de fazer. Tinham sido contratados para um assalto e para uma intimidação e não para um assassínio. O estrangeiro tirara-lhe a adaga das mãos e matara o debuxante. Os outros assentiam com as cabeças. E o da cicatriz terminou o relato:
– Mandou-nos revolver tudo e parecia louco em busca do tal mapa. Não nos deixou trazer nada, nem a bolsa com dinheiro, nem os anéis, nem uma travessa de prata… Mas ele tirou qualquer coisa do senhor seu pai, creio que um anel. Depois saímos. Foi à frente e seguimo-lo. Queríamos receber o que nos era ainda devido.
– Quanto? – Quis Diogo saber.
– Seis mil cruzados, mas já nos tinha dado dois mil…- Lourenço levou a mão á espada, mas Diogo travou-lhe o braço. Hesitante o homem acrescentou – Não nos deu mais nada. Disse que fora ele a fazer o trabalho e ameaçou-nos de coisas terríveis, pois viu que nós o íamos atacar.
Enraivecido, Lourenço virou as costas e o homem disse ainda:
– Estamos convencidos, pelos pormenores que os meirinhos tinham sobre nós, que foi ele quem nos denunciou.
O gordo e calvo Fernão, choramingou:
– Perdão, senhor! Perdão! – O Gato Pardo deu-lhe um violento empurrão e disse:
– O seu pai era um homem valente, senhor. Nunca tremeu nem vacilou – Lourenço parou e sentiu as lágrimas saltarem-lhe dos olhos. O da cicatriz terminou – Se vai ajustar contas com o estrangeiro, tenha cuidado, é cobarde, mas traiçoeiro como uma cobra.
Antes de sair, Lourenço, que estava muito perturbado, embora tenha podido confirmar o que o conde lhe dissera, encontrou ainda o seu amigo Bernardino, o barbeiro zarolho que, bem informado como sempre, sabia tudo o que se passara. Abraçaram-se longamente. O anadel mandou-o passar pela Alcáçova, depois de perguntar ao bondoso sangrador se gostaria de voltar à profissão das armas. O rosto grande de Bernardino, abriu-se num grande sorriso:
– Convosco por capitão, vou até ao fim do mundo!
*
E Pilatos disse ao imperador: – Senhor, seja vossa mercê que hajais misericórdia de mim e de todo este povo e tomai vossa cidade e todo o que é dentro e deixai-nos ir para outras terras. E rogamos, senhor, que nem pareis mentes à minha míngua nem ao mau conselho que eu houve, quando o vosso honrado mensageiro veio pela Verónica e não vos enviei o tributo que a vós e ao vosso honrado pai, César Augusto, soía fazer…
Naquela noite Nicolau estava, como habitualmente, a ler o romance a Brites Pereira antes de irem para a cama. Era a fascinante história de Vespasiano, Imperador de Roma. Ouviram passos subindo o lanço de escadas que vinha da rua, pois a casa de Brites ficava sobre uma loja, onde à noite se abrigavam animais, mulas, cabras, uma vaca… Fortes punhadas soaram sobre a porta. Em pânico, Brites perguntou quem era.
– A justiça! – Gritou Diogo – e acto contínuo, com um forte pontapé abriu a porta. A um canto, abraçados Nicolau e Brites, tremiam, chorando. Lourenço aproximou-se e agarrou o rapaz pelo pescoço, erguendo-o e encostando-o à parede. Diogo impediu Brites de se aproximar, manietando-a e tapando-lhe a boca, impedindo-a de gritar.
– Porquê? – Perguntou Lourenço, com a adaga com que Lopo fora degolado na mão direita: – Porquê? – Insistiu:
A Nicolau, que tremia de pânico, nem lhe ocorreu negar:
– Pelo dinheiro, senhor, mas não sabia que o iam matar… Ele disse…
– Quem te pagou?
– O estrangeiro, senhor.
– Julián Nuñez?
– Esse, senhor. Também se chamava assim.
– Também? Que outro nome tinha?
– Antòni… Antòni Ruju.
– Era os dois?
– Chama-se Alonso Antòni Díaz Ruju.
– Sabes para quem trabalha?
– Julgo que para Castela e para Veneza.
– Tens mais alguma coisa a dizer?
– Perdão, senhor… Ruju jurou-me que não o mataria. Que era só uns safanões para o assustar…
A adaga manejada por Lourenço rasgou de um só golpe a garganta de Nicolau, que, sem um suspiro, caiu como um boneco de trapos. O sangue jorrou em borbotões, como acontecera com Lopo e com Navarro. Trabalho de profissional, iriam dizer os meirinhos.
Brites queria gritar, mas a possante mão de Diogo sufocava-a. Disse-lhe ao ouvido:
– Vais chamar os meirinhos da ronda, uns minutos depois de nós sairmos. Mas não reconheces ninguém, nem a mim nem ao meu amigo – e acrescentou – A não ser que queiras ir fazer companhia ao teu amásio. Compreendeste? Se gritares, morres já! Compreendeste? – a mulher acenou afirmativamente e Diogo largou-a. Em silêncio, engolindo as lágrimas, sufocando o pranto, pegou numa manta e cobriu o corpo de Nicolau.
Lourenço e Diogo saíram.
10
Lisboa, castelejo da Alcáçova, segunda-feira, 25 de Novembro de 1487
 
Foi um Outono chuvoso o daquele ano e, sob um céu de nuvens densas, a manhã apresentava-se molhada e fria. Lourenço estava na pequena sala do comando da hoste de besteiros, como competia ao respectivo anadel. O soldado que o veio informar de que um senhor pedia para lhe falar, escorria água desde o bacinete de ferro, coberto pelo capuz do tabardo aguadeiro, até às botas de cabedal. Lourenço mandou entrar o visitante. Era Julião Fernandes. Surpreendido, mandou-o sentar-se num escano em frente à mesa em que assinava documentos. O homem estava invulgarmente sóbrio e, portanto, as mãos tremiam-lhe pela falta que o álcool fazia ao seu equilíbrio. Informou que lhe viera trazer uma coisa, mas que a sentinela ficara com o volume:
– Que coisa?
– Não sei. Nunca abri o volume. Mas é pesado e grande. A sentinela deve ter tido receio de que fosse um canhão pedreiro – gracejou tentando quebrar o gelo que se estabelecera entre ele Lourenço desde a morte de Lopo. Este riu-se e comentou que era uma regra – tudo o que os visitantes traziam tinha de ser visto na casa da guarda. Podiam, de facto, ser armas:
– Afinal, o que me traz de tão pesado e suspeito? – Lourenço tentou também aligeirar o clima entre ambos.
– Não sei, como disse. Mas vim cumprir um compromisso que assumi perante o teu pai.
– Um compromisso, e só agora vem?
– Disse-me que, se lhe acontecesse alguma coisa, só deveria vir quando tudo estivesse resolvido.
– Resolvido o quê?
– Foi o que eu lhe perguntei e disse-me que eu compreenderia e saberia quando devia vir. Achei que seria agora. O senhor conde de Cantanhede, garantiu-me que o assunto que conduziu ao assassínio de Lopo, estava esclarecido.
– Nessa altura entrou um sargento transportando nos braços uma escultura com mais de três palmos de altura. Era o anjo que desaparecera de casa nas vésperas do crime
– Pois bem – disse Julião, erguendo-se – a minha missão está cumprida.
– E o meu pai não disse nada?
– Disse-me só que deveria manter o volume em segurança até tudo estar resolvido. Como – hesitou, envergonhado – tu sabes, a minha vida não é das mais bem organizadas e a minha casa não é das mais seguras…
– Imagino que não – assentiu Lourenço com um sorriso.
– Pois, disse isso ao teu pai, mas respondeu que confiava em mim e eu não o podia desiludir…
– Então, o que fez?
– Tenho uma casa perto de Sintra, de onde eram os meus avós. Vive lá um irmão meu com mulher e os filhos. Fui lá e encarreguei-os de defender aquilo nem que tivesse de ser com a própria a vida. E disse-lhes que se abrissem o embrulho dali sairia uma peçonha que os mataria a todos. Envolvemos o volume em palha, metemo-lo dentro de uma arca de couro e enterrámo-lo a uma profundidade grande, sob o curral dos porcos. Ali esteve até que ontem, depois do senhor conde me garantir que tudo estava resolvido, fui buscar isso – olhou a escultura que Lourenço apreciava também – É bonito, mas o que terá esse anjo de tão especial?
– Não faço ideia – e acrescentou – em todo o caso agradeço-lhe muito o que fez.
– Ora, não foi nada… – já estava de pé para sair, mas queria dizer algo mais – sabes? Atormenta-me aquela cena da taverna com a tua mulher, em que eu colaborei – fez um gesto com a mão – Disseram-me que era para teu bem.
– O conde e el-rei já me explicaram tudo. Esteja tranquilo.
– Bem, se assim o dizes – e saiu acompanhado pelo soldado que o trouxera.
11
Sevilha, Janeiro de 1492 – Veneza, 1498 – Lisboa, Março de 1506.
 
Julián Nuñez, o andaluz debuxante de portulanos, aliás Antòni Ruju, o criado sardo da legação veneziana em Lisboa, também conhecido por Isaías de Córdoba, o judeu possuidor de um códice valioso, o Sefer ha-Zohar, que também usava e assinava o nome português de Cristóvão Álvares, sobretudo em cartas anónimas ou em envio de relatórios cifrados, ou seja, Alonso Díaz, nascido em Sassari, na Sardenha, agente castelhano ligado ao Santo Ofício, apareceu morto numa rua do Bairro de Santa Cruz, a então judiaria de Sevilha. Chovia muito e festejava-se por Castela e Aragão a tomada do Reino de Granada. Alonso Antòni Díaz Ruju fora degolado – «trabalho de profissional», disseram os aguazis, que apreciaram a técnica apurada da degolação – seccionando a traqueia o golpe quase cortara a garganta até às vértebras cervicais. A chuva lavava o sangue, arrastando-o até ao Guadalquivir pela pendente da estreita rua da judiaria onde o corpo foi encontrado. Os aguazis que o acharam morto, perto de um bodegón, frequentado por marinheiros, na Calle de Santa Teresa, atribuíram o crime a uma rixa de bêbedos. Isto embora Alonso, como cinco anos atrás dissera, tivesse como bebida de eleição a água fresca e pura. Era um pormenor que os oficiais de justiça não apuraram. Havia outra causa possível – o roubo, pois embora tivesse uma considerável quantia em dinheiro e mantivesse ao pescoço uma grossa corrente de ouro, de onde pendiam dezenas de medalhas com imagens de santos, crucifixos e estrelas de David, uma bolsa grande que transportava sob a capa, estava vazia. Alguém vira a vítima no bodegón, numa roda de gente do mar, mostrar um códice iluminado, dizendo que fora uma oferta de sua mãe. O livro não apareceu, a bolsa estava vazia. Também não deram pela falta de um anel de prata na corrente onde Alonso Díaz colocava os troféus. Ao contrário dos que se deleitam a cismar explicações complicadas para os crimes misteriosos, os meirinhos e aguazis, sejam de que paragens do mundo forem, não gostam de crimes misteriosos. Não há nada melhor do que uma explicação simples que permita que os oficiais de justiça durmam em paz e, deste modo, deixe a própria Justiça entregue à sua tão proverbial e conveniente cegueira. A aritmética dá-lhes razão, pois na maior parte dos casos, a explicação mais simples é a mais certeira. Embora nem sempre seja assim. O inquisidor frei Alonso de Ojeda, padrinho, protector e superior de Alonso, interessou-se pela solução do crime – interrogou e torturou suspeitos nos cárceres do Convento de San Pablo, onde funcionava o tribunal do Santo Ofício, na sua maioria vadios e marinheiros bêbedos que naquela noite haviam sido presos pelas cercanias do bodegón. Nada descobriu. Coincidência: Lourenço, Diogo, Dulmo e Bernardino estavam em Sevilha, participando nos festejos.
O negócio de Torriani começou a ficar arruinado quando os armazéns onde guardava as mercadorias arderam. Inexplicáveis incêndios eram um flagelo que o perseguia. Depois, uma sequência de infortúnios – levaram-no rapidamente à falência. O seu coração não aguentou. Morreu com uma síncope em Janeiro de 1493. Coincidência: Lourenço e os amigos estavam na cidade lagunar quando dos incêndios nos armazéns. Não sei, porque (pelas familiares razões que já vos expliquei) foi omisso nesse pormenor, se Lourenço voltou a ver a bela e agora empobrecida Elisabetta… Não tive coragem para efabular nesta matéria, como noutras fiz. Tentei adivinhar cenas românticas, beijos e talvez aquilo que sabemos vir na sequência dos beijos… mas a imagem de minha mãe costurando e erguendo os olhos, dissuadiu-me. Recomendo-vos que façais apelo à vossa imaginação.
Em Lisboa, Francesco Dandolo teve uma morte inexplicável. Corria o ano de 1507, quando uma tarde de Agosto, no jardim da sua casa, o foram encontrar com um virote de besta cravado entre os olhos. Em vão se procuraram indícios que permitissem esclarecer o crime. O facto de Lourenço e Diogo serem besteiros exímios, não passou de mais uma coincidência. Os assassinos de Lopo, os que tinham ordenado a sua morte, receberam o devido pagamento. Se quiséssemos ir mais longe e castigar os verdadeiros interessados e responsáveis, teríamos de punir cabeças coroadas, que são as que comandam as ignomínias que no mundo ocorrem. Mas tão alto não alcançavam os braços de um anadel e de seus amigos.
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Lisboa, sexta-feira, 28 de Janeiro de 1485.
 
– Qué marravilha! – Exclamou Martinho da Boémia ao ver o planisfério desdobrado sobre a mesa onde antes tinham saboreado a lauta merenda que Matilde, ajudada por Beatriz, lhes trouxera. José Vizinho, Rodrigo e Saul Navarro, aproximaram-se enquanto Lopo se afastava para os deixar apreciar o trabalho. Viram, deslumbrados, um mapa-múndi, resplandecente de belas cores, de pormenores dourados, sobretudo a rosa-dos-ventos. Colocada no centro, dela irradiando linhas que permitiam ler o mapa com maior exactidão. Ali estava, a ocidente e acima do trópico de Capricórnio a nova terra de Santa Maria. Europa, Ásia, África, apareciam com contornos perfeitamente delineados e com a respectiva designação toponímica. A Ocidente da Europa, interpondo-se entre este continente e a Ásia, surgiam grandes massas de terra, de contornos indefinidos, mas sugerindo a presença de um continente desconhecido. Lopo mantivera a inscrição do mapa do Bisagudo – ixola otinticha a ponête 1500 mile, distância a que era impossível, segundo os cálculos mais credíveis, encontrar-se as Índias. Por outro lado, a comunicabilidade entre os oceanos Atlântico e Índico era perfeitamente visível.
Neste planisfério fundiam-se todos os avanços da ciência de debuxar mapas, de Ptolomeu a Al-Idrisi, de Andrea Bianco e Fra-Mauro a Martellus. Lopo, com o valioso apoio de Martinho da Boémia e dos mestres Rodrigo e José Vizinho e a pesquisa científica aturadamente levada a cabo por Navarro, encontrando, comprando gravuras e documentos preciosos. Era um trabalho colectivo a que as mãos privilegiadas de Lopo tinham dado corpo. Partindo do mapa do Bisagudo, desenhara um planisfério de elevado valor científico. Todos ali estavam bem cientes do que estavam a ver – o retrato do mundo, tão exacto quanto os conhecimentos científicos permitiam. Ficaram em silêncio. Navarro, auxiliado por uma lente, observava pormenores, acenando apreciativamente. Estavam emocionados.
Lopo foi então buscar um outro rolo que desdobrou por cima do primeiro. Graficamente era também um trabalho primoroso, as mesmas cores e minúcias. Contudo, a informação contida estava deturpada. Uma massa de terra austral impedia a comunicação entre o Atlântico e o Índico. A Ocidente da Europa, as Índias – Catai e Cipango. Tudo o que era conhecido, estava registado com rigor, incluindo a costa ocidental de África, toda a costa mediterrânica, tudo feito com exactidão e minúcia. A emoção causada pelo primeiro mapa, transmutou-se em hilaridade. Todos riram perante os dois colossais embustes «inocentemente» plantados entre tanta verdade.
– Pêro Vaz da Cunha encarregou-nos de executar apenas um original e uma cópia dos nossos planisférios, pedindo-me que fizesse o mesmo para o falso – Foi buscar os dois rolos que faltavam, as duas cópias. E explicou: – O original do nosso mapa destina-se a el-rei, a cópia que fiz exactamente igual, fica em nosso poder. Quanto aos falsos, Vaz da Cunha vai levá-los para os entregar a D. Pedro de Meneses, que deles necessita.
– Para que será? – Perguntou ironicamente Navarro. Todos riram, pois bem se sabia que o conde de Cantanhede dirigia a rede de enculcas do Reino, rede de que Navarro era um dos mais antigos agentes.
– Como vais guardar o mapa? – Perguntou o mestre Rodrigo.
– Tem de ser muito bem guardado – disse José Vizinho – Nenhum de nós tem condições para proteger bem um segredo como esse, enquanto for segredo – Na realidade, todos, menos Lopo, iam sair do Reino nos próximos meses em serviço do Estado. Sorrindo, Lopo foi a um canto buscar uma escultura feita em pedra policromada, um anjo com dois palmos de altura e com mais de três de envergadura das asas. Lopo afirmou:
– Este vai guardá-lo melhor do que nós.
13
Esta nave louca, movida pelas velas de tantas laudas, está prestes a arribar ao seu porto de destino. Falta agora já só apenas revelar-vos um pequeno e quase insignificante pormenor. Porque, em verdade, as coisas nem sempre, ou quase nunca, são aquilo que parecem ser e o que lhes falta para que fiquem completas e autênticas são, por vezes, pormenores.
Quando trouxe a escultura que Julião lhe levara ao castelejo, Lourenço perguntou a sua mãe que anjo era aquele. Há muitos anos Lopo trouxera-o para a consola da chaminé. Pequeno, durante o dia, com os seus três palmos de altura, transformava-se num gigante quando, à noite, num ritual que nunca fora interrompido, se acendia a vela que lhe ficava por trás, projectando-lhe a sombra alada na parede de taipa caiada de branco, fronteira à chaminé. A resposta de Matilde veio pronta:
– É São Miguel, meu filho – e acrescentou – O anjo do Apocalipse, o vencedor de Satanás, o arcanjo que protege a Igreja de Roma.
Lourenço, como todos os lisboetas, sabia-o. O santo era o orago de uma das freguesias de Lisboa, próxima da Sé. Acorreu-lhe a lembrança a misteriosa mensagem que Navarro pusera dentro do breviário hebraico – San Miguel – Examinou a imagem de pedra – vestes compridas de cor verde, um manto vermelho, grandes asas douradas, na mão direita uma balança de pesar virtudes e pecados, na esquerda, agarrado com firmeza, um bordão que acompanhava quase toda a altura da imagem. Um rosto jovem e sorridente, emoldurado por caracóis castanhos. Era pesado – cinco arráteis ou seis, talvez mesmo sete. Dado o seu volume, a imagem parecia ser mais pesada ainda. Depois de a ter examinado com atenção, voltou-a. A base, um quase círculo dos panejamentos da veste e da capa, era, à primeira vista, uma superfície lisa e branca. Demasiado branca no centro, notou. Como se ao meio houvesse outra matéria que não o calcário de que era feita a escultura. Com uma faca, raspou com cuidado, muito ao de leve. O material, gesso ao que parecia, começou a desfazer-se. Sempre com cautela, para não danificar a preciosa imagem, foi raspando. Uma camada de pouco mais de uma polegada de gesso foi cedendo, deixando uma grande abertura no centro da escultura. Metendo os dedos, Lourenço encontrou algo. Puxou. Saiu um troço compacto de papel, dobrado e enrolado. Desdobrando-o Lourenço viu, maravilhado um mapa-múndi, belo, resplandecente de cor. Quando escreveu San Miguel na folha que meteu entre as páginas do Talmude de Jerusalém, Navarro quisera-o informar de que o verdadeiro mapa estava dentro da escultura. Aquele mapa pelo qual tanto sangue correra, estava afinal em seu poder.
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Até hoje, os mapas continuaram a fazer correr sangue e dinheiro. Entre estes casos, o mais exemplar é talvez o do planisfério português dito de Cantino, não porque assim se chamasse o autor, mas porque em 1502, o agente comercial e espia italiano Alberto Cantino o adquiriu em Lisboa para Ercole d’Este, duque de Ferrara. Falo neste mapa porque, apesar de anónimo, nele se fundem a tradição que vinha de Ptolomeu com a maneira oriental e mais científica que os árabes conferiram à arte, passando pela mais recente técnica dos portulanos para a qual os portugueses deram tão importante contributo. Nesta carta, abrangendo cerca de 275 graus do globo terrestre, se registam com apreciável rigor as distâncias que as navegações portuguesas permitiram calcular, substituindo as fantasias que povoavam as cartas por uma informação mais fiável e cientificamente apoiada. As velhas isbas surgem já convertidas em graus. Cada grau equivalia sensivelmente à medida de 17 léguas e meia utilizada pelos navegantes portugueses.
Nele aparecem também pela primeira vez desenhadas as linhas do equador e dos trópicos, implicando esta inovação o registo de latitudes, deixando de se utilizar o processo grosseiro e falível de fazer as localizações
através de rumos e distâncias, embora para o Mediterrâneo ainda se usasse
esse antigo sistema de medidas. Pela primeira vez a Europa e as costas de África surgem debuxadas com rigor e entre estes dois continentes, a Oeste da Europa e da África e a Leste da Ásia, é delineada a costa oriental de uma nova grande massa continental onde o sonhador almirante genovês imaginava ter encontrado as terras míticas de Kublai-Kan que o veneziano Marco Polo tão bem descrevera no livro datado de 1298, mas que entre nós
Planisfério dito «de Cantino».
só foi conhecido mais de um século depois, quando o douto infante D. Pedro, no regresso de uma sua viagem pela Europa, nos trouxe, no ano de 1428, um exemplar do Livro de Marco Polo. Onde Fra-Mauro e o seu auxiliar Andrea Bianco imaginavam, com hesitações e dúvidas, a presença de uma grande ilha ou continente, o anónimo asseverava-o já. Porém, foram as grandes viagens de Bartolomeu Dias, de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral que comprovaram que o anónimo que elaborou este planisfério não trabalhou às cegas. O mapa do Bisagudo terá sido a base do seu trabalho. Na realidade, o mapa de Cantino deveria talvez chamar-se planisfério de Lopo de Mateus. Talvez, porque tendo o meu pai entregue o mapa-múndi encontrado dentro do São Miguel ao conde de Cantanhede, o seu rasto se perdeu. Há quem diga que o grande terramoto de 1531 destruiu o arquivo em que se encontrava guardado. Não sei.
O expediente de falsear mapas para enganar inimigos, teve sequelas. Nas vésperas da viagem de Fernão de Magalhães, Lopo Homem, Pedro Reinel e seu filho Jorge Reinel, desenharam em 1519 um atlas magnificamente colorido e decorado com animais exóticos, camelos, alifantes, hipopótamos, vendo-se nele debuxada a costa oriental da Terra de Vera Cruz, com índios acarretando feixes de pau-brasil. Muito belo do ponto de vista artístico, mas enganoso como referência científica. Acreditando nele, parecia impossível transpor o novo continente para Oriente. O caminho para o Pacífico, para chegar às Índias, teria de ser feito pela conhecida Rota do Cabo. Magalhães provou que isto não era verdade, encontrando uma passagem no extremo Sul do continente recém-descoberto. Provou também que Colombo tinha razão quando queria atingir a Ásia navegando sempre para Ocidente – só calculou mal as distâncias, sendo surpreendido com um continente que se meteu de permeio. Ora, o erro dos reputados debuxantes foi tudo menos inocente. O atlas, encomendado por el-rei D. Manuel talvez para o oferecer ao papa Leão X, ou ao imperador Carlos V, ou ainda à sua jovem esposa castelhana D. Leonor, foi manobra de intoxicação – fosse a quem fosse feita a oferta, o mapa circularia por mãos estrangeiras e chegaria, ao menos em cópia, às mãos dos enculcas de Castela. Talvez a «evidência» de que existia uma barreira entre a Europa e a Ásia, entre o Atlântico e o Pacífico, dissuadisse Castela de investir na expedição de Magalhães. Quase trinta anos depois de o velho mapa do Bisagudo ter sido útil na assinatura do Tratado de Tordesilhas, tentou-se o mesmo passe de mágica. Desta vez, sem sucesso.
*
Sentado na cátedra da sala ou no escano de espaldar junto ao fogo da chaminé o meu pai descrevia suas aventuras. Minha mãe bordava. Raramente sorria. A grande matança da Páscoa de 1506 que tantos familiares lhe levara, deixara nela um permanente rasto de amargura. José, embora atento, balouçava-se num pequeno banco de madeira, caindo não poucas vezes. As sombras projectadas pelas labaredas nas paredes da cozinha transformavam-se, na minha juvenil imaginação, em sicários, em alabardeiros, em monstros marinhos, marinheiros… Desde criança que me habituei a ouvir estas narrativas – o mapa secreto, a missão junto do papa Alexandre VI, a batalha de Diu… Porém, a aventura do mapa ficou-me particularmente na memória. Meu pai, de cada vez que a contava, omitia uns pormenores e acrescentava outros. Por vezes começava no princípio e acabava no fim, outras, detinha-se num aspecto parcial. Suponho que por minha mãe ser uma das suas atentas ouvintes, terá omitido pormenores, sobretudo acerca dos seus amores com Elisabetta. Trabalhei com o material de que dispunha e bastas vezes me vi forçado a recorrer a imaginação para preencher vazios no fio da narrativa. Só o conjunto desses relatos, feitos na casa de Alfama, à beira da Judiaria, me permitiu completar este conto sobre o mapa do Bisagudo. Vamos lá então rematar a história.
Epílogo
Vejamos o que aconteceu a algumas das personagens desta história. Começo por Pêro Vaz da Cunha.            No ano de 1489, el-rei encarregou-o do comando de uma armada de vinte caravelas que partiu do Reino em auxílio a um régulo senegalês, D. João Bemoim, cuja autoridade local era contestada por adversários políticos. A necessidade do rei de Portugal em estar de boas relações com os régulos africanos, assentava na esperança de obter informações úteis sobre o mítico Preste João. Vaz da Cunha tinha ainda como missão construir uma fortaleza no território, assumindo a sua capitania logo que a construção dessa fortificação estivesse acabada. No entanto, alegando ter tido conhecimento da iminência de uma traição por parte do régulo, o Bisagudo apunhalou-o, matando-o. Quando regressou a Lisboa, teve grande dificuldade em explicar as razões para a sua decisão, sendo por isso afastado de futuras empresas. Porém, el-rei, retirando-lhe a confiança política, manteve, até ao fim dos seus dias, a amizade que há muitos anos os unia.
            Quanto ao doge Agostino Barbarigo, um escândalo eclodiu em 1 de Agosto de 1491. O chefe do Conselho dos Dez, o até então influente Benedetto Pesaro, fora acusado de abuso da autoridade em proveito próprio. As provas eram demasiadas para serem ignoradas. Pesando os prós e os contras de sancionar o crime ou de o deixar impune, Barbarigo, que, segundo era voz corrente, muito devia a Pesaro, seu cúmplice em obscuros tratos, usando, desta vez, a sua púrpura ducal de forma incorrupta, lavou as suas mãos, deixou cair o amigo, condenando o magistrado, embora houvesse quem comentasse o muito que os anteriores «abusos de autoridade» de Pesaro o teriam beneficiado. À custa do sacrifício de um amigo e cúmplice conseguira melhorar a ideia que dele se fazia. Em Veneza, tudo se compra, tudo se vende, quase tudo se paga e a amizade também não escapa a esse mercado. Em todo o caso, não lhe saíra muito caro este negócio… Em suma: o seu dogado, apesar da imagem de impoluta honestidade e de grande transparência que sempre quis transmitir aos coevos e deixar aos vindouros, ia sendo manchado por escândalos e ínvias manobras de corrupção. Mas os pratos da balança oscilavam sempre – era corrupto, mas era lesto nos negócios que fazia. E se tirava proveito pessoal desses negócios, a República ganhava também com eles. Tinha defensores e detractores. Morreu em 20 de Setembro de 1501, com a idade de 81 anos.
Sobre João Dulmo, pouco se soube depois, a não ser que, pouco antes da viragem do século, casara e fora viver para a ilha Terceira, de cujas quatro ribeiras seu irmão Fernão era capitão. Por uma outra carta recebida, soube-se ainda que tinha uma ninhada de pequenos flamengos. Nunca o cheguei a conhecer. Diogo Mendo, que, tal como Lourenço, foi subindo na carreira militar, vinha por vezes visitar-nos e bem me lembro da sua avultada figura e da alegria com que participava nas narrativas de meu pai, confirmando no essencial as suas versões e ajudando-o por vezes a lembrar pormenores, divergindo outras vezes, com a teimosia própria dos velhos, em questões de menor importância. Mas mantiveram-se sempre muito amigos até que Mendo, partindo deste mundo, alguns anos antes de meu pai, por seu turno, nos ter deixado.
Quanto aos sábios que reuniam na oficina de Lopo, Martinho da Boémia, que com os mestres José Vizinho e Rodrigo trabalharam com Abraão Zacuto no aperfeiçoamento do astrolábio, fez com eles parte da expedição de Diogo Cão à Guiné. Em 1486, fixou-se no Faial, onde casou com Joana de Macedo, filha do capitão-donatário da ilha. Em 1490 viajou para a sua Nuremberga natal, aí ficando até 1493, terminando o seu globo terrestre. Regressou depois ao Faial, passando por Lisboa, ali vivendo até 1506. Veio a Lisboa em negócios, onde viria a morrer em Julho de 1507. o Mestre José Vizinho naquele mesmo ano de 1485 foi por el-rei enviado à Guiné, acompanhado pelo Mestre Rodrigo, onde procederam a observações que permitiram aperfeiçoar o astrolábio, instrumento indispensável aos navegadores. Médico da corte, acompanhou el-rei D. João II na sua viagem para o Alvor, onde o monarca morreria em 25 de Outubro de 1495. Com estes sábios e com Abraão Zacuto, o mais sábio, o conhecimento geográfico abandonava o empirismo da Idade Velha e entrava na Idade Nova.
El-rei D. João que desde há seis anos ocupava o trono, pusera muito e fero tento na gula dos fidalgos e tolhera as mãos dos que, em tempos de seu pai roubavam vilões e camponeses. E, por vezes, cortou as mãos que se não encolheram a tempo dentro de suas bolsas e as cabeças que, enfadadas com as medidas tomadas pelo rei, conjuraram contra a justiça real ou de tal foram, por vezes, injustamente, acusadas. 1491, foi o ano da morte do infante D. Afonso. Em Julho, oito meses depois do casamento com a filha dos reis Católicos, a princesa que, como sua mãe, se chamava Isabel, o príncipe morria de uma queda do cavalo, durante um passeio pelas margens do Tejo, em Santarém. Todo o projecto da hegemonia lusitana sobre as Espanhas, caiu por terra. Internamente, os ódios da nobreza espoliada são uma fogueira inextinguível. Logo a seguir às bodas do príncipe, começou a manifestar-se uma estranha enfermidade no rei. A princípio foram apenas «acidentes e desmaios», até que, em meados de 1495, a doença se agravou. O aspecto esbelto de el-rei vai convertendo-se num corpo balofo e disforme. Foram quatro anos de luta entre a doença e a vontade férrea do monarca. Muitos, suspeitam de envenenamento. Ao pôr-do-sol de 25 de Outubro de 1495, com quarenta anos, morre no Alvor el-rei D. João, o segundo deste nome.
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É com pena e também com alívio que chego ao fim desta tarefa que cumpri com algum rigor e rara disciplina, apesar do meu feitio indisciplinado. Não sei se terei ânimo e me será concedido tempo para contar outras das aventuras de meu pai. Porém, o facto de ter conseguido chegar ao fim desta e poder pousar a pena e pedir amanhã que me cosam as folhas in-quarto em que escrevi, olhando da janela a magnífica nave branca que é Lisboa, me dá uma profunda satisfação e o sentimento de que cumpri a minha missão neste mundo que não podia ser apenas o de ter passado a juventude a escrever atestados e certidões e a idade mais madura a plantar favas, feijões e alfaces. Os dois corvos negros, um alapado à proa, outro à ré, vigiam codiciosamente a nave de loucos que é a cidade e o desvairado mundo em que vivemos. Sinto o seu adejar sob o manto vermelho do céu. Um derradeiro raio de sol, incide sobre a lombada de ouro do Livro do Esplendor, o Sefer ha- Zohar (o prior torceu o nariz antes de admitir esta obra fundamental da Cabala na minha estante, mas o seu conteúdo é tão hermético que, tal hermetismo, o converte em obra inocente. A mancha de sangue que suja a capa e as primeiras páginas, intrigou-o, mas lá acabou por autorizar que o conservasse na cela). Às vezes sinto um grande cansaço, uma grande saturação pelo isolamento em que vivo, eu, um impenitente tagarela. Tranquiliza-me a conclusão a que uma monja chegou – «na vida monástica, o que custa mais são os primeiros cinquenta anos!».
 A noite cai lentamente e os meus olhos já não me permitem que escreva à luz das velas. O meu gomil de Talavera, herança de minha tia-avó Maria Beatriz, concede-me generosamente mais um gole de água pura e fresca. Vou terminar. Os sinos há muito que tocaram para a última oração do dia, antes de todos os frades recolherem às celas, as ave-marias, também chamadas trindades ou, ainda, completas.
Faltei à oração, mas o prior e os irmãos perdoam-me, pois há muito que me atribuíram um estatuto de insanidade, o que só me favorece, pois não há maior peso, nem fardo mais difícil de suportar, do que o de ser assisado. Irei ao refeitório comer a ceia e serei bem acolhido, pois julgo que apesar de se rirem à socapa das minhas fantasias e das palavras sem nexo que, por vezes, lanço para a mesa, a meio de uma colherada de sopa, só para não perder os meus direitos de taralhouco tão duramente adquiridos, me estimam e me verão partir com pesar. Pesar que não será demasiado em todo o caso. Porque não tenho, como vejo outros acalentar, vãs ilusões de que a minha morte signifique seja o que for para a vida do convento, da cidade, do Reino e do Mundo. Nada mudará. Depois de eu partir, tudo continuará como antes – os mercadores a mercadejar, os lavradores a semear e a colher, os frades a rezar, os ladrões a roubar, os guerreiros a guerrear, as mancebas a vender o corpo, os poderosos a cevar-se impunemente sobre a carne dos humildes, os navios a fazer-se ao mar… Nada mudará. Enquanto a minha carne se muda em pó, a nave dos loucos seguirá a sua transviada rota. Cá por mim, cheguei ao fim desta viagem. A vossa, meus amigos, é convosco – cada um é capitão na sua barca.
            E por aqui me quedo.
 
Não se tratava de «uma grande armada». O jovem gajeiro, exagerara. Não passava de uma pequena frota aquela que, vinda de Sul, da costa de África, se aproximava velozmente dos três barcos ancorados num ponto algumas léguas afastado do castelhano porto de Tarifa. Eram cinco as naves – três naus e duas caravelas. As naus, todas de três mastros, superavam os duzentos tonéis e pela sua coberta superior distribuíam-se, a bombordo e a estibordo, dezenas de bombardas. As duas caravelas, eram típicos navios de apoio, com velas latinas e providas ambas de um pequeno castelo à popa, sendo esguias e de pequeno calado à proa, desenho que lhes permitia, com bom vento e ajuda de remos atingir grandes velocidades e mesmo esgueirar-se entre as alterosas ondas das grandes tempestades oceânicas. Estavam também equipadas com bombardas e canhões mais pequenos, sobretudo falconetes e colubrinas. Era uma frota de vigilância e patrulha vinda de Ceuta com destino a Lisboa. Ao comandante terá parecido estranha e suspeita aquela reunião em pleno mar entre um navio militar do reino de Castela, uma carraca da Flandres e uma fusta francesa, conforme as respectivas insígnias hasteadas pela caravela e pelos dois navios mercantes testemunhavam.
Tudo isto decorria em águas de indiscutível jurisdição castelhana, mas já vos expliquei quanto as leis, viessem elas de onde viessem, prontamente faleciam à vista dos canhões. Se em vez de uma pequena caravela, estivessem ali mais do que uma nau castelhana e já o comandante português teria sido forçado a refrear as suas, tão compreensíveis quanto ilegais, curiosidade e suspeição e a passar de largo. Felizmente para os três condenados à forca, desta vez o equilíbrio pendia para o seu lado. De bordo da nau capitânia portuguesa foram berradas com arrogante autoridade, ordens para que os navios comerciais ficassem onde estavam e para que a caravela castelhana zarpasse dali imediatamente. E para apoiar estas ordens, as naus e as caravelas logo se começaram a dispor em linha, manobrando para apresentar um dos flancos aos três navios estrangeiros. As portinholas que cobriam as bombardas foram puxadas por correntes de ferro e elevadas. Percebeu-se que não haveria quaisquer hesitações em começar a despejar pelouros de ferro e de pedra sobre o navio ou os navios que não obedecessem à ordem. A primeira bordada seria, muito de aviso e intimidação, indo cair umas braças adiante do barco mais distante, para Norte, neste caso a caravela castelhana. As descargas seguintes seriam letais: destruiriam os três barcos, que, no seu conjunto, não dispunham de poder de fogo aproximado ao apresentado por apenas uma das naus.
Os soldados castelhanos, para não ser humilhados, apressaram-se a regressar à caravela, levando consigo os dois emissários reais, o capelão e o espia andaluz. O capitão Van der Meer ficou a bordo da fusta. Os portugueses deixaram o batel que transportava os soldados e demais gente de Castela chegar à caravela e só depois lançaram ao mar as suas pequenas barcas onde dezenas de soldados bem armados se dirigiram em simultâneo à Leeuwarden e à Saint-Louis. A bordo desta última, os tripulantes tinham já prontamente retirado as cordas que tinham sido colocadas pelos soldados de Castela em torno dos pescoços dos três prisioneiros, desataram-lhes as mãos e haviam-nos retirado dos pedestais de madeira sobre os quais tinham sido colocados, meros caixotões que, a terem-se cumprido as execuções, seriam puxados de supetão e os poriam «a dançar», para usar a expressão do espia andaluz. Tinham escapado por pouco de uma feia morte, se é que as há bonitas. O físico da fusta veio logo dar assistência aos portugueses, ocupando-se em primeiro lugar de Diogo, cujas feridas pareciam ter dado lugar a uma infecção.
No batel que minutos depois abordou a fusta francesa vinha, acompanhado por alguns soldados, o comandante português dos cinco navios que compunham a pequena armada. Tratava-se de um homem jovem, magro e de baixa estatura, de tez morena, com olhos mui vivos e penetrantes, denunciando argúcia e inteligência. Não se impondo pela altura e corpulência, denotava em toda a sua atitude, autoridade e uma firmeza viril. Usava, contrariamente à moda em vigor, uma barba escura e frondosa, tentando talvez parecer mais velho e austero. Chamava-se Diogo Lopes de Sequeira e viria a ter, como se sabe hoje, um grande futuro como político e como militar. Apesar de ser um fidalgo da Casa Real, naquela altura, com 25 anos, comandava aquela pequena frota o que dizia já alguma coisa sobre o seu valor. Em poucas mas elucidativas palavras, foi posto por Lourenço e pelos outros dois portugueses ao corrente do que sucedera, mas não deu qualquer ordem no sentido de deter a caravela castelhana que levantara âncora e navegava já rapidamente em direcção a Tarifa, estando ainda, no entanto, bem ao alcance de fogo das bombardas portuguesas. Havia que respeitar as conveniências – estava-se em mar territorial de Castela e afundar uma caravela com as quatro espadas vermelhas da cruz de Santiago nas velas e ostentando os pendões reais, com os leões e castelos de ouro bordados sobre fundo vermelho e amarelo, era coisa que só podia ser feita por motivo muito grave, pois, naquelas condições, constituiria um agravo inútil e desproporcionado. Ademais era um acto que podia trazer consequências indesejadas, visto que, de momento, as duas coroas nem sequer estavam em guerra, vivendo mesmo um raro período de acalmia, em declarada paz. E havia ainda a previsão de um importante tratado entre os reinos peninsulares a ser assinado em breve. Embora tudo isto fosse verdade e Lopes de Sequeira tivesse de o tomar em consideração, a surda e hostil rivalidade, herdada dos séculos anteriores, era também uma força em movimento. Os artilheiros ferviam de raiva e resmungavam de frustração por não poderem afundar «uma caravela pejada de perros». Porém, o capitão não deixava que impulsos atávicos turvassem a razão política.
Diplomaticamente, Lourenço não se referiu ao papel de Van der Meer em toda a história, deixando que fosse ele a explicar-se. O flamengo lá contou um mal amanhado relato, segundo o qual fora quem salvara as vidas aos três servidores da Coroa, convencendo os nobres e o espia de Castela a pouparem-lhes as vidas. Era uma descarada mentira. João Dulmo que, apesar de agora ser português, não esquecera a sua língua de berço, rosnava em neerlandês os mais grosseiros insultos ao capitão, à honra de sua mãe, de seu pai, de sua esposa, à sua masculinidade… Van der Meer, fingia não ouvir e continuava a desfiar a sua mentirosa história. Lourenço e Diogo, que continuava um pouco febril e estendido sobre uma maca, deixaram-no mentir à vontade, tendo comentado em voz baixa que, nos seus relatórios não deixariam de descrever tudo o que tinham sabido sobre aquele homem que, embora pago por Portugal, servia a Castela, Veneza e sabe-se lá a mais quem. No fundo, não era má pessoa e se não lhes tinha salvo a vida como afirmara, tinha, pelo menos, tentado evitar que fossem torturados de uma forma desumana como Nuñez pretendia. E, vendo bem as coisas, esse já não era um favor tão pequeno quanto isso.
O capitão Lopes de Sequeira, sagaz apesar da sua juventude, compreendeu, tanto pela troca de sorrisos e de comentários entre Lourenço e Diogo, bem como pelas repetidas invectivas de João, que aquele relato era uma patranha, mas não era também conveniente criar um conflito com Flandres, tanto mais que as coisas tinham acabado bem. Fingiu acreditar e limitou-se a dizer rudemente ao outro que se calasse, pois já tinha percebido tudo. O capitão flamengo pôde assim, conservando o aprumo, regressar ao seu navio num batel que dali veio para o transportar. No entanto, os seus proventos como agente da Coroa portuguesa haviam terminado. Tinha de descarregar em Lisboa as mercadorias que trazia de Veneza, mas não seria conveniente que baixasse ao porto. E nunca mais os ares de Portugal seriam aconselháveis para a sua saúde.
Restava agora a Lourenço e a Diogo despedirem-se de João que iria para Lisboa a bordo da fusta francesa, onde os seus serviços de mareante tinham sido contratados. Abraçaram-se comovidamente, embora evitando dar palmadas nas costas ainda em sangue devido às numerosas vergastadas e queimaduras. Combinaram encontrar-se em Lisboa, pois, por certo, chegariam com uma pequena diferença de tempo. As provações que juntos tinham vivido durante aqueles breves dias de Verão tornaram-nos amigos para a vida e para a morte. Despediram-se também do comandante Perrin e da sua tripulação que tanto os tinha ajudado. Lourenço foi ao porão buscar o mapa escondido na trave, embarcando então no batel que o levou e a Diogo Mendo, este transportado na maca, para bordo da nau capitânia. Naquele pedaço de papel residia toda a razão de ser da sua missão e todo o motivo das tribulações que, ele e outros, tinham passado naqueles dias.
7
Lisboa, Paço da Alcáçova, terça-feira, 19 de Novembro de 1487.
 
Chegado a Lisboa e após ter ido abraçar e beijar a mãe e demais familiares, visitado Débora e se ter apresentado na alcaidaria, Lourenço, no dia seguinte, foi recebido no Paço. Ia acompanhado por Diogo Mendo, ainda convalescente da infecção que lhe envenenara o sangue. Entre os fidalgos e prelados que rodeavam o trono, à direita do rei, viu o «ébrio arruaceiro» que supostamente ferira na taverna. Diogo lembrou-o de que se tratava de D. Pedro de Meneses, conde de Cantanhede. O fidalgo, sorridente, dirigiu-lhe um malicioso aceno. Este importante senhor da corte, andaria pela idade do rei e distinguira-se, muito jovem, na batalha de Toro, travada na veiga de Peláyo González, comandando a força das hostes do então príncipe D. João que rompeu a ala castelhana. El-rei D. Afonso concedeu-lhe o título em 1479, tendo sido depois alcaide-mor de Coimbra e passando a integrar o conselho do novo monarca.
No falso duelo da taverna, D. Pedro de Meneses, que era um gentil fidalgo e não, como simulara, um arruaceiro, levava vestida uma cota de malha sob o gibanete de veludo e Lourenço não o ferira. O sangue que a sua roupa ostentava, ora tinta derramada por um dos comparsas que sobre ele se debruçara. O escrivão do conde, Julião Fernandes, que conhecia Lourenço desde que nascera, prestara informações sobre o jovem besteiro. Julião ainda conhecera o almogárave e pôde confirmar que o moço herdara o carácter impulsivo e corajoso do bisavô. Fora essa característica que levara o conde a imaginar a armadilha. O ardil resultara e o jovem, após o suposto crime, agira como melhor aprouvera ao serviço de informação de Sua Majestade. Sabendo-se que o pai fora assassinado pelos buscadores do mapa, esta fora a maneira expedita de o forçar a fazer algo a que, de outro modo, dificilmente o teriam convencido, pois, disposto a bater-se por causas que entendesse nobres e honradas, as artimanhas de espia não se adequavam à sua maneira de ser. O conde, colhida informação junto de Julião e da alcaidaria-mor, aconselhara o seu recrutamento forçado de para a missão em Veneza. Tudo isto, Diogo já lhe contara em Veneza. Porém, D. Pedro de Meneses, sob o sorriso benévolo do rei e os risos de simpatia dos cortesãos tudo recapitulou. Com um ar de júbilo, concluiu:
– Deste modo, senhor Lourenço de Mateus, fostes até Veneza onde cumpristes a vossa missão! – Verificando que se fizera um silêncio total e que os olhares, inclusive o do rei, estavam postos na sua figura e pareciam agora dele aguardar uma resposta, Lourenço redarguiu em tom prudente:
– Saiba vossa senhoria que mui contristado fiquei ao saber que, apesar dos nossos esforços, os nossos inimigos fizeram copiar o mapa e a informação nele contida. O meu esforço e o dos meus amigos terá sido em vão, pois falhámos a missão – Uma gargalhada do conde e um sorriso do rei acolheram esta declaração. O conde, depois de ter trocado um olhar com el-rei e de ter recebido um mudo assentimento, explicou a razão dos risos:
– Desculpai-me por só agora vos fazer esta revelação. O mapa roubado da Casa da Mina foi, muito provavelmente, copiado enquanto esteve em poder do Torriani. – Mas, esse mapa que com tanto destemor recuperastes, é falso. Vosso pai o desenhou, a pedido de Vaz da Cunha, com as falsas informações que lhe recomendámos – e desdobrou então o planisfério que Lourenço trouxera junto do peito e que, sem o ver, escondera na trave da fustaVede que a ocidente da Europa está debuxada a Ásia, como alguns querem; vede que entre o Atlântico e o Índico não existe comunicação, como tanto o desejam os Venezianos – e acrescentou – É um mapa que, embora mentiroso, deixa toda a gente feliz. No entanto, não vo-lo podíamos dizer, pois queríamos que o tentásseis recuperar com a força da convicção. Se não tivéssemos reagido ao roubo na Casa da Mina – o qual facilitámos com a simulada negligência do arquivista e deixando o falso mapa em local bem visível. A não ser assim, os nossos inimigos não fariam fé na sua autenticidade. Parecendo pouco importante, por apenas terdes recuperado uma cópia falsa, o vosso esforço foi decisivo para o triunfo da operação. O mapa autêntico está em poder de Sua Majestade – Segundo consta, vosso pai tinha feito uma cópia dessa carta que ele e os outros sábios realizaram, cópia que não aparece. Talvez, ao receber as cartas de ameaça, a tenha destruído – e o conde concluiu – Esta missão foi coroada de sucesso. O vosso trabalho deu credibilidade ao falso mapa. Ninguém se esforçaria tanto por uma coisa sem valor – sorriu. Lourenço, no entanto, não sorria e Diogo observava preocupado a sua expressão fechada. Todavia, deixou o conde concluir e, num tom grave contestou:
– Sabei, senhor, que a missão não está terminada – e reforçou – Respeitosamente vos afirmo que tenho ainda algo de importante a fazer.
– A missão está terminada e com sucesso, pois trouxestes o mapa que foi roubado pelos venezianos e os convencemos, a eles e aos Castelhanos, que para nós, o mapa era de grande importância – com ar estupefacto, o conde, enquanto falava, olhava de Lourenço, para Diogo e deste para el-rei. Lourenço curvou a cabeça ao dirigir-se a Sua Majestade:
– Falta-me ainda vingar a morte de meu pai! – De cabeça curvada e falando de forma respeitosa, a voz saíra-lhe alterada e todos os presentes adivinharam que aquelas palavras vinham molhadas em lágrimas de dor.
O rei e o conde entreolharam-se de novo. Foi ainda D. Pedro de Meneses que, após discreto aceno de assentimento do rei, respondeu:
– Sabei que os assassinos de vosso pai, três miseráveis, vão ser enforcados. Pêro Vaz da Cunha, que se sentiu moralmente responsável pelo crime, não descansou enquanto não foram presos. Podeis consultar os autos do julgamento dos três homens e interrogá-los antes da execução. Deveis contentar-vos com isto – vosso pai, pessoa mui ilustrada e sabedora, a nosso pedido desenhou um mapa que sabia estar errado, começou um trabalho contra os inimigos do nosso Reino e esse trabalho foi concluído por seu filho – olhou o tecto – No céu estará orgulhoso de vós. Quanto à sua morte, será feita justiça – os assassinos serão enforcados.
– Perdoai-me, mas essa justiça não me satisfaz – o conde ficou atónito e el-rei abandonou o sorriso e franziu o sobrolho. Lourenço, apercebeu-se da brusca mudança de temperatura na sala, mas prosseguiu – Esses homens foram os braços que seguraram o punhal e eu quero decapitar a cabeça que ditou o crime. Soube em Veneza que os matadores de meu pai agiram a mando de um tal Ulrich Imhoff. É com esse que eu quero estar uns minutos a sós –            O rei falou com a voz fria e peremptória:
– Os assassinos foram pagos por Veneza através de um espião sardo, Antòni Ruju, assim o confessaram. Embora garantam que não foram eles a cometer o crime, mas sim o tal sardo. Não tendo encontrado o mapa na oficina de vosso pai, foi depois o mesmo ou outro agente, com a nossa colaboração, roubá-lo à Casa da Mina. O senhor Imhoff é um amigo deste Reino, ao qual devemos bons e leais serviços. O assunto está encerrado.
Mantendo a cabeça curvada e tendo, aparentemente, aceite o veredicto de el-rei, o assunto não estava encerrado para Lourenço. O tal Ruju, Julián e Torriani, tinham de pagar. Mas, contra a vontade real pouco havia, pelo menos de momento, que se pudesse fazer. No entanto, pensou que tinha muito tempo pela frente para indagar o que realmente ocorrera naquele funesto fim de tarde outonal dois anos antes, quando seu pai fora apunhalado na oficina. Se, como D. Pedro de Meneses afirmara e ele não tinha razões para de tal duvidar, havia provas de que os criminosos tinham actuado a mando de Torriani, de Nuñez e do tal Ruju ou dos três, ele saberia encontrá-los. Porque, a verdade é que o gosto pelo trabalho de enculca, com seus perigos, suas manhas e enganos, colara-se-lhe à pele. E começava, não perdendo a impulsividade herdade do bisavô, a saber contê-la, e a estabelecer os raciocínios pacientes e sinuosos dos espias.
Mas não nos adiantemos no tempo, pois estamos ainda na reunião da Alcáçova. Após ter elogiado a coragem, a determinação com que Lourenço ultrapassara as dificuldades, el-rei outorgou-lhe o cargo de anadel de uma hoste de besteiros do alcaide-mor de Lisboa, entregando-lhe com solenidade a carta régia em que tal dignidade estava lavrada. E disse-lhe, sempre num tom austero, embora afável, que tinha outra missão pensada para ele. Coisa de monta, pois, mofou Sua Majestade, «este passeio a Veneza» fora uma forma de experimentar as suas capacidades perante situações realmente complicadas. Os conselheiros riram. Fazendo uma pausa para os deixar rir, mas mantendo o semblante fechado, o rei continuou o discurso. Tratava-se agora de uma diligência junto do papa…
É uma outra história que talvez um dia ganhe alento para vos contar, se até esse dia eu lograr viver. Para já, urge concluir esta, que já vai longa. O monte das laudas que nestas semanas escrevi, assusta-me. Como fui capaz de escrever tanto?
8
Paço da Alcáçova, quinta-feira, 21 de Novembro de 1487.
Desta vez sozinho, Lourenço aguardou numa antecâmara que o conde de Cantanhede o recebesse. Mandara um dos seus secretários ao castelejo onde o jovem estava de serviço ao comando da guarnição, com o recado de que lhe queria falar com urgência. D. Nuno Soares, o alcaide-mor, autorizou de imediato a saída do anadel, pois o poder que D. Pedro de Meneses não suportava demoras e muito menos negativas. Enquanto esperava, saiu da sala do conde, sobraçando pastas com papéis, Julião Fernandes. Fez um tímido aceno na direcção de Lourenço, que correspondeu. Poucos minutos depois de ter chegado, foi recebido pelo conde na sua sala de trabalho, com as paredes cobertas de estantes com livros e de mapas. O conde pediu a Lourenço que se sentasse em frente dele e entrou logo no assunto:
– Pedi-vos que aqui viésseis, porque no paço, diante de el-rei e de tanta gente estranha, não pude dar-vos algumas explicações a que tendes direito. Porque vosso pai foi assassinado e porque o vosso trabalho para este serviço foi exemplar – Lourenço ouvia em silêncio. D. Pedro de Meneses continuou: – Vosso pai foi assassinado por um espia ao serviço de Castela, um homem que conheceis sob o nome de Julián Nuñez, mas que na realidade se chama Alonso Antòni Díaz Ruju, um protegido do inquisidor de Sevilha, frei Alonso de Ojeda. Este agente castelhano, que nasceu na Sardenha, esteve também em Veneza onde trabalhou para a Chancelaria Secreta, ligado ao mercador Torriani – Lourenço falou pela primeira vez:
– Julián matou meu pai sozinho?
– Não. Contratou três pequenos meliantes que o ajudaram. Foram presos porque recebemos uma carta assinada por um tal Cristóvão Álvares, que não localizámos e que deve ser um nome falso, dizendo-nos que na taverna Paraíso encontraríamos os assassinos de Lopo de Mateus. A carta dizia o nome do chefe da quadrilha, um tal Gato Pardo. E dava pormenores sobre o crime. Pendemos esse homem e os dois outros cúmplices. Não nos custou muito fazê-los dizer tudo o que sabiam. Embora estejamos convictos de que o crime não foi cometido por eles, mas sim pelo tal castelhano nascido na Sardenha. Mas, por terem colaborado com o criminoso e não o terem impedido o homezio, vão ser enforcados. Podeis interrogá-los se quiserdes.
– Se o permitis, não deixarei de o fazer. E o tal Ulrich Imhoff de que o Torriani falou?
  1. Pedro de Meneses, ficou por momentos calado. Depois disse:
– Houve, de facto, um certo envolvimento do Imhoff neste caso, mas não teve nada a ver com o crime. Sabemos que pressionou o comerciante e cientista Martinho da Boémia no sentido de saber o essencial sobre o planisfério secreto. Não esqueçamos que Martin Behaim é um homem que está ligado às grandes famílias alemãs. Com uma grande lealdade para com os seus companheiros, os mestres José Vizinho e Rodrigo, Saul Navarro e vosso pai, colocou-lhes a questão e, colectivamente, como sempre trabalharam, encontraram uma solução – Behaim informou o senhor Imhoff de que o mapa provava que ele deveria reforçar a sua posição em Lisboa e nas feitorias que Portugal estava a criar ao longo da futura rota marítima das Índias, que cada ceitil aplicado na empresa dos Descobrimentos portuguesa, se multiplicaria muitas vezes. E nada mais lhe disse ou mostrou.
– Então ele, o Imhoff, nada teve a ver com a morte de meu pai.
– Nada. Tendes a minha palavra. O Torriani quis valorizar o roubo do mapa que o Díaz fez, com a nossa ajuda, e sabendo do interesse do Ulrich, imputou-lhe o assalto à oficina de vosso pai e o crime. Ou mentiu ou o Díaz convenceu-o de que assim foi – reflectiu um pouco – Não. Conhecendo o Torriani, inclino-me mais para a cumplicidade dele no crime – sorrindo, concluiu – Neste momento, sabeis deste triste assunto tanto como eu. A um homem da casa, como eu vos considero, não podia fazer menos do que contar-lhe a verdade.
– Muito agradeço a vossa senhoria.
– Já não me odiais? – Riu-se – Ainda me quereis cortar as orelhas?
– Compreendo que os interesses do Reino estão acima de tudo.
– Bem respondido, é isso mesmo. Em todo o caso, peço-vos desculpa, sobretudo pela cena que fizemos com aquela bonita moça judia – Lourenço ficou em silêncio, com uma expressão fechada – Vejo que é um assunto melindroso e sério – voltou a sorrir – pensais desposá-la?
– E se assim for? – o tom de Lourenço era desafiador – o conde suspirou:
– Se assim for, aconselho-vos a que não percais tempo. A moça e a família que se converta quanto antes. Casai depressa. Não vos posso dizer mais nada, mas vêm aí tempos maus para os hebreus. – E mudou de assunto – Vou chamar-vos em breve. El-rei quer confiar-vos outra missão – e despediu-se – Cuidai de vós e dos vossos, Lourenço de Mateus – A entrevista terminara.
À saída, Julião que, pelos vistos, era também um agente dos serviços de polícia do Reino, embora com funções administrativas, voltou a cumprimentar Lourenço, com o ar de quem lhe queria dizer alguma coisa.
*
Vou falar-vos, como prometi, das famílias alemãs que tinham vindo a ganhar peso na nossa sociedade e que, além de amigas e aliadas, eram, por vezes, cobiçosas do nosso poderio e expansão. As mais poderosas instaladas em Lisboa eram cinco: os Hirschvogel e os Imhoff, oriundos de Nuremberga, e os Hoechstetter, os Welser e os Fugger, provenientes de Augsburgo. Os Hirschvogel tinham vindo desde há diversas gerações estabelecendo contactos e abrindo estabelecimentos e entrepostos nas principais cidades comerciais e portos da Europa, criando uma rede de expansão de uma actividade mercantil que, basicamente, consistia em comprar tão barato quanto possível e em vender os mais caro que pudessem, tendo em conta o equilíbrio do mercado. Quando a Lisboa começaram a afluir, devido às navegações, especiarias, ouro e escravos, a família, já radicada em cidades da Áustria, da Polónia, da Hungria, da Inglaterra, da Flandres e de França, estendeu até aqui os tentáculos, iniciando a expansão na Península. De Nuremberga, onde estava a cabeça do polvo, Linchar III, que era quem dirigia os negócios dos Hirschvogel, mandou a Lisboa o cunhado Ulrich Imhoff, marido de sua irmã e membro de outra importante família nuremberguesa, nomeando-o aqui seu feitor. Astucioso, apesar de jovem, Ulrich Imhoff, aquele que Torriani acusara de ter ordenado o assassínio de meu avô, viria a firmar, com outras casas comerciais alemãs aqui instaladas, um convénio com a Coroa portuguesa que além de lhes conceder o direito a participar em algumas das nossas expedições marítimas os isentava do pagamento de impostos nas compras e vendas realizadas no Reino. Os Hoechstetter chegaram a Lisboa pela mesma altura, na viragem de Quatrocentos para Quinhentos, e com objectivos idênticos: participar na comercialização dos produtos que os Portugueses traziam das suas feitorias em África primeiro e, depois, na Ásia – entre outros, o açúcar, o sândalo, o cravo, a canela, a malagueta, a noz de pimenta, a noz-moscada, o ouro, a prata e outros metais. Também oriundos de Augsburgo, os Fugger, cuja riqueza se iniciou com o banqueiro Jacob Fugger, fizeram empréstimos a diversos estados da Europa, vindo a ser credores de Maximiliano e de Carlos V, financiando inclusivamente a eleição como imperador do Sacro Império Romano-Germânico deste último.
E termino com os que primeiro aqui se instalaram, os Welser, também oriundos de Augsburgo. Além de Lisboa, esta casa, associada à poderosa família Vohlin por laços matrimoniais, mantinha escritórios em Veneza, Milão, Florença, dedicando-se ao tráfico de especiarias e, mais tarde, à exploração de minas de prata. Algumas das nossas mais importantes viagens do início de Quinhentos, foram financiadas por estas famílias – em 1504, Lucas Rem, representante dos Welser, obteve um contrato pelo qual foram integrados na armada do vice-rei D. Francisco de Almeida, três navios comandados por Baltasar Sprenger, feitor dos Welser em Lisboa. Embora adversárias, as famílias germanas, formavam entre si uma rede de interesses que as levava a espiar os movimentos que aqui se iam produzindo. Espiavam por motivos diferentes dos de Veneza ou Génova. Mantinham uma rede de informação que lhes permitia saber quando e como comprar e vender em condições favoráveis. Até as zangas dentro da família real lhes eram úteis para poderem pressionar nos pontos certos e momentos adequados. E pagavam melhor do que os mediterrânicos os serviços prestados. Por isso nunca lhes faltava nem informadores, nem braços prolongados por punhais que eliminassem inimigos ou testemunhas incómodas. Coisas obscuras do mundo subterrâneo.
9
Lisboa, Cadeia do Tronco, sexta-feira, 22 de Novembro de 1487.
 
Lourenço, acompanhado por Diogo Mendo, voltou à Cadeia do Tronco. Antecedido por dois alabardeiros da guarda, percorreu de novo os corredores lúgubres que meses antes atravessara como prisioneiro. Num calabouço escuro, enterrado na terra, bem pior do que fora o seu, estavam os três facínoras. Ao verem aquele cortejo, temeram que a hora do enforcamento tivesse sido antecipada e caíram de joelhos, rezando. Um dos alabardeiros segurava um archote e aproximou-o. Ordenou aos presos que se levantassem e que viessem até junto das grades. Temerosos, os homens obedeceram. Eram três miseráveis, três ratazanas como as que habitam os muitos caneiros por onde se expelem os excrementos da cidade. Lourenço fitou-os com uma expressão de dureza:
– Sou o filho de Lopo de Mateus – Fernão e Gaspar voltaram a cair de joelhos, chorando, pedindo perdão. Lourenço compreendeu que aqueles miseráveis eram tão culpados, como a adaga com que tinham degolado Lopo. Eram instrumentos. Lourenço interrompeu o choro e as súplicas:
– Se quereis o meu perdão, tendes de me dizer quem vos pagou. Se não, bem podeis ir arder no Inferno!
O Gato Pardo mandou calar os outros e respondeu:
– Senhor, se nos dais o vosso perdão, diremos tudo o que sabemos.
– Tendes o meu perdão, se assim fizerdes – o Gato Pardo olhou os outros e disse:
– Quem nos contratou e pagou foi o aprendiz…
– O Nicolau? – Lourenço estava verdadeiramente surpreendido. O homem acrescentou:
– Mas quem o contratou a ele foi um estrangeiro um rapaz que umas vezes falava castelhano e outras uma espécie de toscano – «Julián», pensou Lourenço – foi com ele que o aprendiz veio à taverna onde nos encontrou. Quando fizemos o nosso preço, o aprendiz olhou para o estrangeiro, que disse que sim. Não lhe ouvimos uma palavra.
– Não me estais a mentir?
– Oh senhor, estamos à beira da forca. Porque iríamos mentir agora?
Diogo Mendo falou então com a sua voz possante. Ameaçou-os de substituir a forca, na qual morreriam rapidamente, pela fogueira, antecedida por uma sessão de potro, caso não dissessem a verdade. Por momentos, voltou a ser o beleguim Diogo. Descreveram o estrangeiro em pormenor, não deixando dúvidas de que se tratava de Julián Nuñez. O da cicatriz, contou como o estrangeiro havia interrogado o debuxante de mapas enquanto os outros dois o agarravam, ia encostando cada vez mais a adaga ao pescoço do homem… «do senhor», emendou.
– E depois – perguntou Lourenço fuzilando-o com os olhos.
Depois, vendo que o debuxante insistia em afirmar que não possuía o tal mapa, que o entregara ao cliente que, por sua vez, o dera a el-rei, Fizera-lhe sinal para que o matasse, passando-lhe a adaga para as mãos. O que ele não fora capaz de fazer. Tinham sido contratados para um assalto e para uma intimidação e não para um assassínio. O estrangeiro tirara-lhe a adaga das mãos e matara o debuxante. Os outros assentiam com as cabeças. E o da cicatriz terminou o relato:
– Mandou-nos revolver tudo e parecia louco em busca do tal mapa. Não nos deixou trazer nada, nem a bolsa com dinheiro, nem os anéis, nem uma travessa de prata… Mas ele tirou qualquer coisa do senhor seu pai, creio que um anel. Depois saímos. Foi à frente e seguimo-lo. Queríamos receber o que nos era ainda devido.
– Quanto? – Quis Diogo saber.
– Seis mil cruzados, mas já nos tinha dado dois mil…- Lourenço levou a mão á espada, mas Diogo travou-lhe o braço. Hesitante o homem acrescentou – Não nos deu mais nada. Disse que fora ele a fazer o trabalho e ameaçou-nos de coisas terríveis, pois viu que nós o íamos atacar.
Enraivecido, Lourenço virou as costas e o homem disse ainda:
– Estamos convencidos, pelos pormenores que os meirinhos tinham sobre nós, que foi ele quem nos denunciou.
O gordo e calvo Fernão, choramingou:
– Perdão, senhor! Perdão! – O Gato Pardo deu-lhe um violento empurrão e disse:
– O seu pai era um homem valente, senhor. Nunca tremeu nem vacilou – Lourenço parou e sentiu as lágrimas saltarem-lhe dos olhos. O da cicatriz terminou – Se vai ajustar contas com o estrangeiro, tenha cuidado, é cobarde, mas traiçoeiro como uma cobra.
Antes de sair, Lourenço, que estava muito perturbado, embora tenha podido confirmar o que o conde lhe dissera, encontrou ainda o seu amigo Bernardino, o barbeiro zarolho que, bem informado como sempre, sabia tudo o que se passara. Abraçaram-se longamente. O anadel mandou-o passar pela Alcáçova, depois de perguntar ao bondoso sangrador se gostaria de voltar à profissão das armas. O rosto grande de Bernardino, abriu-se num grande sorriso:
– Convosco por capitão, vou até ao fim do mundo!
*
E Pilatos disse ao imperador: – Senhor, seja vossa mercê que hajais misericórdia de mim e de todo este povo e tomai vossa cidade e todo o que é dentro e deixai-nos ir para outras terras. E rogamos, senhor, que nem pareis mentes à minha míngua nem ao mau conselho que eu houve, quando o vosso honrado mensageiro veio pela Verónica e não vos enviei o tributo que a vós e ao vosso honrado pai, César Augusto, soía fazer…
Naquela noite Nicolau estava, como habitualmente, a ler o romance a Brites Pereira antes de irem para a cama. Era a fascinante história de Vespasiano, Imperador de Roma. Ouviram passos subindo o lanço de escadas que vinha da rua, pois a casa de Brites ficava sobre uma loja, onde à noite se abrigavam animais, mulas, cabras, uma vaca… Fortes punhadas soaram sobre a porta. Em pânico, Brites perguntou quem era.
– A justiça! – Gritou Diogo – e acto contínuo, com um forte pontapé abriu a porta. A um canto, abraçados Nicolau e Brites, tremiam, chorando. Lourenço aproximou-se e agarrou o rapaz pelo pescoço, erguendo-o e encostando-o à parede. Diogo impediu Brites de se aproximar, manietando-a e tapando-lhe a boca, impedindo-a de gritar.
– Porquê? – Perguntou Lourenço, com a adaga com que Lopo fora degolado na mão direita: – Porquê? – Insistiu:
A Nicolau, que tremia de pânico, nem lhe ocorreu negar:
– Pelo dinheiro, senhor, mas não sabia que o iam matar… Ele disse…
– Quem te pagou?
– O estrangeiro, senhor.
– Julián Nuñez?
– Esse, senhor. Também se chamava assim.
– Também? Que outro nome tinha?
– Antòni… Antòni Ruju.
– Era os dois?
– Chama-se Alonso Antòni Díaz Ruju.
– Sabes para quem trabalha?
– Julgo que para Castela e para Veneza.
– Tens mais alguma coisa a dizer?
– Perdão, senhor… Ruju jurou-me que não o mataria. Que era só uns safanões para o assustar…
A adaga manejada por Lourenço rasgou de um só golpe a garganta de Nicolau, que, sem um suspiro, caiu como um boneco de trapos. O sangue jorrou em borbotões, como acontecera com Lopo e com Navarro. Trabalho de profissional, iriam dizer os meirinhos.
Brites queria gritar, mas a possante mão de Diogo sufocava-a. Disse-lhe ao ouvido:
– Vais chamar os meirinhos da ronda, uns minutos depois de nós sairmos. Mas não reconheces ninguém, nem a mim nem ao meu amigo – e acrescentou – A não ser que queiras ir fazer companhia ao teu amásio. Compreendeste? Se gritares, morres já! Compreendeste? – a mulher acenou afirmativamente e Diogo largou-a. Em silêncio, engolindo as lágrimas, sufocando o pranto, pegou numa manta e cobriu o corpo de Nicolau.
Lourenço e Diogo saíram.
10
Lisboa, castelejo da Alcáçova, segunda-feira, 25 de Novembro de 1487
 
Foi um Outono chuvoso o daquele ano e, sob um céu de nuvens densas, a manhã apresentava-se molhada e fria. Lourenço estava na pequena sala do comando da hoste de besteiros, como competia ao respectivo anadel. O soldado que o veio informar de que um senhor pedia para lhe falar, escorria água desde o bacinete de ferro, coberto pelo capuz do tabardo aguadeiro, até às botas de cabedal. Lourenço mandou entrar o visitante. Era Julião Fernandes. Surpreendido, mandou-o sentar-se num escano em frente à mesa em que assinava documentos. O homem estava invulgarmente sóbrio e, portanto, as mãos tremiam-lhe pela falta que o álcool fazia ao seu equilíbrio. Informou que lhe viera trazer uma coisa, mas que a sentinela ficara com o volume:
– Que coisa?
– Não sei. Nunca abri o volume. Mas é pesado e grande. A sentinela deve ter tido receio de que fosse um canhão pedreiro – gracejou tentando quebrar o gelo que se estabelecera entre ele Lourenço desde a morte de Lopo. Este riu-se e comentou que era uma regra – tudo o que os visitantes traziam tinha de ser visto na casa da guarda. Podiam, de facto, ser armas:
– Afinal, o que me traz de tão pesado e suspeito? – Lourenço tentou também aligeirar o clima entre ambos.
– Não sei, como disse. Mas vim cumprir um compromisso que assumi perante o teu pai.
– Um compromisso, e só agora vem?
– Disse-me que, se lhe acontecesse alguma coisa, só deveria vir quando tudo estivesse resolvido.
– Resolvido o quê?
– Foi o que eu lhe perguntei e disse-me que eu compreenderia e saberia quando devia vir. Achei que seria agora. O senhor conde de Cantanhede, garantiu-me que o assunto que conduziu ao assassínio de Lopo, estava esclarecido.
– Nessa altura entrou um sargento transportando nos braços uma escultura com mais de três palmos de altura. Era o anjo que desaparecera de casa nas vésperas do crime
– Pois bem – disse Julião, erguendo-se – a minha missão está cumprida.
– E o meu pai não disse nada?
– Disse-me só que deveria manter o volume em segurança até tudo estar resolvido. Como – hesitou, envergonhado – tu sabes, a minha vida não é das mais bem organizadas e a minha casa não é das mais seguras…
– Imagino que não – assentiu Lourenço com um sorriso.
– Pois, disse isso ao teu pai, mas respondeu que confiava em mim e eu não o podia desiludir…
– Então, o que fez?
– Tenho uma casa perto de Sintra, de onde eram os meus avós. Vive lá um irmão meu com mulher e os filhos. Fui lá e encarreguei-os de defender aquilo nem que tivesse de ser com a própria a vida. E disse-lhes que se abrissem o embrulho dali sairia uma peçonha que os mataria a todos. Envolvemos o volume em palha, metemo-lo dentro de uma arca de couro e enterrámo-lo a uma profundidade grande, sob o curral dos porcos. Ali esteve até que ontem, depois do senhor conde me garantir que tudo estava resolvido, fui buscar isso – olhou a escultura que Lourenço apreciava também – É bonito, mas o que terá esse anjo de tão especial?
– Não faço ideia – e acrescentou – em todo o caso agradeço-lhe muito o que fez.
– Ora, não foi nada… – já estava de pé para sair, mas queria dizer algo mais – sabes? Atormenta-me aquela cena da taverna com a tua mulher, em que eu colaborei – fez um gesto com a mão – Disseram-me que era para teu bem.
– O conde e el-rei já me explicaram tudo. Esteja tranquilo.
– Bem, se assim o dizes – e saiu acompanhado pelo soldado que o trouxera.
 
Sevilha, Janeiro de 1492 – Veneza, 1498 – Lisboa, Março de 1506.
 
Julián Nuñez, o andaluz debuxante de portulanos, aliás Antòni Ruju, o criado sardo da legação veneziana em Lisboa, também conhecido por Isaías de Córdoba, o judeu possuidor de um códice valioso, o Sefer ha-Zohar, que também usava e assinava o nome português de Cristóvão Álvares, sobretudo em cartas anónimas ou em envio de relatórios cifrados, ou seja, Alonso Díaz, nascido em Sassari, na Sardenha, agente castelhano ligado ao Santo Ofício, apareceu morto numa rua do Bairro de Santa Cruz, a então judiaria de Sevilha. Chovia muito e festejava-se por Castela e Aragão a tomada do Reino de Granada. Alonso Antòni Díaz Ruju fora degolado – «trabalho de profissional», disseram os aguazis, que apreciaram a técnica apurada da degolação – seccionando a traqueia o golpe quase cortara a garganta até às vértebras cervicais. A chuva lavava o sangue, arrastando-o até ao Guadalquivir pela pendente da estreita rua da judiaria onde o corpo foi encontrado. Os aguazis que o acharam morto, perto de um bodegón, frequentado por marinheiros, na Calle de Santa Teresa, atribuíram o crime a uma rixa de bêbedos. Isto embora Alonso, como cinco anos atrás dissera, tivesse como bebida de eleição a água fresca e pura. Era um pormenor que os oficiais de justiça não apuraram. Havia outra causa possível – o roubo, pois embora tivesse uma considerável quantia em dinheiro e mantivesse ao pescoço uma grossa corrente de ouro, de onde pendiam dezenas de medalhas com imagens de santos, crucifixos e estrelas de David, uma bolsa grande que transportava sob a capa, estava vazia. Alguém vira a vítima no bodegón, numa roda de gente do mar, mostrar um códice iluminado, dizendo que fora uma oferta de sua mãe. O livro não apareceu, a bolsa estava vazia. Também não deram pela falta de um anel de prata na corrente onde Alonso Díaz colocava os troféus. Ao contrário dos que se deleitam a cismar explicações complicadas para os crimes misteriosos, os meirinhos e aguazis, sejam de que paragens do mundo forem, não gostam de crimes misteriosos. Não há nada melhor do que uma explicação simples que permita que os oficiais de justiça durmam em paz e, deste modo, deixe a própria Justiça entregue à sua tão proverbial e conveniente cegueira. A aritmética dá-lhes razão, pois na maior parte dos casos, a explicação mais simples é a mais certeira. Embora nem sempre seja assim. O inquisidor frei Alonso de Ojeda, padrinho, protector e superior de Alonso, interessou-se pela solução do crime – interrogou e torturou suspeitos nos cárceres do Convento de San Pablo, onde funcionava o tribunal do Santo Ofício, na sua maioria vadios e marinheiros bêbedos que naquela noite haviam sido presos pelas cercanias do bodegón. Nada descobriu. Coincidência: Lourenço, Diogo, Dulmo e Bernardino estavam em Sevilha, participando nos festejos.
O negócio de Torriani começou a ficar arruinado quando os armazéns onde guardava as mercadorias arderam. Inexplicáveis incêndios eram um flagelo que o perseguia. Depois, uma sequência de infortúnios – levaram-no rapidamente à falência. O seu coração não aguentou. Morreu com uma síncope em Janeiro de 1493. Coincidência: Lourenço e os amigos estavam na cidade lagunar quando dos incêndios nos armazéns. Não sei, porque (pelas familiares razões que já vos expliquei) foi omisso nesse pormenor, se Lourenço voltou a ver a bela e agora empobrecida Elisabetta… Não tive coragem para efabular nesta matéria, como noutras fiz. Tentei adivinhar cenas românticas, beijos e talvez aquilo que sabemos vir na sequência dos beijos… mas a imagem de minha mãe costurando e erguendo os olhos, dissuadiu-me. Recomendo-vos que façais apelo à vossa imaginação.
Em Lisboa, Francesco Dandolo teve uma morte inexplicável. Corria o ano de 1507, quando uma tarde de Agosto, no jardim da sua casa, o foram encontrar com um virote de besta cravado entre os olhos. Em vão se procuraram indícios que permitissem esclarecer o crime. O facto de Lourenço e Diogo serem besteiros exímios, não passou de mais uma coincidência. Os assassinos de Lopo, os que tinham ordenado a sua morte, receberam o devido pagamento. Se quiséssemos ir mais longe e castigar os verdadeiros interessados e responsáveis, teríamos de punir cabeças coroadas, que são as que comandam as ignomínias que no mundo ocorrem. Mas tão alto não alcançavam os braços de um anadel e de seus amigos.
12
Lisboa, sexta-feira, 28 de Janeiro de 1485.
 
– Qué marravilha! – Exclamou Martinho da Boémia ao ver o planisfério desdobrado sobre a mesa onde antes tinham saboreado a lauta merenda que Matilde, ajudada por Beatriz, lhes trouxera. José Vizinho, Rodrigo e Saul Navarro, aproximaram-se enquanto Lopo se afastava para os deixar apreciar o trabalho. Viram, deslumbrados, um mapa-múndi, resplandecente de belas cores, de pormenores dourados, sobretudo a rosa-dos-ventos. Colocada no centro, dela irradiando linhas que permitiam ler o mapa com maior exactidão. Ali estava, a ocidente e acima do trópico de Capricórnio a nova terra de Santa Maria. Europa, Ásia, África, apareciam com contornos perfeitamente delineados e com a respectiva designação toponímica. A Ocidente da Europa, interpondo-se entre este continente e a Ásia, surgiam grandes massas de terra, de contornos indefinidos, mas sugerindo a presença de um continente desconhecido. Lopo mantivera a inscrição do mapa do Bisagudo – ixola otinticha a ponête 1500 mile, distância a que era impossível, segundo os cálculos mais credíveis, encontrar-se as Índias. Por outro lado, a comunicabilidade entre os oceanos Atlântico e Índico era perfeitamente visível.
Neste planisfério fundiam-se todos os avanços da ciência de debuxar mapas, de Ptolomeu a Al-Idrisi, de Andrea Bianco e Fra-Mauro a Martellus. Lopo, com o valioso apoio de Martinho da Boémia e dos mestres Rodrigo e José Vizinho e a pesquisa científica aturadamente levada a cabo por Navarro, encontrando, comprando gravuras e documentos preciosos. Era um trabalho colectivo a que as mãos privilegiadas de Lopo tinham dado corpo. Partindo do mapa do Bisagudo, desenhara um planisfério de elevado valor científico. Todos ali estavam bem cientes do que estavam a ver – o retrato do mundo, tão exacto quanto os conhecimentos científicos permitiam. Ficaram em silêncio. Navarro, auxiliado por uma lente, observava pormenores, acenando apreciativamente. Estavam emocionados.
Lopo foi então buscar um outro rolo que desdobrou por cima do primeiro. Graficamente era também um trabalho primoroso, as mesmas cores e minúcias. Contudo, a informação contida estava deturpada. Uma massa de terra austral impedia a comunicação entre o Atlântico e o Índico. A Ocidente da Europa, as Índias – Catai e Cipango. Tudo o que era conhecido, estava registado com rigor, incluindo a costa ocidental de África, toda a costa mediterrânica, tudo feito com exactidão e minúcia. A emoção causada pelo primeiro mapa, transmutou-se em hilaridade. Todos riram perante os dois colossais embustes «inocentemente» plantados entre tanta verdade.
– Pêro Vaz da Cunha encarregou-nos de executar apenas um original e uma cópia dos nossos planisférios, pedindo-me que fizesse o mesmo para o falso – Foi buscar os dois rolos que faltavam, as duas cópias. E explicou: – O original do nosso mapa destina-se a el-rei, a cópia que fiz exactamente igual, fica em nosso poder. Quanto aos falsos, Vaz da Cunha vai levá-los para os entregar a D. Pedro de Meneses, que deles necessita.
– Para que será? – Perguntou ironicamente Navarro. Todos riram, pois bem se sabia que o conde de Cantanhede dirigia a rede de enculcas do Reino, rede de que Navarro era um dos mais antigos agentes.
– Como vais guardar o mapa? – Perguntou o mestre Rodrigo.
– Tem de ser muito bem guardado – disse José Vizinho – Nenhum de nós tem condições para proteger bem um segredo como esse, enquanto for segredo – Na realidade, todos, menos Lopo, iam sair do Reino nos próximos meses em serviço do Estado. Sorrindo, Lopo foi a um canto buscar uma escultura feita em pedra policromada, um anjo com dois palmos de altura e com mais de três de envergadura das asas. Lopo afirmou:
– Este vai guardá-lo melhor do que nós.
13
Esta nave louca, movida pelas velas de tantas laudas, está prestes a arribar ao seu porto de destino. Falta agora já só apenas revelar-vos um pequeno e quase insignificante pormenor. Porque, em verdade, as coisas nem sempre, ou quase nunca, são aquilo que parecem ser e o que lhes falta para que fiquem completas e autênticas são, por vezes, pormenores.
Quando trouxe a escultura que Julião lhe levara ao castelejo, Lourenço perguntou a sua mãe que anjo era aquele. Há muitos anos Lopo trouxera-o para a consola da chaminé. Pequeno, durante o dia, com os seus três palmos de altura, transformava-se num gigante quando, à noite, num ritual que nunca fora interrompido, se acendia a vela que lhe ficava por trás, projectando-lhe a sombra alada na parede de taipa caiada de branco, fronteira à chaminé. A resposta de Matilde veio pronta:
– É São Miguel, meu filho – e acrescentou – O anjo do Apocalipse, o vencedor de Satanás, o arcanjo que protege a Igreja de Roma.
Lourenço, como todos os lisboetas, sabia-o. O santo era o orago de uma das freguesias de Lisboa, próxima da Sé. Acorreu-lhe a lembrança a misteriosa mensagem que Navarro pusera dentro do breviário hebraico – San Miguel – Examinou a imagem de pedra – vestes compridas de cor verde, um manto vermelho, grandes asas douradas, na mão direita uma balança de pesar virtudes e pecados, na esquerda, agarrado com firmeza, um bordão que acompanhava quase toda a altura da imagem. Um rosto jovem e sorridente, emoldurado por caracóis castanhos. Era pesado – cinco arráteis ou seis, talvez mesmo sete. Dado o seu volume, a imagem parecia ser mais pesada ainda. Depois de a ter examinado com atenção, voltou-a. A base, um quase círculo dos panejamentos da veste e da capa, era, à primeira vista, uma superfície lisa e branca. Demasiado branca no centro, notou. Como se ao meio houvesse outra matéria que não o calcário de que era feita a escultura. Com uma faca, raspou com cuidado, muito ao de leve. O material, gesso ao que parecia, começou a desfazer-se. Sempre com cautela, para não danificar a preciosa imagem, foi raspando. Uma camada de pouco mais de uma polegada de gesso foi cedendo, deixando uma grande abertura no centro da escultura. Metendo os dedos, Lourenço encontrou algo. Puxou. Saiu um troço compacto de papel, dobrado e enrolado. Desdobrando-o Lourenço viu, maravilhado um mapa-múndi, belo, resplandecente de cor. Quando escreveu San Miguel na folha que meteu entre as páginas do Talmude de Jerusalém, Navarro quisera-o informar de que o verdadeiro mapa estava dentro da escultura. Aquele mapa pelo qual tanto sangue correra, estava afinal em seu poder.
*
Até hoje, os mapas continuaram a fazer correr sangue e dinheiro. Entre estes casos, o mais exemplar é talvez o do planisfério português dito de Cantino, não porque assim se chamasse o autor, mas porque em 1502, o agente comercial e espia italiano Alberto Cantino o adquiriu em Lisboa para Ercole d’Este, duque de Ferrara. Falo neste mapa porque, apesar de anónimo, nele se fundem a tradição que vinha de Ptolomeu com a maneira oriental e mais científica que os árabes conferiram à arte, passando pela mais recente técnica dos portulanos para a qual os portugueses deram tão importante contributo. Nesta carta, abrangendo cerca de 275 graus do globo terrestre, se registam com apreciável rigor as distâncias que as navegações portuguesas permitiram calcular, substituindo as fantasias que povoavam as cartas por uma informação mais fiável e cientificamente apoiada. As velhas isbas surgem já convertidas em graus. Cada grau equivalia sensivelmente à medida de 17 léguas e meia utilizada pelos navegantes portugueses.
Nele aparecem também pela primeira vez desenhadas as linhas do equador e dos trópicos, implicando esta inovação o registo de latitudes, deixando de se utilizar o processo grosseiro e falível de fazer as localizações
através de rumos e distâncias, embora para o Mediterrâneo ainda se usasse
esse antigo sistema de medidas. Pela primeira vez a Europa e as costas de África surgem debuxadas com rigor e entre estes dois continentes, a Oeste da Europa e da África e a Leste da Ásia, é delineada a costa oriental de uma nova grande massa continental onde o sonhador almirante genovês imaginava ter encontrado as terras míticas de Kublai-Kan que o veneziano Marco Polo tão bem descrevera no livro datado de 1298, mas que entre nós
Planisfério dito «de Cantino».
só foi conhecido mais de um século depois, quando o douto infante D. Pedro, no regresso de uma sua viagem pela Europa, nos trouxe, no ano de 1428, um exemplar do Livro de Marco Polo. Onde Fra-Mauro e o seu auxiliar Andrea Bianco imaginavam, com hesitações e dúvidas, a presença de uma grande ilha ou continente, o anónimo asseverava-o já. Porém, foram as grandes viagens de Bartolomeu Dias, de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral que comprovaram que o anónimo que elaborou este planisfério não trabalhou às cegas. O mapa do Bisagudo terá sido a base do seu trabalho. Na realidade, o mapa de Cantino deveria talvez chamar-se planisfério de Lopo de Mateus. Talvez, porque tendo o meu pai entregue o mapa-múndi encontrado dentro do São Miguel ao conde de Cantanhede, o seu rasto se perdeu. Há quem diga que o grande terramoto de 1531 destruiu o arquivo em que se encontrava guardado. Não sei.
O expediente de falsear mapas para enganar inimigos, teve sequelas. Nas vésperas da viagem de Fernão de Magalhães, Lopo Homem, Pedro Reinel e seu filho Jorge Reinel, desenharam em 1519 um atlas magnificamente colorido e decorado com animais exóticos, camelos, alifantes, hipopótamos, vendo-se nele debuxada a costa oriental da Terra de Vera Cruz, com índios acarretando feixes de pau-brasil. Muito belo do ponto de vista artístico, mas enganoso como referência científica. Acreditando nele, parecia impossível transpor o novo continente para Oriente. O caminho para o Pacífico, para chegar às Índias, teria de ser feito pela conhecida Rota do Cabo. Magalhães provou que isto não era verdade, encontrando uma passagem no extremo Sul do continente recém-descoberto. Provou também que Colombo tinha razão quando queria atingir a Ásia navegando sempre para Ocidente – só calculou mal as distâncias, sendo surpreendido com um continente que se meteu de permeio. Ora, o erro dos reputados debuxantes foi tudo menos inocente. O atlas, encomendado por el-rei D. Manuel talvez para o oferecer ao papa Leão X, ou ao imperador Carlos V, ou ainda à sua jovem esposa castelhana D. Leonor, foi manobra de intoxicação – fosse a quem fosse feita a oferta, o mapa circularia por mãos estrangeiras e chegaria, ao menos em cópia, às mãos dos enculcas de Castela. Talvez a «evidência» de que existia uma barreira entre a Europa e a Ásia, entre o Atlântico e o Pacífico, dissuadisse Castela de investir na expedição de Magalhães. Quase trinta anos depois de o velho mapa do Bisagudo ter sido útil na assinatura do Tratado de Tordesilhas, tentou-se o mesmo passe de mágica. Desta vez, sem sucesso.
Sentado na cátedra da sala ou no escano de espaldar junto ao fogo da chaminé o meu pai descrevia suas aventuras. Minha mãe bordava. Raramente sorria. A grande matança da Páscoa de 1506 que tantos familiares lhe levara, deixara nela um permanente rasto de amargura. José, embora atento, balouçava-se num pequeno banco de madeira, caindo não poucas vezes. As sombras projectadas pelas labaredas nas paredes da cozinha transformavam-se, na minha juvenil imaginação, em sicários, em alabardeiros, em monstros marinhos, marinheiros… Desde criança que me habituei a ouvir estas narrativas – o mapa secreto, a missão junto do papa Alexandre VI, a batalha de Diu… Porém, a aventura do mapa ficou-me particularmente na memória. Meu pai, de cada vez que a contava, omitia uns pormenores e acrescentava outros. Por vezes começava no princípio e acabava no fim, outras, detinha-se num aspecto parcial. Suponho que por minha mãe ser uma das suas atentas ouvintes, terá omitido pormenores, sobretudo acerca dos seus amores com Elisabetta. Trabalhei com o material de que dispunha e bastas vezes me vi forçado a recorrer a imaginação para preencher vazios no fio da narrativa. Só o conjunto desses relatos, feitos na casa de Alfama, à beira da Judiaria, me permitiu completar este conto sobre o mapa do Bisagudo. Vamos lá então rematar a história.

Epílogo

Vejamos o que aconteceu a algumas das personagens desta história. Começo por Pêro Vaz da Cunha.            No ano de 1489, el-rei encarregou-o do comando de uma armada de vinte caravelas que partiu do Reino em auxílio a um régulo senegalês, D. João Bemoim, cuja autoridade local era contestada por adversários políticos. A necessidade do rei de Portugal em estar de boas relações com os régulos africanos, assentava na esperança de obter informações úteis sobre o mítico Preste João. Vaz da Cunha tinha ainda como missão construir uma fortaleza no território, assumindo a sua capitania logo que a construção dessa fortificação estivesse acabada. No entanto, alegando ter tido conhecimento da iminência de uma traição por parte do régulo, o Bisagudo apunhalou-o, matando-o. Quando regressou a Lisboa, teve grande dificuldade em explicar as razões para a sua decisão, sendo por isso afastado de futuras empresas. Porém, el-rei, retirando-lhe a confiança política, manteve, até ao fim dos seus dias, a amizade que há muitos anos os unia.
            Quanto ao doge Agostino Barbarigo, um escândalo eclodiu em 1 de Agosto de 1491. O chefe do Conselho dos Dez, o até então influente Benedetto Pesaro, fora acusado de abuso da autoridade em proveito próprio. As provas eram demasiadas para serem ignoradas. Pesando os prós e os contras de sancionar o crime ou de o deixar impune, Barbarigo, que, segundo era voz corrente, muito devia a Pesaro, seu cúmplice em obscuros tratos, usando, desta vez, a sua púrpura ducal de forma incorrupta, lavou as suas mãos, deixou cair o amigo, condenando o magistrado, embora houvesse quem comentasse o muito que os anteriores «abusos de autoridade» de Pesaro o teriam beneficiado. À custa do sacrifício de um amigo e cúmplice conseguira melhorar a ideia que dele se fazia. Em Veneza, tudo se compra, tudo se vende, quase tudo se paga e a amizade também não escapa a esse mercado. Em todo o caso, não lhe saíra muito caro este negócio… Em suma: o seu dogado, apesar da imagem de impoluta honestidade e de grande transparência que sempre quis transmitir aos coevos e deixar aos vindouros, ia sendo manchado por escândalos e ínvias manobras de corrupção. Mas os pratos da balança oscilavam sempre – era corrupto, mas era lesto nos negócios que fazia. E se tirava proveito pessoal desses negócios, a República ganhava também com eles. Tinha defensores e detractores. Morreu em 20 de Setembro de 1501, com a idade de 81 anos.
Sobre João Dulmo, pouco se soube depois, a não ser que, pouco antes da viragem do século, casara e fora viver para a ilha Terceira, de cujas quatro ribeiras seu irmão Fernão era capitão. Por uma outra carta recebida, soube-se ainda que tinha uma ninhada de pequenos flamengos. Nunca o cheguei a conhecer. Diogo Mendo, que, tal como Lourenço, foi subindo na carreira militar, vinha por vezes visitar-nos e bem me lembro da sua avultada figura e da alegria com que participava nas narrativas de meu pai, confirmando no essencial as suas versões e ajudando-o por vezes a lembrar pormenores, divergindo outras vezes, com a teimosia própria dos velhos, em questões de menor importância. Mas mantiveram-se sempre muito amigos até que Mendo, partindo deste mundo, alguns anos antes de meu pai, por seu turno, nos ter deixado.
Quanto aos sábios que reuniam na oficina de Lopo, Martinho da Boémia, que com os mestres José Vizinho e Rodrigo trabalharam com Abraão Zacuto no aperfeiçoamento do astrolábio, fez com eles parte da expedição de Diogo Cão à Guiné. Em 1486, fixou-se no Faial, onde casou com Joana de Macedo, filha do capitão-donatário da ilha. Em 1490 viajou para a sua Nuremberga natal, aí ficando até 1493, terminando o seu globo terrestre. Regressou depois ao Faial, passando por Lisboa, ali vivendo até 1506. Veio a Lisboa em negócios, onde viria a morrer em Julho de 1507. o Mestre José Vizinho naquele mesmo ano de 1485 foi por el-rei enviado à Guiné, acompanhado pelo Mestre Rodrigo, onde procederam a observações que permitiram aperfeiçoar o astrolábio, instrumento indispensável aos navegadores. Médico da corte, acompanhou el-rei D. João II na sua viagem para o Alvor, onde o monarca morreria em 25 de Outubro de 1495. Com estes sábios e com Abraão Zacuto, o mais sábio, o conhecimento geográfico abandonava o empirismo da Idade Velha e entrava na Idade Nova.
El-rei D. João que desde há seis anos ocupava o trono, pusera muito e fero tento na gula dos fidalgos e tolhera as mãos dos que, em tempos de seu pai roubavam vilões e camponeses. E, por vezes, cortou as mãos que se não encolheram a tempo dentro de suas bolsas e as cabeças que, enfadadas com as medidas tomadas pelo rei, conjuraram contra a justiça real ou de tal foram, por vezes, injustamente, acusadas. 1491, foi o ano da morte do infante D. Afonso. Em Julho, oito meses depois do casamento com a filha dos reis Católicos, a princesa que, como sua mãe, se chamava Isabel, o príncipe morria de uma queda do cavalo, durante um passeio pelas margens do Tejo, em Santarém. Todo o projecto da hegemonia lusitana sobre as Espanhas, caiu por terra. Internamente, os ódios da nobreza espoliada são uma fogueira inextinguível. Logo a seguir às bodas do príncipe, começou a manifestar-se uma estranha enfermidade no rei. A princípio foram apenas «acidentes e desmaios», até que, em meados de 1495, a doença se agravou. O aspecto esbelto de el-rei vai convertendo-se num corpo balofo e disforme. Foram quatro anos de luta entre a doença e a vontade férrea do monarca. Muitos, suspeitam de envenenamento. Ao pôr-do-sol de 25 de Outubro de 1495, com quarenta anos, morre no Alvor el-rei D. João, o segundo deste nome.
 
É com pena e também com alívio que chego ao fim desta tarefa que cumpri com algum rigor e rara disciplina, apesar do meu feitio indisciplinado. Não sei se terei ânimo e me será concedido tempo para contar outras das aventuras de meu pai. Porém, o facto de ter conseguido chegar ao fim desta e poder pousar a pena e pedir amanhã que me cosam as folhas in-quarto em que escrevi, olhando da janela a magnífica nave branca que é Lisboa, me dá uma profunda satisfação e o sentimento de que cumpri a minha missão neste mundo que não podia ser apenas o de ter passado a juventude a escrever atestados e certidões e a idade mais madura a plantar favas, feijões e alfaces. Os dois corvos negros, um alapado à proa, outro à ré, vigiam codiciosamente a nave de loucos que é a cidade e o desvairado mundo em que vivemos. Sinto o seu adejar sob o manto vermelho do céu. Um derradeiro raio de sol, incide sobre a lombada de ouro do Livro do Esplendor, o Sefer ha- Zohar (o prior torceu o nariz antes de admitir esta obra fundamental da Cabala na minha estante, mas o seu conteúdo é tão hermético que, tal hermetismo, o converte em obra inocente. A mancha de sangue que suja a capa e as primeiras páginas, intrigou-o, mas lá acabou por autorizar que o conservasse na cela). Às vezes sinto um grande cansaço, uma grande saturação pelo isolamento em que vivo, eu, um impenitente tagarela. Tranquiliza-me a conclusão a que uma monja chegou – «na vida monástica, o que custa mais são os primeiros cinquenta anos!».
 A noite cai lentamente e os meus olhos já não me permitem que escreva à luz das velas. O meu gomil de Talavera, herança de minha tia-avó Maria Beatriz, concede-me generosamente mais um gole de água pura e fresca. Vou terminar. Os sinos há muito que tocaram para a última oração do dia, antes de todos os frades recolherem às celas, as ave-marias, também chamadas trindades ou, ainda, completas.
Faltei à oração, mas o prior e os irmãos perdoam-me, pois há muito que me atribuíram um estatuto de insanidade, o que só me favorece, pois não há maior peso, nem fardo mais difícil de suportar, do que o de ser assisado. Irei ao refeitório comer a ceia e serei bem acolhido, pois julgo que apesar de se rirem à socapa das minhas fantasias e das palavras sem nexo que, por vezes, lanço para a mesa, a meio de uma colherada de sopa, só para não perder os meus direitos de taralhouco tão duramente adquiridos, me estimam e me verão partir com pesar. Pesar que não será demasiado em todo o caso. Porque não tenho, como vejo outros acalentar, vãs ilusões de que a minha morte signifique seja o que for para a vida do convento, da cidade, do Reino e do Mundo. Nada mudará. Depois de eu partir, tudo continuará como antes – os mercadores a mercadejar, os lavradores a semear e a colher, os frades a rezar, os ladrões a roubar, os guerreiros a guerrear, as mancebas a vender o corpo, os poderosos a cevar-se impunemente sobre a carne dos humildes, os navios a fazer-se ao mar… Nada mudará. Enquanto a minha carne se muda em pó, a nave dos loucos seguirá a sua transviada rota. Cá por mim, cheguei ao fim desta viagem. A vossa, meus amigos, é convosco – cada um é capitão na sua barca.
            E por aqui me quedo.
 

2 comments

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Cada qual queda-se como pode e sabe. Eu quedo-me de admiração. Terás de explicar-me qual a razão desta obra maravilhosa – uma peça da melhor literatura nacional – não ser um livro. Abraço amigo do CLV.

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  2. Obrigado pelas tuas palavras, Caro Leça da Veiga,
    Publiquei apenas o rascunho de uma série – 4 ou 5 livros «policiais» em que, por ordem de João II, um agente português (um anadel) percorre várias cidades -Lisboa, Veneza, Granada em busca de um mapa essencial para Portugal e para Castela e Leão .na perspectiva da assinatura de um Tratado. O mapa, assinalando a existência de uma gigantesca ilha ou grande massa continental entre a Europa e a ´´Asia, datado de meados do século XV existiu mesmo,l-o mapa de Pero Vaz «o Bisagudo», A espionagem era intensa e o período favorável a uma trama dinâmica . só um pormenor; o papa Alexandre VI, era um Borja (ou Bórgia), pai de César e Lucrécia. Ér uma obra europeísta (no sentido nobre) – Grande poesia, grande pintura e, no pequeno Portugal, um avanço da ciência náutica resultante da concentração aqui dos grandes cientistas venezianos, genoveses, árabes, catalães, castelhanos, portugueses… um grande poder naval e umaa bula papal que dava às naves portuguesas e castelhanas o poder de interditar qualquer barco, fosse qual fosse o pavilhão, a chamada politica do mare clausum, remetia as potências até então importantes, para situações humilhantes – Castela e Portugal praticaram aquilo a que hoje chamamos «terrorismo de Estado».
    Em suma, não há bons nem maus – há interesses, A família Ulrich, os do BPI, instalaram-se aqui nessa altura e patrocinaram empreendimentos de vulto,

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