EM MEMÓRIA DE ARMANDO SILVA CARVALHO (1938-2017)- por Manuel Simões

(1938 – 2017)

 

 

(Ao Armando, um dos grandes poetas portugueses, em jeito de homenagem)

 

Acaba de nos deixar o escritor Armando Silva Carvalho, uma das vozes mais importantes da poesia portuguesa contemporânea. O seu livro de estreia, Lírica Consumível (1965, Prémio Revelação), já então evidenciava o recurso à estética da ironia através de uma gramática corrosiva, característica que percorre uma larga e reconhecida produção poética. Marco significativo desse itinerário é sem dúvida o livro Sentimento dum Acidental (1981), a recordar o conhecido poema de Cesário Verde (“Sentimento dum Ocidental”), e onde se afina um processo experimentado em O Comércio dos Nervos (1968) ou Os Ovos d’Oiro (1969), de acentuada matriz satírica.

 

Na sua obra poética (e até na ficção) há uma referência constante ao sagrado, o qual conhece, através da ironia ou do sarcasmo, a dessacralização visível em Alexandre Bissexto (1983), Canis Dei (1995) e até nos textos mais recentes como em Antero, Areia & Água (2010) ou mesmo em De Amore (2012), para se afirmar em A Sombra do Mar, o seu último livro (2015), largamente premiado. Basta ver o poema “A água”, com o recurso à estética da abjecção, outra das categorias mais frequentes da sua poética: «Nas mãos dos deuses/ se coloca a estrita criatura que professa a água./ Há um rancor que se solta da prosa/ e da sanita./ A pobreza do corpo e o seu alívio são o sermão da montanha,/ o rato ridículo do seu pequeno mundo». Mas as ramificações do sagrado já se manifestavam em Canis Dei, sempre veiculadas pela veia satírica: «Não sei que nome dar à violência/ quando Deus embarca nos seus vasos de guerra»; ou ainda: «Deus/ palavra mínima que dá/ para tanta coisa».

 

Da sua obra em prosa ficcional, destaca-se  a originalidade de Portuguex (1977), que Eduardo Lourenço classificou como subversão da mitologia cultural lusíada; ou O Homem que Sabia a Mar (2001, Prémio Fernando Namora), para além do romance epistolar O Livro do Meio (2006), escrito em colaboração com Maria Velho da Costa.

 

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