A argonauta Simonetta Masin publicou recentemente, em Itália, uma antologia bilingue (português-italiano) de José Jorge Letria, tendo como título Il Deserto Innominabile (Pistoia, petite plaisance, 2017). A tradutora e responsável pela escolha antológica já é conhecida dos companheiros argonautas pelos seus trabalhos de tradução de vários poetas portugueses e brasileiros, e que nos habituámos a apreciar neste espaço. Naquela editora já publicou outras antologias de significativa consistência, como a de Cecília Meireles, Misura del significato e altre poesie, ou a de Sophia de Mello Breyner Andresen, Corpo a corpo e altre poesie.
José Jorge Letria é, como se sabe, um polígrafo de reconhecidos méritos como jornalista, poeta, dramaturgo, romancista, autor de literatura infanto-juvenil, para além da sua actividade na rádio, na televisão, e um dos nomes mais evidentes no âmbito da chamada “canção de intervenção”, participando em inúmeros espectáculos com José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Manuel Freire. Poeta diversas vezes premiado, em 2013 os seus 40 anos de trabalho poético ficaram assinalados no volume Poesia Escolhida. Actualmente é presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.
A presente antologia, de que se salienta a competente tradução, foi organizada a partir de Os Mares Interiores (2002), Poesia Escolhida (2012), É Tudo uma Questão de Tempo (2016) e Tristes Trópicos (2016). E no posfácio, igualmente competente, evidencia Simonetta Masin as linhas de força de uma poética que revela a «fragmentação do eu» no sentido de um desdobramento em que o «eu se alarga numa polifonia de vozes». Como neste belíssimo exemplo:
Gli abitanti dei ritratti
Chi può immaginare il destino
degli abitanti dei ritratti? Si dice:
erano tanto felici in questo giorno; o soltanto:
chi poteva dire che dopo sarebbe stato così?
Si allineano nei ritratti con la serenità
spaventosa degli eterni vincitori
o dei perpetui vinti; più tardi
sarà la malattia o il viaggio, la distanza,
la tragica vicinanza all’abisso
Si allineano dal tempo in cui sorridono
tranquilli, como se a loro rimanesse
tutta la vita per guardare le lenti camere
che confiscano il sogno familiare
o solitario di un’altra, impossibile età.
[«Habitantes dos retratos: Quem pode imaginar o destino / dos habitantes dos retratos? Diz-se: / estavam tão felizes neste dia; ou apenas: / quem havia de dizer que depois seria assim? / Perfilam-se nos retratos com a serenidade / aterradora dos eternos vencedores / ou dos perpétuos vencidos; mais tarde / será a doença ou a viagem, a distância, / a trágica vizinhança do abismo // Alheiam-se do tempo em que sorriem / sossegados, como se lhes sobrasse / a vida toda para olharem as lentas câmaras / que lhes confiscam o sonho familiar / ou solitário de uma outra, impossível idade»].


