Este conto foi publicado, há já alguns anos, no blog de uma grande amiga.
Mas como o acho apropriado para os tempos que vivemos, atrevo-me a divulgá-lo mais uma vez.
Limitei-me a actualizar a escrita!
O último concerto
Olham-se sempre que as pautas permitem.
Ela deixa as mãos correr pelas teclas, inclina a cabeça para o lado direito, olha-o e sorri!
Às vezes os olhos cruzam-se e então, ele quase parece esquecer o violino, boca e olhos respondendo ao sorriso!
Há ali qualquer coisa de irreal e mágico!
Não é só da música, a sonata para piano e violino em lá maior K 305 de Mozart, nem do ambiente em tons castanho, aqueles castanhos que só as madeiras emprestam, nem da atmosfera, silenciosa, respeitosa, calma e desvelada, encimada por candelabros pesados, brilhantes de dezenas de velas!
Ali tudo está a condizer, a música, os castanhos, as pessoas e os trajes, claros e compridos nelas e escuros neles, luva branca nos empregados de libré, arrumados, hirtos e imóveis nos locais mais atentos do salão.
Eles, os dois, sabem-se donos daqueles momentos e os outros, espalhados pelo salão sem ousar um movimento, também se reconhecem pertença deles!
E à medida que a música continua, ele aproxima-se mais, lento, quase sem se mover, como se o violino o arraste no encerado do soalho!
Ela percebe-lhe o achegamento, o sorriso alarga-se e a cabeça inclina-se, mais para trás e para a direita, coquetterie de mulher segura de si e as mãos entornam as deixas para ele agarrar e prolongar balançando o tronco, seguindo-as, olhos fechados e a sorrir também.
E os movimentos vão ficando cada vez mais suaves até o braço direito deixar de empurrar o arco, os dedos a parar de dançar escalas, cordas e teclas, largando as últimas notas que sobem lentas, as luzes do salão.
E quando as palmas violam as luzes e os castanhos, ele segura o violino na mão direita, estende a esquerda, encontra a dela e curvam-se, sorrindo os dois, da música, do irreal e da magia.
Abre os olhos quando as badaladas da meia-noite na torre da igreja matriz, silenciam as palmas e a enfermeira se aproxima num sorriso radioso e já pode entrar!
Agarra a caixa do violino e a sorrir também, entra no quarto onde a filha aconchega ao peito pela primeira vez, um corpito minúsculo acabado de nascer.
Sem largar o sorriso, poisa a caixa do violino bem no fundo da cama e isto é para ele!
Toca suavemente a face da filha, não se atreve a fazê-lo ao neto e senta-se lá ao fundo, a olhar para os dois.
Só se levanta algum tempo depois e sempre a sorrir, quando duas lágrimas lhe escorrem, pesadas e lentas, os cantos da boca.
E então bate palmas, baixinho, suavemente, para não perturbar a beleza da obra e do quadro que tem em frente.
E após inclinar a cabeça numa vénia respeitosa, abandona o quarto sem apagar o sorriso nem secar as lágrimas.
Um dia depois, 26 de Dezembro diz o calendário, rádios, televisões e jornais fazem-lhe o obituário e dão-lhe espaços com fotos e pedaços de concertos.
Nenhum deles refere o nascimento do neto, nem a coincidência dos factos!
A vida já deixou de ser notícia há muito tempo!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

