PARA A HISTÓRIA DO TEATRO DE AMADORES – 13. NO CONGRESSO E NO FESTIVAL MUNDIAL DO TEATRO DE AMADORES DA AITA/IATA – ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DO TEATRO DE AMADORES – POR ANTÓNIO GOMES MARQUES

 

Em 1981, de 26 a 28 de Agosto, realizou-se no Mónaco o 15.º Congresso do Teatro de Amadores e, de 27 de Agosto a 5 de Setembro, o 7.º Festival Mundial do Teatro de Amadores, numa organização conjunta da AITA/IATA e do Mónaco, cabendo-me a mim a representação da APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, na qualidade de Presidente da sua Direcção e membro daquela Associação Internacional.

A APTA convidou a Secretaria de Estado da Cultura a nomear um seu representante, o que foi aceite, tendo aquele órgão governamental nomeado o actor, encenador e docente Carlos Cabral, que foi um excelente companheiro desta gloriosa jornada.

No Congresso fizeram-se representar 27 países; no Festival, estiveram representados 23 países, com 26 peças de teatro. Pela primeira vez Portugal esteve presente neste Festival, tendo a Direcção da APTA escolhido o TACC – Teatro de Amadores “Combate” do Cartaxo, que apresentou a sua criação colectiva «O Sonho do Palhaço».

A representação do TACC foi muitíssimo bem recebida pelo público e pela imprensa, tendo tido uma espectadora muito especial – a Princesa Grace do Mónaco.

No final, a Princesa Grace mostrou-me o seu agrado pelo espectáculo a que tinha acabado de assistir, assim como muitos dos Delegados ao Congresso. Prestigiámos o país, o que é sempre de assinalar.

Ao Congresso, apresentei uma Comunicação, «O Teatro de Amadores – Hoje», a qual foi muito bem recebida pela maioria dos Delegados, mas que desagradou profundamente ao Presidente da Mesa do Congresso, classificando-a como um documento político.

A esta posição reagiram alguns Delegados, um deles, o David, professor já então aposentado de nacionalidade inglesa, com um pequeno discurso de grande veemência, ao que o Presidente da Mesa não se mostrou capaz de reagir. Guardarei para sempre na minha memória o calor que o David colocou nas suas palavras, como também o abraço solidário que fez questão de me dar logo que acabou de falar.

Não resisto à tentação de vos relatar um episódio que se seguiu.

Depois dos vários comentários à minha Comunicação, inscrevi-me para falar, tornando-se evidente o desconforto do Presidente da Mesa, impossibilitado que estava de me impedir de o fazer.

Ora, sempre que a mim se referia, o Presidente da Mesa, suíço, que fazia gala de se dizer membro de um Rotary Club, chamava-me «Monsieur Marquês» e eu, quando me deu a palavra repetindo daquela forma o meu apelido, levantei-me para lhe dizer que a forma como pronunciava o meu nome era a mesma coisa que dizer em francês «Monsieur le Marquis», o que não era apropriado, para mais sendo eu republicano desde antes mesmo de ter nascido, sentando-me de imediato.

Fez-se um pequeno silêncio, a que se seguiu uma gargalhada quase geral. A partir daquele momento, o suíço membro de um qualquer Rotary Club evitou quanto pôde voltar a falar comigo.

Portela (de Sacavém), 2017-11-06

 

COMUNICAÇÃO

 

O TEATRO DE AMADORES – HOJE

 

Senhor Presidente, estimados Congressistas, Amigos:

Para vos falar do teatro de amadores em Portugal terei de, primeiro, dizer-vos algo sobre este país, que é o meu, dado viver uma situação que julgo não poder comparar-se à dos países aqui representados. Peço, pois, a vossa atenção e paciência.

Conquistado o direito à liberdade de expressão com o 25 de Abril, direito esse hoje consagrado na Constituição da República Portuguesa mais pela pressão dos trabalhadores do que pela vontade dos políticos nos anos de 1974 e 1975, a APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores pôde sair da clandestinidade.

Conquistado tal direito, não podemos afirmar que o Teatro em Portugal, hoje, seja livre. Sem independência económica não há liberdade e o Teatro em Portugal continua economicamente dependente.

O Teatro é talvez a arte que melhor reflecte a realidade social de um país. Ora, Portugal é, em termos económicos, um país em vias de desenvolvimento e os homens de teatro têm de contribuir para que os políticos não esqueçam que não há projecto político que possa vingar se não souber captar a adesão da população activa e que, para isso, indispensável se torna que os proveitos não sejam apenas para alguns à custa, portanto, do trabalho dos outros!

Para ilustrar a situação portuguesa, vamos servir-nos de algumas estatísticas oficiais, repito, de algumas estatísticas oficiais, que nos parecem elucidativas da situação em Portugal, país com potencialidades para se tornar também economicamente independente, situação esta que o Teatro, como todos vós, decerto, não deixarão de aceitar, não pode ignorar.

Vejamos esses números em comparação com os países da Europa Ocidental, já que só destes possuímos algumas estatísticas. Assim:

– De todos esses países, é Portugal o país com o mais baixo produto bruto per capita, correspondendo, sensivelmente, a metade dos níveis da Espanha, Irlanda e Grécia e seis vezes inferior ao da Alemanha Federal e da Suécia;

– No que toca ao consumo por habitante, os números são idênticos aos anteriormente citados e em relação aos mesmos países;

– Tem a mais fraca densidade da rede telefónica, semelhante à da Irlanda;

– Só a Grécia tem uma densidade automóvel inferior;

– O número de fogos concluídos por 1.000 habitantes apenas superou há pouco o da Itália, e temos razões para crer que, a seguir-se a política dos dois últimos governos, depressa ficará Portugal na cauda desses países da Europa Ocidental;

– A taxa de mortalidade infantil era, em 1975, de 38,9 em mil e a taxa de mortalidade maternal de 0,41;

– A esperança de vida à nascença em 1975, em média para homens e mulheres, de 68,9 anos;

– A taxa de escolaridade no ensino secundário é das mais baixas da Europa e a frequência do ensino superior é muito fraca;

– Quanto à situação sanitária, podemos dizer que Lisboa, Porto e Coimbra são cidades sobreequipadas, especialmente em pessoal médico e paramédico, existindo assimetrias distritais e regionais;

– Os portugueses, do seu rendimento consomem 56,6% apenas com a alimentação e bebidas, excluindo, note-se, a habitação;

– Lisboa e Porto consomem 60% do total da electricidade para fins domésticos;

– E, para terminar este quadro desolador, de uma população activa de 4.207.000 em 1980, 320.000 estavam no desemprego, o qual afecta, numa maior percentagem, as mulheres e os jovens de ambos os sexos com menos de 25 anos.

Tal situação poderá vir a ser geradora de tensões muito graves e, se lembrarmos os recentes conflitos em Inglaterra, tais tensões poderão não vir a ter como fim a concretização de ideais, de que Maio de 1968 foi exemplo.

Ora o Teatro em Portugal não pode ignorar tal situação. Cabe-lhe uma grande responsabilidade.

Se lembrarmos que dos mais de 200.000 contos dados pelo Estado ao Teatro declamado (e não são números oficiais, podendo, portanto, ser superiores), cerca de 90% são para companhias sediadas em Lisboa, as quais, salvo raríssimas excepções, não fazem digressões pelo país, podemos então afirmar que se existe teatro em Portugal aos Amadores se deve, donde poderá concluir-se, em face da situação descrita, que sobre os ombros dos Amadores de Teatro em Portugal pesa uma grande responsabilidade.

A capacidade criadora dos Amadores de Teatro portugueses não poderá esquecer que a necessidade de transformação nasce no homem do seu descontentamento na situação que vive. Para satisfazer essas necessidades, os homens têm de relacionar-se uns com os outros, nascendo desta relação a necessária divisão do trabalho, no início voluntária hoje natural, o que fez com que o homem de dominador da sua acção transformadora passasse a ser dominado.

Para deixar de ser dominado, tem o homem de transformar as suas condições de vida, de modo a impedir que a abundância seja para uns tantos à custa da carência para todos os outros membros da sociedade.

Se o homem é condicionado pela sua própria constituição como indivíduo, é-o também pelo sistema de relações sociais em que está inserido e pela sua relação com a totalidade do cosmos.

O homem é atraído pela realidade imensa de que faz parte, a qual tenta compreender e explicar. Actua sobre a realidade material que transforma, criando, assim, uma nova realidade material de que o próprio homem vai ser produto. E é assim de geração em geração que os homens fazem a história, cada geração explorando a herança transmitida pela geração anterior.

Assim, os Amadores de Teatro, se interessados em agir na realidade material em que estão inseridos, têm de ser capazes de elaborar dados que os levem a conhecer a realidade sociocultural do seu meio ambiente. Ao conhecer os hábitos, o nível cultural e também as tradições de uma dada comunidade, o Amador de Teatro está apto a obter adesões entre as gentes mais desfavorecidas para participarem no combate cultural, servindo-se da sua arma que é o Teatro, com a preocupação de não violentar a consciência dos outros membros da comunidade.

Tal trabalho exige o pleno emprego das suas capacidades racionais, de uma entrega completa à luta pela verdade, pela beleza e pela justiça, só possível com muita capacidade de amar.

Em suma: há que correr o risco de viver uma vida verdadeiramente humana e os Amadores de Teatro em Portugal têm-no feito.

Mas que condições lhes são dadas pelas entidades governamentais?

Dos cerca de 10.000 contos que dizem orçamentar para auxiliar o Teatro de Amadores, metade é gasta em material de luminotécnica e sonoplastia, do qual mais de 70% é utilizado pelos profissionais de teatro e em outras actividades que nada têm a ver com o Teatro.

Este exemplo que acabamos de vos dar a conhecer é bem elucidativo dos apoios que temos.

No entanto, os Grupos de Teatro de Amadores cobrem todo o país, fazendo digressões não só nas regiões em que estão sediados, mas também percorrendo outras zonas, permutando espectáculos com outros grupos, fazendo os seus espectáculos em teatros ou na rua, em pequenas aldeias ou em cidades.

Os autores portugueses são os mais representados, o que não acontece no Teatro Profissional. E, dado que os problemas que vivemos são diferentes de região para região, os Grupos escrevem colectivamente muitos dos textos que representam.

Alguns números: em 1980, os Grupos de Teatro de Amadores fizeram cerca de 1.500 espectáculos para cerca de 300.000 espectadores, incluindo-se nestes números, tanto nos espectáculos como nos espectadores, crianças e adultos.

A APTA é o elo de ligação entre todos os grupos e à sua Direcção cabe a coordenação de todo o movimento e a organização de, por exemplo, Festivais e Cursos.

Mas os Amadores de Teatro em Portugal estão aptos para a luta, aptidão essa resultante da experiência de quase cinquenta anos de luta antifascista.

Por outro lado, há que referi-lo, toda a acção da Associação Portuguesa de Teatro de Amadores tem sido desenvolvida com independência em relação a quaisquer estruturas partidárias. Para manter tal independência, nem sempre bem compreendida, muita energia tem sido gasta.

Temos falado do Teatro de Amadores circunscrito a Portugal. Há que falar um pouco da nossa Associação Internacional.

Com Jean-Paul Sartre aprendemos que tudo quanto no Mundo acontece nos diz respeito. Não alijamos tal responsabilidade e, por isso, fundamentalmente, é o nosso movimento um dos membros da AITA/IATA.

Ser membro da Associação Internacional de Teatro de Amadores traz-nos direitos e deveres. Falemos um pouco dos deveres.

Resumir-se-ão tais deveres ao pagamento da quota anual? É importante, mas, depois de tudo quanto dissemos, facilmente se compreenderá a razão por que nem sempre a APTA tem cumprido com os prazos de pagamento.

Ser membro de uma Associação Internacional é não só prestar informações sobre o que somos e o que queremos. Ser membro de uma Associação Internacional é contribuir para que tal Associação seja mesmo internacional. Queremos dizer que entendemos ser um dos deveres de todos os actuais membros da AITA/IATA contribuir para que a nossa organização se estenda ao maior número de países espalhados pelos cinco continentes.

Sabemos dos esforços que estão a ser feitos pelo Conselho. Desconhecemos se algum dos Centros Nacionais está a trabalhar no mesmo sentido.

No que à APTA respeita, temos procurado trazer para o nosso seio os novos países africanos de expressão portuguesa, tendo já Angola estabelecido contacto com a AITA/IATA e, ainda, procurámos dar a conhecer os princípios que a todos nos norteiam a países da América Latina, através dos amigos que fizemos na Venezuela.

As relações bilaterais entre países membros da Associação terão de ser também desenvolvidas. Por enquanto, a APTA tem-se limitado a desenvolver acções comuns com os Centros Nacionais da República Democrática Alemã, da Polónia e também, com menos intensidade, com os Centros dos E. U. A., da Suécia e da Finlândia.

No que à República Democrática Alemã respeita, mais correcto seria falar da extraordinária ajuda que nos tem sido concedida.

Aproveitamos este Congresso para manifestar a todos os outros membros, independentemente da política que entendam desenvolver nos seus países, a nossa abertura para todos os contactos bilaterais, com a certeza de que contribuiremos para o fortalecimento da AITA/IATA, que é de todos nós.

E contribuir para o fortalecimento da nossa Associação Internacional é contribuir para um conhecimento mútuo dos povos dos nossos países, é contribuir para a paz mundial, que os Amadores de Teatro, independentemente da ideologia que professam, muito prezam.

Tenho dito.

Portela de Sacavém, Agosto de 1981

Gomes Marques

Presidente da Direcção da APTA

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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