CARTA DO RIO – 157 por Rachel Gutiérrez

Hoje quero falar de um ser humano excepcional, que se tornou notícia nos últimos dias. Trata-se de um gari (varredor de rua) de São Paulo, um trabalhador de 47 anos que, por iniciativa própria, tornou-se um benfeitor dos dependentes químicos da Cracolândia, região onde se reúnem as pessoas mais degradadas e desamparadas que possamos imaginar.

A Cracolândia (palavra derivada da droga Crack) é a denominação popular para uma área central da cidade de São Paulo, situada no bairro de Santa Efigênia, onde se desenvolveu intenso tráfico de drogas e meretrício.

Vários programas de governo tentaram sem sucesso, como é sabido, combater as drogas e tratar dos usuários.  Em 2007, a Prefeitura lançou um programa denominado Nova Luz, aparentemente mais preocupado com a recuperação dos imóveis do que com os seres humanos dependentes químicos; em 2013, o governo do Estado gastou cerca de 80 milhões de reais num programa de nome Recomeço; em 2014, sendo prefeito o petista Fernando Haddad, mais um programa social foi criado com o nome de Braços Abertos, que durou até 2017,  (e daqui em diante , reproduzo o que diz o Google ):  com um custo anual de 12 milhões de reais, correspondendo a um investimento por usuário atendido da ordem de R$1350,00.  Esse programa foi baseado na estratégia de redução de danos e reintegração do dependente à sociedade tirando ele da situação de morador de rua dando a possibilidade dele exercer atividade remunerada. Durante a sua vigência, os participantes do programa tinham garantidos moradia paga nos hotéis baratos da região central e trabalho na varrição de ruas, ganhando quinze reais diários. O programa teve bastante sucesso, reconhecimento nacional e internacional, não obstante seu fim efetivo em maio de 2017. Críticos ao programa alegaram, baseados em pesquisas de campo, que a prefeitura apenas doava dinheiro e espaço para que os drogados continuassem na região consumindo mais drogas e alimentando o tráfico. Não havia obrigação da contrapartida dos atendidos em realmente trabalharem em varrição para receber a “mesada” oficial. Cortiços e casebres se transformaram rapidamente em hotéis inscritos no programa sem ter qualquer fiscalização de instalações e nem mesmo alvará. A Polícia Militar do Estado de São Paulo reportou tráfico ligado a facções criminosas em praticamente todos os hotéis e pensões conveniados. O Ministério Público do Estado de São Paulo chegou a abrir um inquérito para apurar as denúncias de alimentação do crime organizado com dinheiro público.

Recentemente, um novo programa batizado de Redenção foi inaugurado pelo prefeito João Dória, que ousou afirmar que a Cracolândia

         – Não volta mais, não volta mais. Pode afirmar, pode duvidar, mas pode ter certeza, enquanto eu for prefeito de São Paulo, a Cracolândia não vai mais existir. Ali, a partir de agora, é um espaço reconquistado pela cidade, pela cidadania e pelos habitantes que poderão circular com segurança.

 

Infelizmente, o programa que previa a internação compulsória dos dependentes químicos, com apenas uma avaliação médica, o que é desaconselhado pela maioria dos psiquiatras e terapeutas, provocou uma disputa jurídica, protestos de grupos defensores de Direitos Humanos e os usuários das drogas apenas trocaram de endereço. Desalojados da antiga Cracolândia, acabaram por se fixar na Praça Princesa Isabel, a poucas quadras do local original (na Rua Helvétia).

E os viciados em crack parecem continuar tão desamparados quanto antes.

E é aí que surge a figura extraordinária do gari José Carlos Rodrigo de Matos, que percorre um longo caminho para ajudar os que considera “irmãos”, da Cracolândia.  Ele que é varredor de rua em São Paulo , mas mora em Embu, distante 30 quilômetros da capital, usa três linhas de ônibus para lá chegar, pois não tem carro, nem moto, nem bicicleta. Leva pão e água para distribuir.

Lê-se na reportagem do cotidiano UOL online:  

Até a operação pela remoção do fluxo na região, dia 21 de maio passado, ele ia às quintas e sábados. Com a transferência à praça, passou a ir todo dia…. – Na quinta (22), pão com manteiga foi substituído pelo pão com goiabada. Alimento, assim como água em galões, é fruto de doações… –

 José Carlos explica:

– São sempre as mesmas pessoas que ajudam com as doações de pão e água. É um caminho longo até chegar aos irmãos da cracolândia, mas é um caminho que vale a pena –a generosidade é algo que sempre vale a pena a quem pratica e a quem recebe.

 Ganhou o apelido de “Pastor”, nesses 12 meses em que tem se dedicado a levar água potável e pão aos dependentes químicos da Cracolândia.

Ele então explica:

Não sou evangélico, sou católico, mas sempre trago uma palavra da Bíblia para eles”,  com o livro debaixo do braço….

Continua a reportagem:

Organizada, a ponta da fila apresenta um homem pardo, de chinelo, roupas simples, boné surrado e a voz forte que grita, entre uma palavra e outra de conforto a quem se dirige a ele, um “olha o pão! Olha a água, irmão!”

Quando temos os políticos que temos, é bom saber que o povo ainda produz cidadãos exemplares como o gari José Carlos Rodrigo de Matos.

 

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