Mais além dos truques das estatísticas….o exemplo de Espanha – Assim te manipulou a TVE desde que o Partido Popular chegou ao Governo em 2011 (III). Por Alejandro Torrús

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Seleção e tradução de Francisco Tavares

Mais além dos truques das estatísticas….o exemplo de Espanha – Assim te manipulou a TVE desde que o Partido Popular chegou ao Governo em 2011 (III).

Por Alejandro Torrús, jornalista e politólogo

Publico.es, 15 de fevereiro de 2017

(continuação)

Podemos, um partido de corruptos e arrivistas [segundo os media dominantes]

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Pablo Iglesias durante a sua entrevista no canal 24 horas

A conclusão que dá título a esta parte, que Podemos é um partido de corruptos e arrivistas, é a conclusão a que pode chegar qualquer espetador cuja principal fonte de informação sejam os telejornais da TVE. O tratamento dado pela RTVE a Podemos, desde o seu nascimento em 2014, foi denunciado em várias ocasiões tanto pelo Conselho de Informação da casa, como pelo próprio partido que fez chegar queixas ao Defensor do Telespetador da RTVE pela “distorção” na informação sobre o processo de primárias em Madrid em que acabou por ganhar o senador Ramón Espinar.

De facto, a primeira aparição de Podemos num cenário eleitoral na TVE esteve já salpicada de polémica. Durante a noite das eleições europeias, em maio de 2014, a TVE 1 deu prioridade à celebração da Taça dos Campeões europeus pelo Real Madrid. Segundo a denúncia do conselho de Informação, o papel de Podemos foi mal avaliado, não tendo havido reportagem em direto, e a ordenação e a duração das ligações não correspondiam ao interesse informativo. 

A partir deste dia, e à medida que Podemos foi avançando nas sondagens foi desaparecendo dos telejornais. Na semana seguinte às eleições europeias, a presença de Podemos em todos os noticiários da TVE, reduziu-se a 3 minutos e 16 segundos no total. Pablo Iglesias, líder do partido, teve que esperar até 5 de dezembro desse ano para ser entrevistado. Não ocorreu em nenhum dos programas de referência da televisão pública senão no La Noche en 24 do Canal de 24 horas. Essa noite deu-se a famosa pregunta, quase afirmação, de Sergio Marin na qual dava os “parabéns” ao líder de Podemos pela saída da prisão de presos etarras. 

À medida que os meses foram avançando a situação não melhorou. Por exemplo, no TJ2 do dia 9 de dezembro, apenas 11 dias antes das eleições de 20 de dezembro, o Telejornal decide falar da ‘Operación Menina’, um suposto acordo segundo o qual Ciudadanos apoiaria a continuação do PP no Governo desde que Soraya Sáenz de Santamaría fosse a presidente do Executivo e não Mariano Rajoy. Todavia, chama a atenção que a informação transmitida pelo Telejornal sobre esta suposta operação sejam uns breves da vice-presidente na RNE nos quais qualifica  Pablo Iglesias de “machista” e de usar uma “linguagem sexista” por empregar o termo “menina”[NT. em espanhol refere-se a criança de origem nobre ao serviço da rainha ou dos príncipes]. Nem rasto no Telejornal de qualquer explicação sobre o que consistiria esta suposta operação.

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Iglesias e Monedero, com os braços ao alto, saudando os membros do Conselho Cidadão  / JAIRO VARGAS

Um caso que então também chamou a atenção do Conselho de Informação foi o tratamento que recebeu o professor Juan Carlos Monedero. Sobretudo, se comparado com o tratamento que está a receber o exministro Rodrigo Rato. O órgão de representação dos profissionais da casa denunciou que no dia em que o cofundador de Podemos se demitiu, em 30 de abril de 2015, na ligação direta realizada pelo telejornal, “de que foi incumbida uma das redatoras recentemente contratadas, lançam-se opiniões e juízos de valor, que não são corretos”: “… assessor político da Venezuela, construtor do argumentário político do chavismo…”.

Pelo contrário, o exministro de Economia Rodrigo Rato, salpicado por múltiplos casos de corrupção, mereceu outros qualificativos como: “um dos flagelos do felipismo”, “grande criador do chamado milagre espanhol”, “oito anos de êxitos”.

Um caso que então também chamou a atenção do Conselho de Informação foi o tratamento que recebeu o professor Juan Carlos Monedero. Sobretudo, se comparado com o tratamento que está a receber o exministro Rodrigo Rato. O órgão de representação dos profissionais da casa denunciou que no dia em que o cofundador de Podemos se demitiu, em 30 de abril de 2015, na ligação direta realizada pelo telejornal, “de que foi incumbida uma das redatoras recentemente contratadas, lançam-se opiniões e juízos de valor, que não são corretos”: “… assessor político da Venezuela, construtor do argumentário político do chavismo…”.

Pelo contrário, o exministro de Economia Rodrigo Rato, salpicado por múltiplos casos de corrupção, mereceu outros qualificativos como: “um dos flagelos do felipismo”, “grande criador do chamado milagre espanhol”, “oito anos de êxitos”.

O Conselho de Informação também denunciou que as diferentes informações emitidas pelos telejornais tentavam acusar “indiretamente” Podemos de “enganar e trair” Monedero. Contudo, aquilo que o professor da Complutense tinha sublinhado numa entrevista concedida a Radio Cable é que se sentia enganado e traído com “a conceção geral da política”.

No último ano, além da campanha eleitoral de 26 de junho, anteriormente tão pouco se pode dizer que a RTVE tenha tratado Podemos com neutralidade. Por exemplo, em 14 de janeiro os telejornais recolheram numa peça e com reações de outros partidos, a informação, filtrada pelo diário ABC, de uma suposta investigação da polícia ao líder de Podemos, Pablos Iglesias, pelos recebimentos como apresentador em Hispan TV. Iglesias não estava imputado nem essa investigação parecia existir ou ter algum fundamento. 

Nesse mesmo mês, os telejornais da 1 fizeram eco da notícia de Antena 3 de que membros da CUP e de Podemos viajaram à Venezuela em 2014 convidados por Nicolás Maduro. Não foi dada em momento algum a versão de Podemos. Tão pouco foi contrastada ou confirmada uma notícia, que à simples vista, não tinha pés nem cabeça. 

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E a lista é práticamente infinita. Outro exemplo dá-se em 5 de abril. O Telejornal apresentou como facto em sumários e notícias de abertura que Podemos se financiou com 7 milhões de euros procedentes da Venezuela. Por último, cabe destacar o ocorrido em 8 de outubro. Durante esse fim de semana, o Telejornal 1 não informa sobre as novas gravações áudio que desmontavam a acusação do exministro José Manuel Soria contra a então candidata de Podemos, a juiz Victoria Rosell. Essas gravações estiveram disponíveis na Rtve.es, mas foram eliminadas pouco depois.

Partido Popular, uma referência de boas práticas [segundo os media dominantes]

É possível também que acredite que o Partido Popular é uma referência de boas práticas políticas e que é praticamente impossível encontrar nele um ramo podre. É que tudo o que rodeia o Partido Popular é amor e trabalho duro por Espanha. Um exemplo manifesto foi vivido este fim de semana quando os noticiários realizaram um triplo mortal com rodopio comparando o mau tempo em Madrid com o bom ambiente no Congresso do Partido Popular.

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Embaixador Gustavo de Arístegui

Em 11 de dezembro de 2015, por exemplo, os Serviços Informativos decidiram informar sobre o que foi a notícia do dia: o então embaixador de Espanha na Índia, Gustavo de Arístegui, e o deputado conservador e número dois do PP em Segovia, Pedro Gómez de la Serna, cobravam (supostamente) comissões em troca de conseguir contratos para empresas espanholas no estrangeiro. Todavia, a informação esteve fora do bloque eleitoral e, surpresa, esqueceram-se de mencionar que Gómez de la Serna é atualmente deputado do PP na Comissão Permanente do Congresso e é o número 2 por Segovia pelo mesmo partido.

 

Melhor memória tiveram, em contrapartida, com o socialista Eduardo Madina. Nesse mesmo dia e, agora sim, dentro do bloque eleitoral, os noticiários dedicaram o espaço de EH-Bildu a recordar as declarações de Madina a favor da libertação de Otegi. Na notícia omite-se, todavia, que Madina foi uma das vítimas da ETA, uma informação de contexto necessária para avaliar corretamente as declarações do socialista.

Um ano antes, em 16 de maio de 2014, Informe Semanal dedicou uma reportagem ao assassínio da presidente da deputação de Leão, Isabel Carrasco. A informação não teria nenhuma mácula se não fosse porque não conta que a pessoa que executou o crime também era militante do Partido Popular. Como teria sido noticiado se a militância fosse de outro partido?

A lista segue e segue. Mais exemplos. 19 de dezembro de 2013. A Polícia entra na sede do Partido Popular, que governa com maioria absoluta, para proceder ao seu registo. A notícia paralizaria qualquer país democrático, mas não a Espanha. O Telejornal matinal não incluiu o tema nos seus titulares e Los Desayunos de TVE dedicaram ao assunto uns assombrosos 42 segundos.

Em 22 de janeiro de 2016 o Partido Popular converte-se no primeiro partido imputado da democracia. A TVE abre com esta informação? Realiza um especial sobre as consequências de que o partido que suporta o Governo esteja imputado? Não. O Telejornal 1 dá em pequenos pedaços a investigação judicial sobre a limpeza dos computadores de Bárcenas e a imputação do Partido Popular.

Mas os telejornais não protegem apenas a equipa de Rajoy ou os seus colaboradores mais próximos. Em 16 de maio os telejornais reduzem a imagens de recurso e a curtas declarações (NT. de 20 segundos) as comparências de Cotino e de Camps perante a Comissão de Investigação das Cortes Valencianas devido ao acidente do Metro de Valencia no qual morreram 43 pessoas. “Não há contexto, não se explicam as circunstâncias do acidente e não se oferece a versão das vítimas ou dos porta-vozes dos afetados. De novo os responsáveis das notícias desvalorizam o gravíssimo acidente do Metro de Valencia, mostram a sua insensibilidade perante as vítimas e minimizam a investigação sobre as responsabilidades políticas do Partido Popular”, assinalam fontes da casa. 

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A ocultação é uma das más práticas que mais se repetem. Por exemplo, a TVE tão pouco informou quais foram os resultados da autópsia de Rita Barberá. Tudo estaria bem não fosse o facto da televisão pública ter enchido de elogios a figura da exalcaldesa de Valencia quando se conheceu a notícia do seu falecimento, passando em bicos de pés sobre o processo de corrupção em que estava imputada, ter minimizado as críticas e o vazio feito pelo seu próprio partido. O telejornal chegou a dizer que o Supremo “tinha anunciado que arquivava a causa contra ela” quando esse facto ainda não se tinha produzido. Pelo contrário, dedicaram uma peça de dois minutos e 11 tomada de declarações sobre a ausência de Podemos no minuto de silêncio observado pelo parlamento em sua memória e deu toda a visibilidade possível a essas vozes que culparam a imprensa e as redes sociais pelo falecimento da exalcaldesa.

 

Texto original em http://www.publico.es/economia/comunicacion/television-manipulado-tve-partido.html

 

 

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