CARTA DO RIO – 169 por Rachel Gutiérrez

Hoje, quero tocar num assunto que parece incomodar muita gente: a Velhice. E quero contrariar, ao menos em parte, a famosa afirmação de Charles de Gaulle: “A Velhice é um Naufrágio!” sem esquecer Ingmar Bergmann, quando disse que ninguém nos prepara para a velhice, como se só passássemos a pensar nela quando já estamos velhos e nada fizemos para recebê-la. Também contrario o tolo queixume de quem diz: “Ah! se eu tivesse vinte anos, com a experiência que tenho agora!”

Ora, se eu tivesse a experiência de agora com vinte anos, jamais teria vivido o frescor dos 20 anos, somados a todos os outros com os quais cheguei à velhice.

Se não perdemos a lucidez e continuamos razoavelmente saudáveis, a velhice não nos chega como castigo, mas como amadurecimento, maior independência mental e crítica, acúmulo de conhecimentos e a consciência cada vez mais clara de que jamais saberemos tudo e que a própria vida continuará, até o fim, um grande e apaixonante mistério.

Nada disso, porém, deveria nos entristecer ou deprimir. Se tivéssemos atingido o saber absoluto e tivéssemos decifrado todos os mistérios, que sentido poderia ter o fato de continuarmos vivos?

O corpo envelhece, sim. É verdade que precisamos aprender a conviver com as limitações que a idade impõe, mas não precisamos abdicar de tentar compreender as novas gerações, os novos avanços da ciência e da técnica e, sobretudo, as novidades eletrônicas às quais precisamos nos adaptar.

Por sorte, não temos obrigação alguma de viver “conectados” o tempo todo nos modernos celulares e seus whatsapps. Ainda podemos nos sentar, como fiz outro dia, à mesa de um restaurante à beira mar, sem celular por perto, nem revista, nem livro, nem nada, apenas gozando a visão do mar ao longe e a do bordado das folhas de uma castanheira contra um céu azul. Em silêncio, tranquilamente, serenamente.

Nem por isso precisamos nos abrigar numa outra categoria de seres humanos: os da Terceira Idade, ou os chamados Idosos nem sempre com muito respeito. Já não sou moça, mas recuso-me a me considerar idosa, ou na terceira idade, ou numa falsa “Melhor Idade” dos que recorrem a programas para dançar e saracotear como eternos adolescentes. Particularmente, nunca fui de muita festa. Considero, porém, que diferente de qualquer qualificação discriminatória sou uma pessoa, com identidade – nome próprio e biografia, gostos, preferências, tendências, lembranças, a própria história. Continuo a ter boa memória e, se quiser, posso ainda estudar, aprender uma nova língua, ler muitos livros, ir à concertos, cinema, teatro e, sobretudo, posso tentar conhecer melhor as pessoas, meus semelhantes. No entanto, acredito que não preciso, também por considerá-lo inútil e ridículo: tentar parecer a moça que já não sou. Não vou usar só cores escuras, como as senhoras que me antecederam no tempo da minha avó, nem vou deixar de me divertir, mas não preciso esticar a pele e fingir que os anos não passaram para mim. Há muito tempo sei que só não envelhece quem morre moço. O que não pode envelhecer é o espírito, a curiosidade, a capacidade de compreender mais e a de julgar cada vez menos, a de nos tornarmos cada vez menos rígidos e mais tolerantes, mais compassivos, mais generosos.  Li num texto da Cabala que, sem ser judia, também gosto de estudar, que “É proibido envelhecer.” Como assim: proibido envelhecer, se o Tempo é inexorável? A explicação vinha logo a seguir: “envelhecer é capitular, é desesperar-se e desistir, é não se interessar mais pela vida.”  Portanto, precisamos dar ao Presente, seus dois principais significados: o temporal, de período atual, agora,  e o de dádiva, brinde, oferenda, benesse.  Pois, na idade avançada cada dia, por ser um acréscimo, pode e deve ser fruído em sua plenitude.

Rita Levi-Montalcini (1909-2012), Prêmio Nobel de Fisiologia em 1986

E as doenças? Sim! Existem as doenças, mas são cada vez mais tratáveis, a medicina avançou enormemente e a vida humana se prolongou.

E a morte? Sim, a Morte! “A indesejada de todas as gentes”, como disse Manuel Bandeira, essa pode chegar a qualquer momento, em qualquer época: na infância, na juventude, ou na velhice. A “indesejada” virá quando vier, não há nada a fazer, a não ser procurarmos nos preocupar menos com ela, pois, afinal, além de inevitável, nós não morreremos, seremos “morridos” por ela, assim como quando dormimos somos “dormidos” pelo sono.

É possível encarar a velhice como uma fase de colheita, de grandes ganhos de tempo livre para a criatividade, para a contemplação, para a transmissão generosa de conhecimentos e experiência, para o sempre possível enriquecimento no convívio tanto com os próprios pares, quanto com os mais moços e com as crianças, com as plantas e com os animais, com a vida que segue, enfim.

Observo que pessoas mais velhas tem menos medo de dizer o que pensam e algumas decidem fazer só o que querem, contrariando parentes e amigos, como a exercer uma liberdade finalmente conquistada.

(Simone de Beauvoir, que foi pioneira no estudo da velhice como problema social e psicológico, ela mesma, que já se considerava velha antes de completar cinquenta anos, permitiu-se ainda viver um longo romance, que durou uma década, com o cineasta Claude Lanzmann, 17 anos mais moço. )

Entre os livros que estou lendo (leio sempre muitos ao mesmo tempo), dois foram escritos pelo monge franco-tibetano Mathieu Ricard – A Revolução do Altruísmo, e Felicidade ; e do escritor italiano Pietro Citati, leio La luce della notte – I grandi miti nella storia del mondo ( A luz da Noite – os grandes mitos (na) da história do mundo).

Em qualquer idade, a companhia dos livros é uma das melhores.

 

One comment

  1. Para quem ultrapassou a barreira dos 85 anos, me insiro nesta reflexão poética e profunda sobre a velhice. Ser velho é sim sinônimo de desistir e entregar-se às limitações da idade. Não me rotulo como velha pois exerço a minha liberdade e lucidez para enfrentar os desafios. Continuo curiosa para aprender e ainda me surpreendo e apaixono diante da beleza do mundo, do ser humano e da vida.

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