Trickle down ou trickle up eis a questão. E qual tem sido a opção? Parte II – 16. Como o “índice do medo” de Wall Street está a ser manipulado, de acordo com um denunciante. Por Mark Decambre  e Francine McKenna 

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

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 Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte II – 16. Como o “índice do medo” de Wall Street está a ser manipulado, de acordo com um denunciante

Por Mark Decambre Mark Decambre texto 15 parte II e Francine McKenna Francine MacKenna texto 16 parte II

Publicado por Parte II texto 15 Market Watch em 14 de fevereiro de 2018

CBOE diz que a carta do denunciante está cheia de afirmações imprecisas.

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Os produtos VIX do Cboe são o alvo de um denunciante Getty Images

Uma das medidas mais populares de volatilidade está a ser manipulada, declara uma pessoa que enviou uma carta anonimamente à Securities and Exchange Commission e à Commodity Futures Trading Commission.

A carta defende junto dos reguladores que as cotações falsas para o índice S&P 500 SPX, + 0,04% são níveis distorcidos do Índice de Volatilidade Cboe VIX, + 1,73%, índice este que reflete opções de baixa e alta colocadas para os 30 dias no futuro no S & P 500 para avaliar a volatilidade implícita no mercado de ações (ver abaixo excerto da carta).

A falha permite que as empresas nestes mercados com algoritmos sofisticados movam o VIX para cima ou para baixo simplesmente publicando cotações em opções de S&P e sem necessidade de se envolver fisicamente em qualquer negociação ou aplicação de qualquer capital. Essa manipulação de mercado levou a múltiplos milhares de milhões de lucros efetivamente obtidos dos investidores institucionais e de investidores a retalho e embolsados por “criadores de mercado” de opções eletrónicas, criadores esses que têm falta de ética.

As alegações do denunciante são consistentes com as teses documentadas por John Griffin, professor de finanças da Universidade do Texas e do candidato a Ph.D. Amin Shams em maio de 2017, num trabalho de pesquisa em que diz que o custo de manipular opções de SPX menos líquidas seria mais que compensado quando se faz uma aposta bem-sucedida na direção do VIX. O documento é consistente com a conclusão do denunciante – que os manipuladores manipulam os preços das opções SPX por meio de ordem de compra ou de venda anulada imediatamente a seguir por uma ordem de sentido contrário, prática dita de spoofing – inserindo cotações para ordens que nunca são executadas – para “pintar o quadro ” e, portanto, influenciar o valor dos derivados VIX a expirarem.

O VIX tem sustentado uma série de estratégias descritas como a chamada baixa volatilidade, que implodiu dramaticamente na última segunda-feira, quando o VIX, também conhecido como barómetro de medo em Wall Street, registou a maior variação percentual da sua história, fazendo colapsar apostas de que as medidas de volatilidade seriam reduzidas, se é que não silenciadas.

Os produtos de baixa volatilidade caíram a pique, nomeadamente o produto financeiro VelocityShares Daily Inverse VIX Short Term ETN XIV, que caiu 90% no mercado após algumas horas de negociação no dia 5 de fevereiro com o Dow Jones Industrial Averaged DJIA, a cair 1.175 pontos, ou 4,6%, marcando historicamente a sua descida mais acentuada ao longo de 121 anos do barómetro sobre as blue chip, ou seja relativo às empresas de evolução estável, e que geralmente está em sintonia com a evolução da economia. Outro produto financeiro, o fundo negociado em bolsa ProShares Short VIX Short-Term Futures ETF SVXY, conhecido por seu ticker SVXY, também se afundou na semana passada.

Credit Suisse, proprietário do VelocityShares Daily, ou XIV, disse que planeava liquidar o produto a 21 de fevereiro.

A direção espetacularmente errada das vendas a descoberto tornou-se um dos negócios mais populares em Wall Street, porque a volatilidade tinha ficado estranhamente ausente dos mercados financeiros por um período prolongado, e isto incentivou os investidores, que lamentavam as apertadas margens de ganhos verificadas durante esse período de mercados calmos, a fazerem apostas mais agressivas de modo a gerarem vultosos lucros. Esses movimentos também se verificaram num período de taxas de juro ultrabaixas para os títulos de dívida publica americana, particularmente, os títulos do Tesouro a 10 anos TMUBMUSD10Y.

Jason Zuckerman, advogado na sociedade Zuckerman Law, que representa o denunciante anónimo, disse à MarketWatch que seu cliente está preocupado com os mercados injustos.

O meu cliente está preocupado com a manipulação VIX que já levou os investidores a sofrer perdas massivas e está ansioso para evitar novos danos dos investidores“, disse Zuckerman.

O denunciante gostaria igualmente que os reguladores do mercado desempenhem um papel mais ativo na prevenção de novos danos aos investidores, incluindo a exigência de divulgações dos produtos mais precisas e abrangentes sobre os vários riscos associados aos produtos ligados ao VIX “, disse ele.

A carta exorta “a SEC e CFTC a investigarem prontamente o assunto antes que os investidores sofram perdas adicionais devido a essa fraude“.

O denunciante da Zuckerman ainda avança que o investidor médio de retalho não está ciente de como os produtos negociados em bolsa como o XIV são reequilibrados diariamente e que um “desajustamento” na natureza dos produtos de baixa volatilidade significa que “um movimento maior na volatilidade no mercado á vista nos dois sentidos exige uma pressão excessiva na compra ou na venda sempre que os ativos de volatilidade de curto prazo sejam dominantes“.

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Fonte: Zuckerman Law

 

Um erro que os participantes do mercado apontaram é que Zuckerman e o seu cliente, em dada altura na carta, referem-se ao CME Group Inc., mais do que ao Cboe Global Markets Inc., que supervisiona o produto VIX.

Esta carta está repleta de declarações imprecisas, equívocos e erros factuais, incluindo um mal-entendido fundamental sobre o relacionamento entre o índice VIX, os futuros VIX e os produtos negociados na base da volatilidade de curto prazo, entre outras coisas“, disse uma porta-voz da Cboe em comunicado.

As mensagens enviadas para a SEC e a CFTC não foram devolvidas imediatamente.

A texto de denúncia também ocorre a meio de uma vigilância acrescida sobre os produtos VIX, e o ex-Comissário da CFTC, Bart Chilton, que disse à MarketWatch que os avisos sobre produtos tais como o XIV devem ser escritos em “letra grande, a bold de 24 pontos e em letras vermelhas“.

Um comunicado de imprensa do Cboe disse que a semana de 5 de fevereiro a 9 de fevereiro foi a semana mais movimentada na história das bolsas, com um registo semanal recorde de 48,29 milhões de contratos negociados. No entanto, as ações da Cboe, que se fundiram com a Bats Global Markets no ano passado, perderam 20% na semana passada quando, após o caos do mercado, se lançaram dúvidas sobre se esses produtos continuariam a ser escolhas viáveis para os operadores.

Os executivos da CBOE estão confiantes de que o seu produto VIX continuará a funcionar bem em todas as condições do mercado. John Deters, diretor de estratégia da CBOE, disse aos analistas: “É realmente um evento excecional quando o nível de VIX aumenta e duplica em apenas alguns dias. Isso ocorreu e agora estamos numa altura em que – e os profissionais sabem disso – a estratégia VIX de volatilidade de curto prazo tende a funcionar muito bem“.

O presidente e diretor executivo do CBOE, Edward Tilly, refutou as preocupações sobre o impacto dos problemas em alguns produtos negociados em bolsa e acrescentou que a bolsa registou um volume de negociação recorde nos futuros e opções VIX em 2017. “A atividade a que assistimos pela parte dos emitentes de XIV e SVXY é menor do que 5% de todas as negociações de futuros VIX, representando um volume médio diário de cerca de 12 mil contratos “, disse Trilly. Os detentores não institucionais desses ETPs foram aproximadamente 21% dos ativos totais do último período reportado, disse ele, com o restante a ser composto por “utilizadores institucionais sofisticados que empregam ETP VIX inversas como parte de uma combinação diversificada de estratégias de negociação e de investimento“.

 

Mark DeCambre, Market Watch, How Wall Street’s ‘fear gauge’ is being rigged, according to one whistleblower. Texto disponível em:

https://www.marketwatch.com/story/how-wall-streets-fear-gauge-is-being-rigged-according-to-one-whistleblower-2018-02-13

  • Mark Decambre: editor de Market Watch, licenciado em Psicologia pela Universidade Saint Lawrence, NY
  • Francine McKenna: repórter de Market Watch em Washington DC, Certified Public Accountant.

 

 

 

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