ANTÓNIO OLIVEIRA – O ÚLTIMO CONCERTO

 

 

Este conto foi publicado, há já alguns anos, no blog de uma grande amiga.

Mas como o acho apropriado para os tempos que vivemos, atrevo-me a divulgá-lo mais uma vez.

Limitei-me a actualizar a escrita!

O último concerto

 

Olham-se sempre que as pautas permitem.

Ela deixa as mãos correr pelas teclas, inclina a cabeça para o lado direito, olha-o e sorri!

Às vezes os olhos cruzam-se e então, ele quase parece esquecer o violino, boca e olhos respondendo ao sorriso!

Há ali qualquer coisa de irreal e mágico!

Não é só da música, a sonata para piano e violino em lá maior K 305 de Mozart, nem do ambiente em tons castanho, aqueles castanhos que só as madeiras emprestam, nem da atmosfera, silenciosa, respeitosa, calma e desvelada, encimada por candelabros pesados, brilhantes de dezenas de velas!

Ali tudo está a condizer, a música, os castanhos, as pessoas e os trajes, claros e compridos nelas e escuros neles, luva branca nos empregados de libré, arrumados, hirtos e imóveis nos locais mais atentos do salão.

Eles, os dois, sabem-se donos daqueles momentos e os outros, espalhados pelo salão sem ousar um movimento, também se reconhecem pertença deles!

E à medida que a música continua, ele aproxima-se mais, lento, quase sem se mover, como se o violino o arraste no encerado do soalho!

Ela percebe-lhe o achegamento, o sorriso alarga-se e a cabeça inclina-se, mais para trás e para a direita, coquetterie de mulher segura de si e as mãos entornam as deixas para ele agarrar e prolongar balançando o tronco, seguindo-as, olhos fechados e a sorrir também.

E os movimentos vão ficando cada vez mais suaves até o braço direito deixar de empurrar o arco, os dedos a parar de dançar escalas, cordas e teclas, largando as últimas notas que sobem lentas, as luzes do salão.

E quando as palmas violam as luzes e os castanhos, ele segura o violino na mão direita, estende a esquerda, encontra a dela e curvam-se, sorrindo os dois, da música, do irreal e da magia.

Abre os olhos quando as badaladas da meia-noite na torre da igreja matriz, silenciam as palmas e a enfermeira se aproxima num sorriso radioso e já pode entrar!

Agarra a caixa do violino e a sorrir também, entra no quarto onde a filha aconchega ao peito pela primeira vez, um corpito minúsculo acabado de nascer.

Sem largar o sorriso, poisa a caixa do violino bem no fundo da cama e isto é para ele!

Toca suavemente a face da filha, não se atreve a fazê-lo ao neto e senta-se lá ao fundo, a olhar para os dois.

Só se levanta algum tempo depois e sempre a sorrir, quando duas lágrimas lhe escorrem, pesadas e lentas, os cantos da boca.

E então bate palmas, baixinho, suavemente, para não perturbar a beleza da obra e do quadro que tem em frente.

E após inclinar a cabeça numa vénia respeitosa, abandona o quarto sem apagar o sorriso nem secar as lágrimas.

Um dia depois, 26 de Dezembro diz o calendário, rádios, televisões e jornais fazem-lhe o obituário e dão-lhe espaços com fotos e pedaços de concertos.

Nenhum deles refere o nascimento do neto, nem a coincidência dos factos!

A vida já deixou de ser notícia há muito tempo!

António M. Oliveira

 

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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