Carta do Rio – 177 por Rachel Gutiérrez

Entre desalentos e esperanças, começo com o que expressou por muitos de nós a colunista do Globo Míriam Leitão, em seu artigo do último domingo: “Vivo a sensação de estar em um país partido, divorciado de si mesmo. Um lado apodrece e tem poder; o outro resiste com força espantosa. Os políticos afrontam diariamente os valores com suas decisões e falas. Mas eu visito escolas públicas que dão certo em locais improváveis, um hospital modelo em pleno desastre do Rio, funcionários públicos que defendem o patrimônio ambiental do país. Tudo é real.”

Sem dúvida é um alívio quando alguém faz uma constatação bastante alentadora apesar dos pesares da nossa triste realidade. Principalmente agora, quando vemos crescer o número de brasileiros que optam por abandonar o país numa espécie de autoexílio desencantado.

Fernando Gabeira, no segundo caderno do mesmo jornal, fala na desesperança de amigos que encontra: “- Tudo bem conosco, família, amigos. Mas o país…” Assim, com tristes e longas reticências. Confessando, então, sua saudade dos tempos das manifestações e das passeatas, Gabeira diz: “sinto um vazio que a internet não preenche.”

Muitos podemos compreendê-lo porque o sentimento geral é de que apesar do que acontece em termos de conscientização nas redes sociais, chapinhamos numa lama paralisante. Já Ana Maria Machado advertia em seu artigo de ontem: “Temos de distribuir entre todos nós as responsabilidades de achar o caminho e poder sair deste atoleiro”.  E conclui: “ (…) na certa vamos ter de nos juntar em torno a algo que pode não ter a beleza pura de cada sonho e não vai ser o local de cada um, nem em termos de coincidência ideológica.”

A propósito da polarização (entre os extremos populistas de Lula e Bolsonaro), outro artigo interessante deste domingo é o assinado pelo economista e atual presidente do Instituto Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Sérgio Besserman Vianna, que cita o cientista político Sérgio Fausto por ter este, como diz Besserman, tocado na ferida: “`A direita se ouve : é preciso aumentar a produtividade da economia. À esquerda se ouve: é necessário reduzir a desigualdade.” E , de repente, como a criança do conto de fadas, que teve a coragem de dizer que O REI ESTÁ NÚ, o cientista “discorre sobre como ao invés de se oporem, no Brasil, ( esquerda e direita ) obrigatoriamente se complementam.”

Adiante, Besserman esclarece que “a produtividade é evidentemente essencial. Como caminhar na direção de menos desigualdade é igualmente fundamental. (…) o acesso igualitário às políticas públicas, uma reforma tributária que arrecade mais dos ricos, a defesa dos direitos das minorias e do indivíduo frente ao Estado (…) e o direito ao acesso ao conhecimento também são fundamentais na luta contra a desigualdade e para o aumento da produtividade.” Para concluir que “Nessa etapa, não é nós contra eles. Devemos ser nós e eles”… ( O grifo é meu).

Outro cientista político, Paulo Bahia, que  escreveu também no domingo sobre O não voto em 2018, adverte que “quanto maior o não – voto – nulos, brancos e abstenções – maior o sucesso das estruturas partidárias tradicionais” (…) Ele chama assim “todos os partidos (…) de espectros políticos e ideológicos calcados em práticas históricas de militância pré-mundo digital e conexão permanente”…

 Paulo Bahia termina seu artigo de forma pessimista:

“Ressalto que a crise ética de representação, moral e de governança pela qual estamos passando terá continuidade a partir do pleito de 2018, seja qual for o presidente eleito. Ou seja, continuaremos vivendo esta grave crise política e de representação.”

Mas nem tudo precisa estar perdido:

Na tarde do dia 7 de novembro, o Senador Cristovam Buarque, do PPS-DF, anunciou que fará durante quatro meses uma espécie de “Caravana” pelo Brasil, para divulgar a sua “pré-candidatura”. O objetivo é verificar o clima para as eleições de 2018, porém, só como um “projeto”.

E: Em entrevista ao jornalista Ricardo Noblat, o senador explicou  como seria sua relação com o Congresso:

– Defendo que se faça um processo eleitoral plebiscitário. Não basta eleger um nome para presidente, mas um conjunto de propostas. Se for candidato como quero ser, apresentarei os primeiros decretos, os primeiros projetos de lei, as primeiras propostas da reforma da Constituição que assinaria se fosse eleito. Diante disso, acho que o futuro Congresso seria capaz, sim, de aprovar o que os eleitores já teriam aprovado antes.

Outro candidato possível é o conhecido apresentador de TV Luciano Huck, um outsider, porém ativista do Movimento Agora!  E já se fala que o jovem aspirante a presidente e o respeitado senador se encontraram para conversar, o que indica que daí poderá surgir uma chapa com Cristovam Buarque como Vice de Luciano Huck.

Como disse Míriam Leitão: Tudo é real.

 

 

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