O ARREPENDIMENTO, de CAMILO CASTELO BRANCO

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O ARREPENDIMENTO.

ROMANCE

Em tempos da minha mocidade costumava visitar a miudo uma boa velha, minha visinha, que me honrava com a sua estima e amisade. Humildemente confesso que não ha sociedade mais deleitosa e agradavel, do que a de uma mulher que soube envelhecer. A sua conversação instructiva e divertida, é um inesgotavel thesouro de lembranças, anecdotas, observações chistosas e reflexões circumspectas, é finalmente uma revista do passado.

D. Mafalda, deixem-me assim chamar-lhe, juntava á amenidade da conversa, a do caracter, que era brando e indulgente.

Quando tinha occasião de ir passar uma noite com ella, parecia-me que as horas voavam ligeiras e que corriam mais rapidas, do que quando as gastava a distribuir [204] finezas e galanteios ás mais formosas rainhas dos mais brilhantes salões. Era sempre com vivo pesar que a via apontar para o relogio, indicando-me que a hora de me retirar tinha chegado, e voltava a minha casa com o espirito mais rico, e o coração satisfeito e melhor.

A historia que vou contar-vos, minhas caras leitoras, foi-me dita por D. Mafalda n’um d’estes serãos em que vos fallei.

Era n’uma bella noite de Junho; fui encontral-a sentada na sua cadeira á Voltaire, tendo a seus pés, deitado em um cochim, o seu cãosinho querido; os olhos tinha-os semi-abertos, um sorriso nos labios, e parecia respirar com prazer a aragem, que, embalsamada pelas flôres do jardim, se coava pela janella meia aberta. Quando cheguei junto d’ella vinha indignado por que um de meus parentes tinha sido victima d’um abuso de confiança; contei-lhe o succedido, e no calor da narração não poupei ao culpado as maiores imprecações, nem deixei de lhe dizer que desejava fazer-lhe todo o mal possivel.

–Devagar, meu querido amigo–me disse ella–não o julgava tão irrascivel, nem que tivesse tão pouca caridade para com o proximo. Sabe lá, se, com a vida, não tiraria ao culpado o merito de para o futuro se poder rehabilitar pelo arrependimento, e se o momento em que lhe infringisse o castigo não seria o destinado por Deus para esse arrependimento?

–Eis-ahi, minha cara visinha, uma doutrina, permitta-me a expressão, um pouco subversiva da ordem social.

–Deus me defenda–me replicou–de querer que o culpado não seja castigado, e que a sociedade fique indefeza dos crimes que um seu membro praticou contra ella; quiz dizer sómente que devia deixar ás leis o cuidado de castigar o delinquente, e que o meu querido [205] amigo, não devia, como individuo, fechar assim desapiedadamente o coração a todo o sentimento de commiseração por um desgraçado e infeliz, no coração do qual talvez ainda bruxelei algum clarão de virtude, que uma occasião favoravel e propicia, que se apresente, ainda póde despertar, e fazer com que esse membro da sociedade, que julga inutil, se torne bom e aproveitavel.

Como eu respondesse a isto, fazendo um d’estes movimentos de cabeça, que são um protesto mudo e respeitoso, ella acrescentou:

–Está com paciencia para me aturar ouvindo uma historia, pois que ainda temos algumas horas?

Não recusei: uma historia era uma fortuna para combater a exaltação d’espirito em que estava.

D. Mafalda principiou assim:

–Emilio da Cunha era o mais velho de tres irmãos, dos quaes, o mais novo, vivia ha muitos annos no Rio de Janeiro, onde tinha alcançado fortuna. O segundo nunca deixou o Porto, sendo sempre infeliz nos seus commettimentos e especulações. Emilio da Cunha, á custa de muito trabalho e economias, pôde alcançar uma fortunasinha, que lhe permittia esperar com socego, o momento de descançar da vida laboriosa em que tinha vivido.

Uma quarta pessoa completava esta familia, que era uma irmã, que tendo seguido seu marido á India, para onde elle tinha sido despachado, e não vindo nenhum d’elles a figurar n’esta minha historia, não lh’os recordarei mais.

Aconteceu que o irmão de Emilio da Cunha, que residia no Porto, por uma d’estas catastrophes que occasionam os jogos de bolsa, falliu. Teve tal sentimento por este facto, que falleceu tres dias depois, atacado d’uma febre cerebral. A herança, que deixou, foram dividas e um filho.

Emilio da Cunha, que tinha um coração bondoso, e [206] um caracter pundonoroso, para que a memoria de seu irmão não ficasse deshonrada, comprometteu-se a pagar as dividas e recolheu em sua casa o filho para lhe substituir o pai, que tinha perdido; procedimento louvavel, e digno de se admirar, sabendo-se que elle tinha uma filha, para quem, passados quatro ou cinco annos tinha a procurar um casamento vantajoso.

Roberto, se chamava o sobrinho de Emilio da Cunha, tinha já 15 annos d’idade, mas o pai, inteiramente entregue ás especulações, e aos cuidados, que ellas trazem comsigo, descuidou completamente a sua educação, por isso o seu retrato moral, n’esta occasião, nada tinha de vantajoso; o espirito tinha-o completamente inculto; as noções que possuia do justo e do injusto eram as mais erroneas e disparatadas; o respeito aos direitos d’outrem era para elle uma invenção estupida dos homens, condemnada pela natureza, e a verdadeira liberdade consistia em fazer o mal impunemente. Se algum bom instincto, ou algum vislumbre de virtude, existia no coração de Roberto, ainda estava em embryão, por que se não tinha demonstrado. Quantas e quantas vezes, em quanto que o pai, cego pelas especulações, concentrava todas as suas faculdades intellectuaes na realisação d’um impossivel, não deixou Roberto de ir ao collegio, fazendo o que em termo escolar, se chama gazear, e gastava as horas d’estudo em andar a vagabundear pelos campos e praças. D’ahi proveio o tomar relações com meia duzia de garotos, ou vadios, permitta-me a phrase, para quem nada era sagrado nem nas acções, nem nas palavras. D’ahi nasceu a falta de respeito pela propriedade alheia, roubando os pomares; e o endurecimento de coração, castigando barbaramente animaes inoffensivos.

Emilio da Cunha reconheceu logo os maus instinctos de que seu sobrinho era dotado, e a desmoralisação, que já se tinha infiltrado no seu coração, mas concebeu a esperança de o regenerar com desvelos, paciencia, e [207] sobre tudo bons exemplos. Sua filha, a que chamarei Valentina, de 14 annos d’idade, contribuiu poderosamente para a realisação d’este seu empenho, tão justo e louvavel. Era uma menina para quem a natureza tinha sido prodiga em encantos de rosto, d’espirito e coração, a ponto de qualquer que a via a admirar, e de quem a ouvia amal-a immediatamente. Tinha uma tal influencia, ou magia sobre os que se acercavam d’ella, que aos bons tornava-os melhores, e aos maus fazia-lhe retirar envergonhados para o fundo do coração os maus instinctos. Esta magia não teve menos poder sobre Roberto, do que sobre os outros, de sorte que a regeneração que elle soffreu, nos seus costumes e acções, foi tão sensivel, que o bondoso Emilio da Cunha revia-se alegre e contente na sua obra, e congratulava-se dos resultados que tinha colhido.

Deu-se porém uma circumstancia feliz, mas que ao mesmo tempo foi desgraçada, que deteve Roberto repentinamente na boa estrada em que se tinha embrenhado, e na qual parecia caminhar resolutamente. Por uma carta chegada n’um dos paquetes inglezes do Brazil, soube Emilio da Cunha, que seu irmão mais novo tinha fallecido, deixando-o, por elle ser o seu mais proximo parente, herdeiro d’uma fortuna consideravel. Bens rusticos, e estabelecimentos industriaes é no que consistia a fortuna, dos quaes se poderia colher bons lucros, sendo bem geridos, conforme o tinha praticado o seu defunto proprietario; mas Emilio da Cunha, além de se não julgar com conhecimentos e forças para bem gerir a industria com que seu irmão tinha feito fortuna, não tinha desejo, nem queria expatriar-se. Foi até com immensa repugnancia que se resolveu a ir ao Brazil tomar posse e liquidar a herança; parecia que um secreto presentimento o avisava do que tinha de acontecer, levando-o a considerar como uma desgraça esta viagem, a que os sagrados direitos de sua predilecta filha Valentina, o obrigavam a emprehender.

[208]

Partiu finalmente, depois de ter tomado todas as precauções para a tranquillidade de seu espirito. Valentina entrou em um dos collegios de educação mais acreditados do Porto, e Roberto ficou n’uma casa particular, onde lhe deviam prestar todos os cuidados, que exigiam a sua idade, pois que já então tinha 17 annos, e a sua completa ignorancia, de que até uma criança de 8 annos poderia zombar.

Emilio da Cunha aportou a salvamento ás terras de Santa Cruz, e logo que saltou em terra, desenvolveu a maior actividade, e procurou por todos os meios possiveis abreviar rapidamente os seus negocios, mas infelizmente os resultados não correspondiam aos seus esforços e desejos, porque de todos os lados, e a todos os momentos estavam sempre a surgir empecilhos e embaraços não prevenidos nem esperados. Havia já um anno que Emilio da Cunha tinha chegado ao Brazil, e ainda os seus negocios não estavam mais adiantados, que no primeiro dia.

Cançado, desanimado e affectado de melancolia, ou spleen, como lhe chamaria um nosso fiel alliado britannico, mortificado por um desassosego de que não podia explicar a causa, deliberou entregar os seus negocios e a liquidação e arrecadação da heranca a um procurador, e embarcar-se no primeiro paquete, que seguisse viagem para Portugal.

Que se tinha porém passado no Porto, durante este tempo?

É o que lhe vou contar, meu visinho, se ainda tiver paciencia para me ouvir, me disse D. Mafalda, e o que vou fazer ás minhas leitoras, se ellas quizerem ter a mesma paciencia de me lêr.

Roberto, separado de sua prima, aborrecido e dominado pela priguiça, fugiu um bello dia da casa onde se achava hospedado, foi procurar, e infelizmente encontrou, os seus antigos companheiros da vadiagem, que tinham [209] quasi todos seguido a estrada do vicio e do crime. Arrastaram portanto comsigo o desventurado Roberto para esse despenhadeiro, na baixa do qual se encontra a escoria da sociedade. Roberto tinha por companheiros habituaes homens criminosos, de cara sinistra, maneiras brutaes, linguagem grosseira e vestidos esfarrapados, n’uma palavra mendigos, ou ladrões. Adoptou-lhe portanto os costumes as maneiras e as maximas, e quem o visse emmagrecido pela devassidão, com os vestidos em desalinho, os cabellos eriçados, tomal-o-ia por um bandido de trinta annos, quando elle não tinha mais que dezenove incompletos. Valentina, pelo contrario, tinha crescido em corpo, belleza, espirito, talento e virtudes.

Conduzi-o do Porto ao Rio de Janeiro, e do Rio de Janeiro ao Porto, agora, querendo-me seguir, leval-o-hei a Lisboa, onde se passa um pequeno episodio d’esta muito veridica historia.

De bordo d’um paquete inglez, chegado dos portos do Brazil, tinha desembarcado um passageiro, que se dirigiu a um hotel para descançar, e ahi passar até ao dia seguinte, em que devia seguir viagem para o Porto, na mala-posta, a fim de se vir unir a seus filhos, que estava ancioso por abraçar e apertar contra o coração. Julgo desnecessario o dizer-lhe, pois me parece já o adivinhou, que este viajante era Emilio da Cunha, que se considerava feliz por pisar o solo da sua patria, que tanto amava, e onde estava tudo o que elle mais presava n’este mundo. Logo que no hotel lhe prepararam o quarto e tomou uma pequena refeição, deitou-se e adormeceu, embalado por sonhos felizes.

No dia seguinte ainda o sol mal tinha despontado, já subia pela escada do hotel e entrava no corredor commum, sobre o qual deitavam uma duzia de portas de quartos, um homem de má catadura. Era um d’estes cavalheiros d’industria, a qual consiste em entrar, sob qualquer pretexto, de manhã cedo nos hoteis, e aproveitar-se [210] do primeiro quarto que encontram aberto para empalmarem destramente um relogio, ou uma mala, se o acordar do hospede ou locatario do quarto, os não obriga a retirar-se de mãos vazias, desculpando-se de que se tinham enganado na porta.

No andar, vacillante, e como desconfiado, do cavalheiro d’industria se reconhecia facilmente, que era um noviço, que ia tentar os seus primeiros ensaios, ou que ia fazer a sua primeira escamoteação.

Depois de ter estado por bastante tempo em lucta com a sua consciencia, e irresoluto se devia ou não penetrar no quarto de que a porta se achava meia cerrada, metteu primeiro a cabeça, depois uma perna, e por ultimo todo o corpo; mas fazendo algum ruido com este ultimo movimento, o hospede, que estava deitado, acordou, e virando rapidamente a cabeça, Roberto, por que o cavalheiro d’industria era elle, encarou com seu tio Emilio da Cunha, ficou estupefacto e como fulminado por um raio.

N’esse mesmo dia de tarde Emilio da Cunha tomou lugar no caminho de ferro até ao Carregado, e ahi na mala-posta até ao Porto, onde trinta e seis horas depois se achava nos braços de sua querida filha Valentina, que immediatamente tinha ido procurar ao collegio.

–Tu sahes já, já do collegio, minha filha–lhe diz Emilio da Cunha–para retomares, e nunca mais deixares, o teu lugar a meu lado.

–Que felicidade–exclamou Valentina toda alegre e folgazã–que vida socegada e feliz não vamos passar todos tres, não é assim meu querido pai, por que Roberto tambem vai para a nossa companhia?

–Roberto, morreu–respondeu Emilio da Cunha com rosto severo, e voz soturna.–Não quero que me falles mais n’elle, entendes Valentina?

Valentina admirada da resposta, ainda fez diversas perguntas a seu pai, mas a todas ellas não obteve outra [211] resposta, senão a completa prohibição de nunca mais lhe fallar em Roberto.

Ainda porém não tinha Emilio da Cunha soffrido todas as provações, que Deus lhe destinára. Haviam decorrido seis mezes desde que tinha chegado do Rio de Janeiro, quando recebeu a participação de que o procurador, que ficára encarregado da liquidação e arrecadação da herança, tinha cumprido a sua missão, mas que, depois de ter arrecadado a somma importante, que produzira a mesma herança, tinha desapparecido, sem que as pesquizas feitas para se descobrir o lugar de seu refugio, tivessem dado o desejado resultado.

Emilio da Cunha ficou completamente arruinado por este facto, porque, impaciente por satisfazer os credores de seu irmão, pai de Roberto, tinha vendido tudo o que possuia em Portugal.

O golpe foi forte, mas ainda assim não o foi bastante para poder subjugar a coragem do bom e respeitavel velho, mostrando-se Valentina n’esta conjunctura, digna filha d’um tal pai.

Renunciando heroicamente ás commodidades da vida, em que até então tinham vivido, foram habitar, em um bairro mais afastado da cidade, uma pequena casa, na qual soffreram privações diarias e penosas, tratando sempre d’obter alguns recursos para a sua subsistencia, mesmo em trabalhos mal retribuidos.

Valentina, que Deus tinha dotado de bom gosto, e bastante habilidade, principiou a trabalhar para uma modista, a qual satisfeita com os seus primeiros trabalhos, lh’os deu em seguida mais delicados e por isso melhor retribuidos, o que foi para elles uma grande felicidade, e que assim lhes proporcionou meios licitos de pagarem regularmente o seu aluguel, e de já não receiarem tanto nem o frio, nem a fome.

Valentina ia entregar a sua obra á modista, a qual satisfeita com ella lhe dava sempre mais, e muitas vezes [212] mais do que a que ella podia fazer. A uma crise terrivel tinha-se seguido uma abastança mediocre, que era por isso uma felicidade mais agradavel e estimada.

Decorreram assim dous annos.

Um dia, em que Valentina estava só, lhe entregou o carteiro uma carta, e qual não foi a sua surpreza quando reconheceu a letra de seu primo.

Roberto contava n’esta carta tudo o que tinha passado, desde o momento em que o vimos no hotel em Lisboa preparando-se para escamotear seu tio. Fulminado pela vista d’Emilio da Cunha tinha recobrado os sentidos para na fuga se salvar ás imprecações d’indignação do velho. Chegou offegante ao Terreiro do Paço, onde se sentou, ou melhor se deixou cahir n’um dos assentos de pedra, que alli se acham, e assim esteve por muito tempo, com a cabeça escondida entre as mãos, mergulhado em acerbas e crueis reflexões.

Experimentou ou sentiu dentro em si uma completa revolução; o seu procedimento indigno e infame se lhe apresentou em toda a sua nudez e hediondez; teve horror de si mesmo e por um instante pensou em suicidar-se; mas com o arrependimento entraram-lhe no coração sentimentos mais generosos. Lembrou-se que, tendo d’ora avante uma conducta honrosa e illibada, ainda poderia chegar a fazer esquecer os seus erros passados, e reanimado por esta feliz lembrança, que o seu anjo bom lhe tinha suggerido, levantou-se resoluto a trabalhar para a sua rehabilitação, e a não descançar sem a ter chegado a alcançar.

A occasião favoravel não se fez esperar muito, por que um capitão d’um navio mercante, que estava apparelhando para a California, lhe concedeu passagem gratuita, mediante os seus serviços e o seu trabalho na viagem.

Aportou Roberto á California e sorrindo-lhe a fortuna, em lugar de se embrenhar no jogo, arriscando assim [213] as suas economias, fundou um estabelecimento, que ia prosperando, faltando unicamente para a sua felicidade se tornar completa, o obter o perdão de seu tio, e a esperança de poder tornar a vêr sua prima, cuja imagem tinha constantemente na idéa, e o sustentava e animava n’esta nova estrada de trabalho e ordem, de que não pensava mais em se desviar.

Eis aqui em resumo o que continha a carta que Roberto dirigiu a sua prima.

Valentina muito commovida, mas gostosa e alegre por ter de dar tão grata noticia a seu querido pai, esperava anciosa a sua volta.

Mal lhe deu tempo de sentar-se, ia logo a contar-lhe o succedido, mas, Emilio da Cunha a deteve, apenas tinha pronunciado a primeira palavra. Valentina insistiu, mas o velho levantou-se com a maldição nos labios; ella lançou-se-lhe de joelhos aos pés, chorou, supplicou, mas elle a tudo ficou impassivel e inflexivel.

Valentina consternada respondeu á carta de seu primo descrevendo-lhe o succedido, e a inutilidade de seus esforços; mas para o não desanimar promettia-lhe de os renovar, e que os repetiria até que chegasse a mover seu pai á commiseração e piedade, de que não desesperava. A carta continha tambem a descripção de todos os successos, que se tinham dado desde que Roberto tinha desapparecido; a decadencia de Emilio da Cunha, a pobresa em que tinham vivido em quanto que o seu trabalho mal retribuido lhe dava parcos meios de subsistencia, e o melhoramento de sua posição, finalmente continha tambem algumas palavras d’exhortação e amisade.

A situação de Emilio da Cunha e sua filha soffreu, passado algum tempo, uma modificação muito mais inesperada, do que a que se havia seguido ao aniquilamento da sua fortuna.

Emilio da Cunha foi chamado a casa d’um capitalista, aonde lhe entregaram 20 contos de reis de que um anonymo [214] lhe mandava dar posse a titulo de restituição. D’onde tinha vindo este dinheiro?

Emilio da Cunha pensou muito naturalmente, que o procurador que o tinha roubado, mortificado pelo remorso, e querendo socegar um pouco a sua consciencia, lhe tinha mandado entregar aquella quantia, como uma parte da restituição, que lhe tinha a fazer. Valentina estava muito longe de concordar com a opinião de seu pai, mas nem por isso teve a franqueza de lh’o declarar, nem lhe dar a entender qual era a sua.

Qual das duas opiniões era a verdadeira, é o que nos não importa saber, o que se sabe é que a abastança ou decencia tinha reentrado em casa d’Emilio da Cunha, e as idéas do digno e honrado velho, foram-se tornando mais brandas sob a influencia do bem-estar.

Foi elle proprio que em um dia fallou primeiro a Valentina em seu primo Roberto, e ella não perdendo esta occasião tão propicia, que se lhe offerecia, advogou por muito tempo, com calor e eloquencia, a causa de seu primo. Emilio da Cunha deixou-a fallar como e todo o tempo que ella quiz, sem lhe dar a mais pequena resposta, nem lhe replicar a cousa alguma.

Estaria ou não convencido?

A pergunta não tinha muito facil resposta, mas pelo menos tinha ouvido sem colera e com socego as allegações a favor de seu sobrinho, o que já era um bom indicio da mudança que n’elle se havia operado.

Valentina, contente e satisfeita com o resultado do seu primeiro commettimento, escreveu immediatamente a seu primo informando-o do que havia, e a esta carta seguiram-se outras muitas, noticiando-lhe sempre algum novo passo dado na estrada da reconciliação.

Aconteceu um dia que Emilio da Cunha, no meio d’uma conversa, que tinha seguido n’um objecto mui diverso, parasse precipitadamente para dizer a sua filha:

[215]

–Tu acreditas sinceramente no arrependimento de teu primo?

–Oh! sim, meu pai–se apressou em responder Valentina.

–Queira Deus que te não enganes.

Um outro dia acordou d’uma pequena sesta, que se tinha seguido ao jantar, gritando, como se continuasse uma conversa começada:

–Ah! se Roberto estivesse arrependido realmente, como tu o suppões, com que prazer e alegria……..

Não terminou a phrase, mas a expressão benevola da physionomia de Emilio da Cunha indicou a Valentina o complemento da idéa.

Isto foi objecto para uma ultima carta a Roberto, a que elle respondeu, e fechou-se a correspondencia.

Uma manhã Emilio da Cunha achava-se com Valentina em uma pequena, mas elegante sala, que deitava sobre o jardim–por que elles tinham deixado a sua pobre morada, trocando-a por outra mais decente–Emilio da Cunha sentado junto d’uma mesa, sobre a qual se achava uma magnifica jarra de flôres, olhava sorrindo para Valentina, que, de pé, junto d’um açafate em que estavam dous pombinhos, reprehendia, acariciando-o, um d’elles:

–Eis-te aqui, meu bello fugitivo–lhe dizia ella–pensavas que era só voltar para te ser concedido o perdão, depois de me teres feito soffrer com a tua ausencia e ingratidão? Muito bem; visto que o teu regresso prova um arrependimento sincero, perdôo com prazer; não é assim, paisinho–acrescentou ella com voz meiga e levantando os lindos olhos com uma expressão de candura para Emilio da Cunha–que se devem receber os filhos prodigos, que regressam arrependidos e contrictos?

Emilio da Cunha não deu uma palavra, mas rolou-lhe uma lagrima sobre a face.

[216]

N’este momento surprehendeu elle um olhar d’intelligencia, que Valentina dirigia a alguem, que estava pelo lado detraz da cadeira em que estava sentado. Voltou-se rapidamente, e soltando um grito, ouviu-se o nome de Roberto.

Era Roberto realmente. A scena que se seguiu o meu caro visinho melhor a poderá imaginar, do que eu pintar-lh’a, ou descrever-lh’a.

Roberto voltava honrado e rico. Julgo que já comprehendeu que, para soccorrer seu tio, elle concebeu e executou o plano da restituição.

  1. Mafalda calou-se. Parecia esperar, que eu, convencido pela sua historia, sanccionasse com o meu voto a doutrina, que ella tinha expendido antes de começar.

–Ah!–lhe disse eu com admiração sincera–v. exc.ª podia facilmente escrever um romance.

–Isso quer dizer que me faz a honra de julgar esta minha historia como producção da minha imaginação e phantasia?

Limitei-me a inclinar-me respeitosamenie, e aqui terminou a nossa discussão.

No dia seguinte D. Mafalda offereceu-se para me apresentar a um seu sobrinho, proprietario d’um estabelecimento industrial importante nos suburbios do Porto. Aceitei gostosa e promptamente. Fui recebido com extrema bondade e franqueza. O sobrinho de D. Mafalda gosava uma felicidade digna de ser invejada; era casado com uma mulher, que era um anjo de belleza e bondade, e tinha um filho o mais lindo e traquinas que se póde imaginar; o seu estabelecimento florescia e prosperava; o seu nome figurava entre os principaes e os mais honrados do mundo commercial e industrial, n’uma palavra nada faltava á sua gloria, fortuna, e felicidade domestica.

–Que pensa de meu sobrinho?–me perguntou D. Mafalda, quando nos retiramos.

[217]

–Ah! minha senhora, nada mais ambiciono do que poder imital-o.

–Pois aquelle que viu é o Roberto da minha historia.

Recolhi-me a casa fazendo para mim as seguintes reflexões: Que a regeneração do homem pelo arrependimento não é utopia, e que a sociedade e a sua organisação é que são as causas principaes, que occasionam que muitos de seus membros não se regenerem, por lhe embargarem ou matarem logo algumas centelhas de virtude, que ainda tinham no coração.

Pensem, e verão o corollario que tiram.

FIM.

Nota do transcritor:

A edição da obra aqui transcrita foi publicada em 1863 num volume que continha 3 romances denominados: Annos de Prosa, A Gratidão e O Arrependimento.

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The Project Gutenberg EBook of O Arrependimento, by Camilo Castelo Branco

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Title: O Arrependimento

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: November 6, 2007 [EBook #23346]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search)

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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