Trickle down ou trickle up eis a questão. E qual tem sido a opção? Parte II – 23. O crescimento dos produtos ETF “está em risco de devorar o capitalismo” Por Robin Wigglesworth

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

Imagem 2 Trickle-Down CADILLAC

 Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte II – 23. O crescimento dos produtos ETF “está em risco de devorar o capitalismo”

Por Robin Wigglesworth  Robin Wigglesworth texto 23 parte II

Publicado por Financial Times em 5 de fevereiro de 2018 e republicado por Gonzalo Raffo Infonews.com

O aumento dos veículos de investimento passivos está a reconfigurar o setor financeiro

Trickle down Parte II Texto 23 1

© Cat O’Neil

Na primavera passada, algo estranho aconteceu com uma série de pequenas minas de ouro dos EUA. As suas ações declinaram de forma inesperada, apesar do preço do brilhante metal ter alcançado o seu nível mais elevado em cinco meses, na época.

As quebras nas ações não foram causadas por nenhum dos motivos habituais, tais como declarações de lucros fracos ou pela existência de sinais de um menor desejo de ouro por parte da socialite de Nova York, noivas indianas ou aforradores chineses.  Em vez disso, os preços caíram por causa da crescente importância dos fundos de índices negociados na bolsa [ETFs ou rastreadores de índices].

Estes estranhos tumultos no preço das ações de algumas empresas mineiras de ouro são um exemplo subestimado, mas potente, de como os ETFs estão a ter um impacto crescente, e às vezes inesperado, nos mercados, mesmo que eles poupem aos investidores em todo o mundo milhares de milhões de dólares em honorários que, caso contrário, iriam para os tradicionais gestores de fundos.

Os ETFs são veículos de investimento passivos que combinam o baixo custo dos rastreadores de índices, que simplesmente tentam reproduzir os retornos de um ativo de referência que lhe está subjacente, com  a facilidade de negociação e de comodidade de uma ação normal.

No ano passado, os ETFs registaram um crescimento recorde e absorveram globalmente mais de US $ 460 mil milhões no mundo. Isso equivale a quase US $ 1,8 mil milhões de dinheiro fresco em cada dia útil do ano. Em 2018, o setor global de ETF quase certamente irá ultrapassar a marca de US $ 5 milhões de milhões como valor total dos fundos investidos.

Trickle down Parte II Texto 23 2.jpg

Essa mudança relativamente à gestão tradicional “ativa” do dinheiro é uma das mudanças mais profundas do sistema financeiro global na história e agora é suficientemente poderosa para refazer a forma como os mercados funcionam. Muitos grandes investidores estão preocupados com as implicações desta mudança.

“O investimento passivo está em risco de devorar o capitalismo”, afirmou Paul Singer, fundador da Elliott Management, um dos maiores hedge funds do mundo, numa carta dirigida aos investidores no ano passado. “O que pode ter sido uma ideia inteligente à partida tornou-se uma bolha que é destrutiva para as perspetivas de crescimento e da criação de consenso do capitalismo de livre mercado“.

No caso das minas de ouro, era um único fundo, o VanEck Vectors Junior Gold Miners ETF, que estava a provocar os misteriosos movimentos de preços.

A sua popularidade significou que cresceu demasiado em relação com o índice que ele rastreou, contrariando os tetos regulatórios sobre quanto se pode ter de uma empresa. Assim, em abril do ano passado, a MVIS, empresa de índices da Van Eck, decidiu mudar a referência subjacente – quase duplicando o valor de mercado das sociedades auríferas nas quais estava autorizado a investir. Isso levou outros operadores dos mercados financeiros a antecipar que algumas empresas abandonariam o índice, levando as suas ações à baixa.

Embora tenha afetado apenas uma pequena parte dos mercados financeiros e tenha passado em grande parte desapercebido até ao momento, o evento é um exemplo poderoso de como o aumento dos ETFs não apenas desafia os gestores de ativos tradicionais, como também começa a reconfigurar os mercados de maneira ainda tímida mas profunda. O mercado de ações dos EUA é o mais avançado neste mês de março em relação ao investimento passivo, mas quase todos os mercados estão a passar por uma revolução silenciosa.

Nós já não podemos mais continuar a ser os investidores de fundamentais que queremos ser“, queixa-se Federico Kaune, chefe dos mercados emergentes de rendimento fixo na UBS Global Asset Management. Além do habitual conjunto de dados macroeconómicos, ele agora controla diariamente os fluxos de entrada e saída de ETFs – uma necessidade absoluta na era do investimento passivo. “Isto mudou drasticamente o tecido dos mercados, sem dúvida“, argumenta ele.

Estas preocupações têm crescido já há algum tempo. Mas, durante o ano passado, o debate alargou-se em paralelo com os fluxos recordes de ETF.

Os reguladores também estão a examinar mais de perto alguns dos desafios criados por este crescimento. Em setembro, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos organizou uma conferência de um dia sobre ETFs, onde vários académicos, analistas, reguladores, advogados e investidores analisaram os seus efeitos nos mercados financeiros.

Por exemplo, Itzhak Ben-David, professor de finanças da Universidade Estadual de Ohio, mostrou que quando uma empresa se associa a um índice importante, a sua participação no ETF e a sua volatilidade aumentam, e quando deixa o índice a sua participação na ETF e a volatilidade diminui. “Ninguém duvida que [o produto ETF] seja uma grande inovação, mas, ao mesmo tempo, poderá ter consequências não desejadas“, disse o prof. Ben-David na conferência.

Naquele que é talvez o ataque mais destacado sobre o investimento passivo, Inigo Fraser-Jenkins, analista sénior da área de investigação de [Alliance] Bernstein, enviou uma nota aos clientes em 2016 argumentando que os produtos ETF eram “uma coisa pior que o marxismo“, já que os comunistas pelo menos tentavam alocar o capital de forma eficiente. As reações no setor do investimento passivo foram previsivelmente desdenhosas.

Eu diria que os consumidores que escolhem os melhores produtos a um preço mais barato são a própria essência do capitalismo“, diz Jim Rowley, estratega sénior de investimentos da Vanguard

Rowley diz que ele e os seus colegas examinaram exaustivamente se os ETFs estão a afetar a estrutura dos mercados, a influenciarem as correlações e a volatilidade, e concluíram que não há aí nada de impróprio, muito menos de perverso. “Quaisquer mudanças têm mais a ver com tendências de negócios do que com as tendências dos mercados de capitais“, argumenta.

Houve momentos em que os ETFs estiveram no centro de alguma turbulência. Em 24 de agosto de 2015, os mercados foram atirados para uma queda em espiral devido aos receios relativamente à economia chinesa, com a agitação a ser exacerbada com a negociação caótica de muitos ETFs. “Esse foi um dia muito mau, não haja dúvidas quanto a isso“, admite Jim Ross, presidente do State Street’s SPDR, empresa de exchange traded funds.

A indústria reuniu-se com criadores de mercado e das bolsas para resolver a maioria dos problemas técnicos levantados pelo tumulto, mas Ross continua preocupado pois considera que a questão pode muito provavelmente repetir-se. “Nós temos feito muitas coisas desde então, mas algum dia acabaremos por vir a ter um outro evento como esse“, diz ele.

No entanto, embora a indústria ETF se tenha resignado a ser acusada por futuros acidentes de mercado, há poucas evidências de que seja a principal causa de turbulência e há poucos exemplos de ETFs que agravem significativamente a venda massiva ou ao deabarato.

De facto, a experiência de correlação no seio dos índices bolsistas é um bom exemplo de como uma crítica importante do investimento passivo recentemente provou ser errada.

Na era que se seguiu à crise financeira, as ações individuais começaram a expandir-se cada vez mais em paralelo, frustrando gerentes de fundos que dependem de movimentos idiossincráticos para ultrapassar os seus valores de referência. A culpa foi atribuída à flexibilização monetária agressiva dos bancos centrais e ao aumento dos ETFs. No entanto, as correlações reverteram-se no ano passado – apesar do dinheiro ainda rolar para esses fundos.

Os tradicionais fundos de cobertura e os gestores de fundos mútuos – e analistas que dependem dos seus negócios – consideram que as falhas com ETFs e investimentos passivos são compreensíveis e naturais. Grande parte do dinheiro entrado no setor evaporou-se dos fundos ativos, levando a uma pressão apertada sobre os seus honorários.

O índice médio de despesa líquida de fundos de investimento em ações dos Estados Unidos caiu para 1,13 por cento no ano passado, em comparação com 1,44 por cento em 2000, de acordo com a Morningstar, fornecedora de dados. A concorrência dos ETFs tem sido menos intensa na área de rendimentos fixos, mas agora está a aumentar, diminuindo o custo médio de administrar fundos de obrigações dos EUA de 1,14 por cento para 0,91 por cento em 2017.

Os ETFs, portanto, levaram os investidores a economizar muitos milhares de milhões de dólares, tanto direta quanto indiretamente, através das pressões de preços que colocaram sobre os tradicionais gestores de ativos.

Isso não quer dizer que a própria indústria ETF esteja numa posição universalmente confortável. Uma guerra crescente sobre os preços está a reduzir as margens e, com a maior parte do dinheiro que flui para os “três grandes” – BlackRock, Vanguard e State Street – muitos fornecedores deverão ter de fechar os fundos que não conseguem reunir ativos suficientes.

Os gestores de ativos também gozaram de um aumento nos seus resultados e honorários mais baixos tornam muitos fundos mútuos mais atraentes para os investidores interessados em tentar fazer melhor do que os seus ativos de referência.

No entanto, poucos seriam suficientemente temerários para apostar contra a indústria ETF aproveitando outro ano de registos recordes.

 

Texto em ETF GROWTH IS “IN DANGER OF DEVOURING CAPITALISM” / THE FINANCIAL TIMES

 

Robin Wigglesworth: editor do Financial Times para os mercados dos EUA. Foi diretor adjunto de FastFT e trabalhou na Bloomberg News. Estudou jornalismo e ciência política na City University e na London School of Economics.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: