CARTA DO RIO – 164, por Rachel Gutiérrez

Aspecto do Rio Doce, no município de Mariana, estado de Minas Gerais, após o rompimento da barragem erguida pela companhia mineira SAMARCO, em Bento Rodrigues, em Novembro de 2015.

 

           Fernando Gabeira começa seu artigo do Globo  deste domingo, 13, com os  últimos versos pungentes de Carlos Drummond de Andrade, em seu poema Lira Itabirana :

I

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

II

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

III

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos

de ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

sem berro?   (grifo meu)

 

       E o jornalista explica que esses versos “contam uma longa história da mineração em Minas. Uma história que se confirmou pela anulação do processo de Mariana sobre o mar de lama que provocou 19 mortos, dezenas de lares perdidos e um rio envenenado.”

         Para justificar tão absurda anulação, a mineradora Samarco, responsável pelo maior desastre ecológico do nosso continente alegou que “a polícia teria lido e-mails da empresa, sem autorização.” (!)

        Escrevi várias vezes sobre a tragédia do Rio Doce em Mariana, essa ferida aberta nos corações dos brasileiros, mas hoje quero me deter apenas na falta de vergonha dos que mentem oficialmente em nosso país.

         Todos os dias somos obrigados a ouvir mentiras descabidas e injuriantes. Eis um exemplo, que nos dá o jornalista Elio Gaspari em sua coluna também deste domingo, 13:

           “A doutora Raquel Dodge foi ao Jaburu (logo lá) às 22 h de terça-feira e encontrou-se com o presidente Michel Temer sem que houvesse registro na agenda do anfitrião. Até aí, vá lá, mas no dia seguinte ela informou à patuleia que foi a Temer para tratar da cerimônia de sua posse, no dia 18.” Eles pensam que o povo inteiro é idiota, ou estúpido como dizemos aqui e em Portugal! Continua o excelente Gaspari:

         “Se o Brasil tem um presidente e uma procuradora-geral que precisam se encontrar pessoalmente para tratar de um assunto de tamanha irrelevância, a situação está pior do que se imagina.”

       O que se terminou por saber, afinal, de acordo com os próprios assessores do presidente é que “os dois trataram das tensas relações do Planalto com a PGR (Procuradoria Geral da República).” E Gaspari completa: “Nesse caso, a doutora Dodge julgou-se no direito imperial de propagar uma banalidade inverossímil”… subestimando acintosamente a inteligência da opinião pública.

      Outro caso exemplar é o do ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o maior ladrão de toda a história do Brasil atualmente preso em Benfica. Questionado pelo juiz Sérgio Moro, que comanda em primeira instância, desde 2014, o julgamento dos crimes identificados na Operação Lava-Jato, (o maior caso de corrupção e lavagem de dinheiro já apurado no Brasil), e que haverá de atingir além de empreiteiros e empresas, um grande número de políticos, Sérgio Cabral afirmou que jamais recebeu propinas e alegou que todo o dinheiro recebido ao longo de seus 2 mandatos  – uma incomensurável fortuna em dólares, reais, joias e bens imobiliários! – resultou de sobras de campanhas eleitorais. Ora, convenhamos! Diga-se, de passagem, que Sérgio Cabral já é réu em 14 processos.

            Nossos políticos jamais reconhecem seus erros ou ilícitos. Sobre a última campanha de Dilma Rousseff, a Revista Veja comentou:

          Se o livro mundial dos recordes tivesse a seção ‘estelionato eleitoral’, a presidente fecharia 2014 disparada em primeiro lugar, com o bônus de mentir até para a “companheirada” vermelha.

            De lá para cá, pouca coisa mudou no que se refere ao desrespeito à opinião pública.

            Pode-se ler também no jornal O Globo:

         O presidente do Brasil, Michel Temer, negou, neste sábado (12), que os seus encontros com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, tenha sido sobre discussões da reforma política e isso acabou desmentindo o ministro e ele próprio.

          Essa declaração de Temer acaba mudando a versão do relato dos encontros dele com o ministro, que são na maioria, fora da agenda oficial. Há alguns dias, o peemedebista havia dito que suas conversas com Mendes eram sobre a reforma política e nada mais do que isso. (Teria esquecido o que declarara?)

           E os deputados que votaram a favor da manutenção de Temer no poder, ignorando as graves acusações que pesam sobre ele, alegaram todo tipo de desculpa, ou explicação. Jamais disseram a verdade, que é muito simples: cada um age em causa própria, visando apenas seus próprios interesses.

            Como disse Gabeira:

        “Somos dominados por um sistema político cínico, que se alimenta, na verdade, da repulsa que nos provoca. Mais repulsa, mais indiferença, menos possibilidade de mudanças reais.”

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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