CARTA DO RIO – 152 por Rachel Gutiérrez

Nossa crise política é tão grave e dramática que ninguém mais pode se dar ao luxo de ignorá-la. Às revelações vergonhosas e avassaladoras dos marqueteiros de Dilma e Lula, que a mídia não cessava de divulgar nos últimos dias, um furo jornalístico do Globo online acrescentou a gravação do presidente Temer em conversa por demais comprometedora, com um empresário alvo de cinco operações da Polícia Federal, “que investigam pagamento milionário de propinas a agentes públicos.”

Como escreveu Rosiska Darcy de Oliveira, em seu artigo de sábado: “Não fosse o nível rasteiro do que está em jogo – roubalheira e mentiras – a morte política de personagens centrais dos últimos governos lembraria o desfecho das tragédias.”

E é tão doloroso escrever sobre isso que após ter resistido por várias semanas, continuo a me sentir bastante impotente ao tentar fazê-lo agora. Seja! Para começar cito a notícia tal como foi veiculada pelo blog petista DCM (Diário do Centro do Mundo):

“Na tarde de quarta-feira passada, Joesley Batista e o seu irmão Wesley entraram apressados no STF e seguiram direto para o gabinete do ministro Edson Fachin. Os donos da JBS, a maior produtora de proteína animal do planeta, estavam acompanhados de mais cinco pessoas, todas da empresa. Foram lá para o ato final de uma bomba atômica que explodirá sobre o país — a delação premiada que fizeram, com poder de destruição igual ou maior que a da Odebrecht.

Diante de Fachin, a quem cabe homologar a delação, os sete presentes ao encontro confirmaram: tudo o que contaram à Procuradoria-Geral da República em abril foi por livre e espontânea vontade, sem coação.”

Em outras mídias, notícias ligadas aos empresários da JBS chamaram também a atenção sobre  “uma movimentação atípica no mercado de câmbio na quarta-feira (que) trouxe uma desconfiança no mercado de que a companhia teria aumentado sua posição em dólar. Isso teria levado a companhia a lucrar com a alta do dólar no dia seguinte. A cotação da moeda disparou 8,15%, na maior alta diária em 18 meses.”

A companhia, porém, apressou-se em esclarecer o fato, afirmando que a JBS “gerencia de forma minuciosa e diária a sua exposição cambial e de commodities”. E também explicou que utiliza instrumentos financeiros para “minimizar os seus riscos cambiais e de commodities provenientes de sua dívida, recebíveis em dólar e de suas operações”. Ao que tudo indica, a compra de dólar na véspera do  vazamento dos áudios, da delação premiada da JBS, teria levado a empresa a obter imensos ganhos financeiros, o que é de uma sordidez estarrecedora.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) viu-se obrigada a instaurar 3 processos administrativos em uma semana, para investigar o frigorífico JBS. Só nos resta, portanto, aguardar os resultados.

Merval Pereira fez esta outra observação relevante em seu artigo de domingo:

“Os crimes que cometeram foram anistiados pela gravidade da delação feita, mas parece claro que houve uma condescendência excessiva com eles, que precisa ser revista.”

Não há dúvida de que suas delações são devastadoras: vão desde a utilização de caixa 2 nas campanhas de Lula e Dilma e a denúncia de que tanto Dilma quanto Lula possuíam contas no exterior, administradas pelos Batista, quanto provas de doações ou propinas, que  atingem 28 partidos e cerca de dois mil políticos!

(Registrado no TSE: “As empresas J&F, lideradas pela JBS, financiaram quase um terço dos parlamentares da Câmara dos Deputados e distribuíram recordes R$ 387 milhões em ações nas eleições de 2014, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.”)

E sabemos muito bem que a cada “doação”, ou propina, corresponderam favores, facilitações, todo tipo de “malfeitos” como diria Dilma Rousseff.

Como foi que eles se tornaram tão poderosos a ponto de praticamente terem governado o Brasil até agora? Observa Fernando Gabeira: “Nos dias anteriores ao escândalo da JBS, a presidente do BNDES ainda achava estranhas as notícias de corrupção no banco e anunciava que iria apurar as irregularidades na gestão anterior”. Precisamos esclarecer, com urgência, portanto, o papel do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico) nas facilidades que permitiram aos irmãos Batista seu vertiginoso enriquecimento. E o consequente aumento do poder que o dinheiro e a corrupção propiciam.

Empresários criminosos, mafiosos, perigosos chefões não podem ser recebidos na calada da noite pelo presidente da República.

Em plena crise que se alonga e paralisa a nação, Temer diz que não renunciará. Seus dias, no entanto, parecem contados. No caso de sua deposição, nossa Carta Magna prevê eleições indiretas.

Cito, para terminar, duas valorosas mulheres: a escritora Rosiska Darcy de Oliveira  e a  jornalista Dorrit Harazim. Escreveu a primeira:

“Não somos um país de corruptos, somos um país em que, durante décadas, os governantes se venderam e nos venderam a umas poucas gigantescas empresas que, na sombra, governavam, pervertiam o Estado e a política, cresciam como parasitas, sugando os recursos públicos. A essa devastação, sobrevivemos. O Brasil é maior do que a crise, essa é a maior certeza.”

Escreveu a segunda:

“Oportunidades para começar não faltam, e seria bom começar logo. Antes que o país se confunda com a ‘Ópera dos três vinténs’, sátira de Brecht e Kurt Weil, na qual ‘o homem, para sobreviver, tem de suprimir a humanidade e explorar seu semelhante’.”

 

One comment

  1. Vamos a ver se não sucede como, muitas vezes, por cá. Será que para os poderosos, assessorados por advogados/escritórios de advogados, pagos a peso de ouro, através da utilização de recurso atrás de recurso (1ª. instância, Relação, Supremo, Constitucional), e de outros ‘truques’, ‘protegidos’ como estão pela quase lendária lentidão da justiça, com especial ênfase para os casos de corrupção de colarinho branco, os seus processos não se encaminham inelutavelmente para a prescrição? E quanto à penhora de bens, para o pagamento das suas responsabilidades, é do tipo faz de conta.?

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