CARTA DE BRAGA – “Uma letra bem-feitinha” – por ANTÓNIO OLIVEIRA

 

 

No mês que vem começam os exames!

Já não é preocupação minha, mas vejo e sinto aumentar a tensão, até em casa, por ver muita gente para quem Junho marca o início dessa época decisiva.

Há meia dúzia de dias, conversando com alguém que me é próximo, recordámos com carinho o professor Rabaça, o homem que me ensinou as primeiras letras e a quem devo o jeito, embora imperfeito, de ir ajeitando e alinhando letras, os significados e os sentidos das palavras que me ensinou a respeitar e a amar.

Comecei a escrevê-las na lousa (hoje e felizmente, já ninguém sabe o que isso é nem para que serve) depois passei para o caderno de duas linhas mas, se nunca as consegui desenhar como ele queria, acabei por alcançar uns sorrisos quando me lia as redacções.

Então (sem questionar a bondade dos tempos!) também me chegava a palmatória à mão, se e quando se esquecia o valor da palavra respeito, por ele ou por algum dos que comigo se sentava naquelas carteiras (era assim que se chamavam!) de dois lugares, com um tinteiro para ir molhando o aparo na ponta do pauzinho afilado atrás, para escrever a tinta nas práticas mais cuidadas de alinhar palavras.

Olho o que se passa hoje, vejo os “escândalos” de alguns progenitores se um professor ousa algo que julgam magoar-lhes a descendência e invade-me uma enorme melancolia (sem questionar a bondade dos tempos!)

Mas também sei que então, a escola até servia, de algum modo, para aumentar o nível social e económico da gente que a conseguia frequentar e esse era o problema maior, poder ir à escola!

Agora as coisas mudaram e muito – tenho familiares recém-saídos das universidades e outros ainda no secundário – e tenho à frente as palavras do professor e filósofo italiano Nuccio Ordine, autor do ensaio “A utilidade do inútil” a salientar esta mesma mudança.

Ali se afirma que a universidade está em perigo, pela terrível loucura de fazerem do mercado a estrela polar que orienta todas as leis e reformas. E loucura porque, salienta, a origem etimológica da palavra escola é σχολή (scholé), fazer uma coisa que não é útil.

Era o tempo do homem livre, o tempo que não tinha a ver com negócios, com bens ou com lucros, estudava-se para ajudar a crescer, para o espírito! Hoje é como uma plataforma para formar jovens que sejam consumistas, para quererem sempre mais, o último!

Agora o dogma é o conformismo e o consumismo, a ideia de a quantidade ser melhor que a qualidade e, em Itália e para o ministério, se uma universidade matricula cem estudantes e, três anos depois, esses cem estudantes obtêm o curso, então essa é a melhor universidade de Itália! A burocracia cumpriu-se pela quantidade. Mas a qualidade da gente, ¿que sabem os estudantes?

Esta pergunta poderia ter sido feita pelo professor Rabaça. Andava entre as filas das carteiras (era assim que se chamavam!) para dois alunos, inclinando-se para um lado e para o outro e nós olhando-o de esguelha para ver se havia sorriso ou não, mas agora agradeço-lhe, lá onde estiver, as tentativas feitas e sempre goradas para que viesse a ter a letra bem feitinha! Só conseguiu fazer de mim um leitor que já nem vai conseguir ler tudo o que juntou!

António M. Oliveira

 

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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