A GALIZA COMO TAREFA – lerrouxismo 2.0 – Ernesto V. Souza

Não sei se já ouviram falar de Albert Rivera, essa personagem do mundo político espanhol, encaixado a meio caminho entre o showman à moda que desenham e ditam as grandes empresas de publicidade e o mais rançoso figurante do parlamentarismo crepuscular das crónicas famosas de Wenceslao Fernández Flórez.

O protagonista apresentou-se fogosamente, na Catalunha, com o início do milênio: renovador de metáforas, imaginativo em oratória e declarando-se um adail heroico contra a corrupção, o nepotismo e o abuso do nacionalismo catalão e, também como um lutador necessário contra a decadência da política rotativista dos grandes partidos e  cruzado na renovação da política espanhola.

Consagrado nos platôs televisivos na incansável procura de um espaço político novo (demandado por certo capital que procura degorante uma reativação económica com agilização de demandas, reformas e ações económicas e de um eleitorado canso do enquadramento clientelar dos Partidos do sistema) foi popularizado como um produto regenerador pelos mass média; e conforme os votos e expectativas de sucesso chamavam a aumentar a aposta, passou a se comercializar em todo o território espanhol.

Nesse caminho cara o sucesso, inapelável hoje, mas ainda impensável em 2014, foi mudando o discurso desde um centro progressista, anticalanista e moderno de quando ia em 2006 espido nos cartazes, à extrema direita neo-con, nacionalista e ultra-centralista, con Macron e Macri de referentes estéticos.

Demagógico de desenho e com uma evolução cada vez mais evidente na procura do destinatário alvo da mensagem: homem, maduro, conservador, patriota. Resulta interessante a mutação, não apenas de mensagem e discurso, até de nome, de um partido em origem criado à contra e para o particular espaço político da Catalunha.

Quanto mais dura a crise económica e se prolonga o declive do sistema parlamentar da última transição, e segundo passam os meses, mais e mais claro parece que o projeto político antes Ciutadans, hoje Ciudadanos, de Albert Rivera, não é mais que um lerrouxismo. Esta vez mas à direita, dado que o espaço na esquerda republicana, já estava ocupado e dado que a baixa classe média que medrara exponencialmente desde os 80 é a mais golpeada pela crise.

Não sou eu apenas quem hoje descobre, já há tempos que o tópico circula por aí (umas vezes para descrever Podemos e Iglesias, mas as mais delas perfilando Ciudadanos). E não digam que não tem um pontinho com aquele primeiro lerrouxismo, o dos anos 1900 a 1923, sem a épica rebelde ganhada contra a monarquia decadente (1917-29) e antes do funambulismo republicano posterior (1931-36).

A semelhança entre o Senhor de Tabárnia e o Imperador do Paralelo, é fascinante. Ambos intuíram que havia um espaço indefinido e transversal desocupado, entre as tensões e lutas de classes da crise económica e os conflitos pelas  identidades nacionais, na Catalunha, e que não se encontrava representado, numa complexa política espanhola definida nas últimas décadas pela alternância PP-PSOE, moderados pelos partidos nacionalistas das periferias.

O contexto dos últimos 5 anos invitou a largar o partido fora da Catalunha, encontrando esse mesmo espaço, realimentado pelo anticatalanismo e sedutor aos interesses dos grandes grupos económicos bloqueados nas suas aspirações pela lentidão e blindagem do sistema político, no resto da sociedade espanhola.

Lerroux 01

Foto em Navarro, Emilio : Historia crítica de los hombres del Republicanismo catalán en la última década (1904-1914), Barcelona: ortega & artís, 1915.

Seguindo Álvarez Junco, na origem, Lerroux, o homem-partido, em Barcelona, soubera capitalizar o sentimento anticatalanista existente em alguns setores da sociedade. Ganhando um discurso republicano de concentração, iberista, primeiro revolucionário, depois reformista, sempre incoerente e fantasioso de ideias, objetivos e propósitos, converteu-se numa figura central, com grupo político próprio – sob diferentes nomes e aliados – arredor dele entre 1906 e 1923 e desde 1929, após do exílio, até o afundamento de fevereiro de 1936.

A ferramenta principal da personagem era o discurso sem programa, mas repleto de vibrante linguagem de ação e o efetismo e oportunismo dos seus discursos públicos e aparições. Apoiado por uma forte rede de jornais e propaganda, o projeto reuniu o setor do republicanismo, liberal e conservador de caráter mais centralista e nacionalista unitário.

Com mensagens anticlericais, anticatalanistas e apelos obreiristas (mas enfrontados ao anarquismo), conseguira sair deputado nas eleições de 1901 por Barcelona. O sucesso da Solidaritat Catalana (1906), provocaria a exaltação do espanholismo, que lhe rendaria mais apoios e a separação com o republicanismo federalista mais achegado ao catalanismo.

Na Unión Republicana, primeiro, e depois, já num espaço espanhol de amplos setores da classe média reformista e bloqueada pela política caciquil e fechada da Restauração no Partido Republicano Radical (1908), foi capaz de capitalizar, na sua pessoa e oratória de agitador, durante décadas boa parte do voto, com a sua capacidade de atrair as massas operárias e classe média emergente com essa mensagem contra o catalanismo da Lliga e sucessores, acusando-o de ser um movimento orquestrado por e para os patronos e a Igreja manterem os seus privilégios e o controlo numa sociedade pre-moderna.

Perdendo votos obreiros e depois da Semana Trágica (1909), Lerroux e o Partido Republicano Radical irão derivando na procura dos votos de classe media. A partir de 1910, conseguidos os seus réditos eleitorais no ámbito estatal, foi moderando o discurso obreirista e acentuando o antimonárquico, contra a corrupção e o parlamentarismo turnista e a ditadura, que se espalhou, incluindo uma variopinta rede de personagens oportunistas, aventureiros e pessoas de ordem, por todo o estado.

Marcado pela corrupção da sua rede e por casos particulares porém foi várias vezes capaz de concentrar alguns dos principais setores do Republicanismo mais jacobino e do conservador, soube tirar partido da perseguição do anarquismo, do catalanismo e especialmente da perseguição da Monarquia e da Ditadura de Primo de Rivera, colaborando na queda desta e participando no Pacto de San Sebastião, e sendo representante da Alianza Republicana à par de Azaña, colocou-se numa posição em destaque na aposta Republicana.

Martínez Barrio & Alejandro Lerroux, por Luis Seoane (SER 9, 26-5-1935)

Em consequência Lerroux foi uma figura fundamental nos pactos presidenciais, nas constituintes de 1931 e destacadamente na conformação do Governo das direitas no involucionista segundo bienio da II República.

Fase esta do “bienio negro”, com um “don Ale” já veterano e de cabelos brancos após toda uma vida na mesma política contra a que se apresentara juramentado para combater. Momento que tantas páginas, comentários e caricaturas deixou na imprensa e nas revistas galegas de esquerda (nomeadamente em Claridad 1933-34 e Ser 1935-36).

Ver veremos, e talvez até vejamos a Rivera envelhecer também nos confortáveis bancos parlamentares da política espanhola, entre escândalos midiáticos, polêmicas revezadoras e casos curiosos de corrupção próprios de um partido oportunista, que o tempo vai passando célere.

Mas pelo momento, o engraçado deste novo lerrouxismo, no solpor também desta outra Restauração, na Galiza, é que como naquele passado, arrasta também personagens e grupos que nascidos “contra” e alimentados no calor de um empresariado a quem lhe sobram as leis e o estado social, procuram há tempos um espaço dentro de um quadro tão fechado (e pragmático negócio) como é a cultura política galega.

w-fernandez-florez-impresiones-de-un-hombre-de-buena-fe 1

O cenário está interessantíssimo, mas não sabemos – carecemos do dom céltico da profecia – o que deparará o futuro: porém do que estamos seguros é que assistiremos nesta que termina, e na próxima década a seguir, a verdadeiras tardes de glória, fonte inesgotável para as crónicas do jornalismo parlamentar, nas Câmaras espanholas.

E enquanto aguardamos pelo futuro incerto, por essas crónicas audazes e também pela saída dos filhos das atividades extra-escolares, imos passando a tarde de primavera, ou a vida inteira, ao sol numa explanada, com uma cervejinha numa mão e a ler no primeiro volume das: Impresiones de un hombre de buena fe (1914-1919), Madrid : Espasa-Calpe, 1964.

One comment

  1. Abanhos

    Que bom.
    E que boa a companhia do Wenceslao Fernandes Flores… Ele também – lusista- ao seu jeitinho

    Gostar

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