Que fazer: escolher Macron, escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher? Texto 1 – 1981-2017: socialistas, uma breve história do que aconteceu. De mal a pior – por Gérard Blua

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 1 – 1981-2017: socialistas, uma breve história do que aconteceu. De mal a pior.

Por Gérard Blua, escritor e editor.

Revista Causeur, em 9 de abril de 2017

França Que fazer escolher Macron escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher Texto 1 1981_2017 socialistas, uma breve história do que aconteceu

François Hollande ao lado de um cartaz de campanha de Mitterrand no quartel-geral de Rennes, Abril de 2012. SIPA. 00635117_000001

Quando em 1993 o reino do primeiro presidente socialista da 5ª República francesa, François Mitterrand, estava em extrema dificuldade (governança conduzida desde 1981 nos escuros labirintos de uma ideologia estruturalmente incoerente que, enfim, não tinha senão um só objetivo: conservar o poder contra ventos e marés para camuflar, por detrás de uma vitória à Pirro, a ausência de lógica e de homogeneidade da sua visão pseudo-esquerda da sociedade), o que é que restava das suas promessas feitas na campanha presidencial senão a teatralidade da rosa vermelha entrada no Panteão pela mão do candidato vencedor?

A encenação desta marcha grotesca, decalcada sobre a entrada do general de Gaulle em Paris em Agosto de 1944, transformou a História em espetáculo de feira. Já o Capitão Fracasso ocupava o Eliseu. Porque tinha já passado muito tempo que o novo homem da esquerda, que tinha passado pela ordem da Francisque[1], sonhava em ser o homem que seria simultaneamente amado e odiado! Um Charles de Gaulle, mas em ponto pequeno. Um de Gaulle, este adversário de sempre, de coragem de bronze, que o decorrer de uma vida sem manchas tinha revestido de uma luz nacional inalterável por ter libertado a França dos seus dois ocupantes: o do exterior e o do interior, Hitler e Pétain. Mas François Mitterrand, libertador de quê? Da finança? Do suposto poder da burguesia? Da tutela americana? De uma justiça às ordens dos políticos? Dos escândalos ao mais alto nível do Estado? Vamos lá, em tudo isso ele foi permanentemente um mestre. Libertador? Da extrema-direita, então? Mas como não? A extrema-direita era até então totalmente inexistente e ninguém ignora que a Frente Nacional lhe deve tudo. A falência da França, o esmagamento do Partido Comunista, a proporcionalidade – um presente inestimável – atiraram o voto da classe trabalhadora para os braços de Jean-Marie Le Pen. Última hipocrisia de um político envelhecido e desgastado a não poder já esconder-se por detrás de qualquer imagem idealizada de uma esquerda mais envelhecida  e mais gasta ainda do que ele próprio. Surge então o balanço sem concessões do que foi chamado na época, “a experiência socialista”, expressão terrível para aqueles que acreditaram votar ” numa mudança socialista”. Enganados desde o início. Toda esta confusão não foi outra coisa senão um balão de ensaio. Uma simples tentativa. Uma improvisação ideológica. Eis-nos para o que nos tinha convidado François Mitterrand, ao som do rufar de muitos tambores e tiradas líricas assinadas Rouget de Lisle. Artifícios grosseiros elegantemente arrumados na caixa de ferramentas do Partido Socialista.

O Ocidente, em 1989, tinha dançado sobre as ruínas do muro de Berlim mas, para uma extrema-esquerda, certas práticas soviéticas apareciam então solúveis na nossa democracia. Designadamente, criar um novo ensino que tenha abandonado os fundamentais dos hussardos negros, os professores da IIIª República, para difundirem desavergonhadamente as suas falsas verdades, primeiramente nas crianças da primária. Maleáveis. Ingénuos. Submissos. Mas também disporem o mais possível de meios de comunicação social. E ainda abrir a sociedade como um todo à mediocracia, a da televisão de Berlusconi (a Cinq estava então neste caso) ou então à informação permanente, a dos rádios livres tendo como missão dar vida ao que se pode considerar do mais vil que existe, uma história de trazer a sociedade francesa para as suas origens latinas: panem et circenses ( pão e jogos, sobretudo nada de inteligência nem de consciência). É assim que o cidadão, a qualquer hora do dia e da noite, recebe devotamente o espírito santo do poder que está em funções, em frases curtas, em evangelhos laicos formatados. E o cidadão assim aliviado pode deixar-se dormir envolto nos tecidos do novo saber esquemático. Com, além disso, sondagens de todas as espécies vindas de todos os lados que lhe ensinam, sem que seja necessário o mínimo de esforço de reflexão, o que deve pensar e, por conseguinte, o que daí decorre: as suas opiniões sobre tudo, as suas decisões no dia-a-dia, o seu encaminhamento político. O seu voto “útil”. Mas em quem? É isso a democracia? Os Gregos antigos, eles, bem mais precisos, chamavam a isto sofisma. E é a François Mitterrand, grande especialista da retórica e da mentira dos olhos nos olhos, que se deve o ter‑se  lançado esta terrível modificação dos comportamentos populares. Panurge retomava o serviço. Então, à frente do seu tempo, o primeiro presidente socialista da 5ª República? Não, claramente, mas um bom trabalhador “de uma causa do povo” a querer destruir até às suas fundações, uma sociedade – a nossa – no âmbito “de uma revolução permanente” – a sua. Não há pior retrocesso que os velhos micróbios que reabrem as feridas eternas e lhes dão as cores com que sempre sonharam.

Dezassete anos depois da dissolução do socialismo na sombra do seu Grande Referente, a sociedade francesa, destruída a partir do seu interior pelos seus mitos humanitários vindos do humanismo das Luzes, inventou repentinamente um conceito completamente inédito: a eleição por defeito. Isto não significa votar num candidato a cujas ideias nós aderimos, significa, isso sim, votar contra quem se goste menos e a favor seja de quem quer que seja. Com uma figura de estilo de boa retórica a ajudar, a anáfora, é assim que o Secretário-geral do Partido Socialista, François Hollande, se tornou o presidente de todos os franceses sem o ter verdadeiramente procurado. Desde então, é François, o Pequeno, como certamente lhe teria chamado Victor Hugo, que pode assumir o controlo de um Estado para quem desde nunca se passou uma carta de condução em seu nome. E depois de um desastre ambiental sem precedentes, a França viu-se perante uma constante inundação política. Ao longo dos meses, ofegante, a França retinha a sua respiração para escrutinar o Zuavo do Palácio do Eliseu, a famosa medida-padrão dos grandes naufrágios nacionais. A monarquia, muito difamada, tinha-nos dado os Merovíngios e os Capetos. Aqui e agora vivemos na magnífica República dos batráquios! Doravante: Mergitur nec Fluctuat[2]. Quando a mais pequena bicicleta aquática se tornou num submarino, a sua liderança tornou-se num catavento. O declínio intelectual da esquerda francesa, incapaz de tomar uma só decisão que seja coerente com a anterior, à imagem do seu Líder Mínimo, o único presidente da Quinta República que renuncia a disputar um segundo mandato. No fundo do buraco. Um longo caminho de mentiras. Aí, onde a cacofonia monstruosa já deixou de ser capaz de reivindicar Mozart no triste jogo das cadeiras musicais, uma vez que todos, todos os instrumentos estão desafinados e em que também já não há maestro da orquestra. François Hollande interroga-se, ao que parece, sobre o lugar que vai ocupar na História. Nenhuma dúvida sobre esta questão, pela parte que me diz respeito: só poderá ser o lugar  de Belphegor[3], o Fantasma do Eliseu[4]. Condenado a vaguear no limbo do Castelo!

 

Gérard Blua, Revista Causeur, 1981-2017: socialistes, une brève histoire de l’avenu- De Charybde en Scylla

http://www.causeur.fr/parti-socialiste-mitterrand-hollande-presidentielle-43651.html

[1] Nota de Tradutor. Trata-se de uma condecoração atribuída pelo regime de Vichy

[2] Nota de Tradutor. Divisa da cidade de Paris e significa mais ou menos isto : o barco é batido pelas vagas mas não se afunda.

[3] Nota de Tradutor. Segundo Wikipédia: Belphegor ou Belfegor (“o senhor do fogo”), divindade moabita venerada no monte Fegor. Demônio da preguiça, das descobertas, do apodrecimento, dos inventos e do ciclo. Era cultuado na antiga Palestina na forma de uma figura alta e barbuda com a boca aberta, tendo por língua um gigantesco falo. O sabá dos feiticeiros da Idade Média não foram senão uma repetição, herança das festas de Belfegor. Belphegor é um dos sete princípes que governam o Inferno, sendo a personificação do primeiro pecado, a preguiça.

[4] Nota de Tradutor. Referência à obra de Philippe Dessertine, Le Fantôme de l’Elysée, editada por Albin Michel, Paris, 2015.

One comment

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Com amigos destes que poderíamos esperar do Advogado Soares.CLV

    Gostar

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