TAMBÉM ME POSSO REVOLTAR por Luísa Lobão Moniz

No século XXI olhamos para as nossas crianças como seres frágeis que precisam de protecção e de quem as cuide e as defenda.

Todas as crianças crescem seguindo determinados estádios que lhes permitem avançar com segurança para o estádio seguinte, mais complexo.

Nenhuma criança consegue correr antes de ter aprendido a andar…

É fascinante ver uma criança tentar ultrapassar pequenas, grandes dificuldades de mobilidade física. Não ficam a olhar para uma pedra que lhe aparece pelo caminho: analisa o objecto e depois adapta o seu corpo e movimento para poder ultrapassar esse contratempo.

É claro que se aparecer alguém a dar-lhe a mão para a ajudar ela agradece, mas quantas vezes já vimos crianças contrariadas com essa ajuda, fazendo birras sempre mal entendidas pois ela estava a fazer uma aprendizagem sozinha sobre o domínio do equilíbrio, da força, da distância, da importância, ou não, de fazer aqueles difíceis movimentos.

Não são raras as vezes, que depois de concluir sozinho e com sucesso todo aquela luta contra um obstáculo, a criança olhe para os adultos com um ar de satisfação como a querer dizer deixem-me crescer.

A auto estima e a auto confiança começam a instalar-se e a formar crianças que saberão, melhor do que outras, ultrapassar os obstáculos, já não a pedrinha que estava no chão, mas as contrariedades da sua ainda curta vida.

 A criança gosta de partilhar os seus sucessos com os adultos como que a dizer “ vês eu sou capaz, quando precisar de ajuda eu digo”, mas deixem-me crescer a aprender qual o meu lugar no meio deste mundo que por vezes não entendo.

Porque hei-de ser o elo mais fraco na minha família se muitas vezes sou um factor de união entre os meus pais. O pior é que por vezes também penso que sou o culpado das desavenças entre os meus pais.

Se a criança consegue ter a sua auto estima e auto confiança fortes mais dificilmente se deixa ser maltratada.

A criança é uma heroína neste mundo que parece não estar feito para ela, pois os perigos espreitam a cada esquina e mesmo dentro da sua casa.

Porque chora a minha mãe, porque a minha tia fugiu de casa e agora dorme no sofá lá de casa? Porque o meu pai vem quase todos os dias bêbado para casa, porque bate na minha mãe, porque me ameaça, porque quer abusar de mim e quer comprar o meu silêncio?

Quando vou para a escola tenho medo de ser castigado pelos adultos, tenho medo dos colegas mais velhos que me chamam nomes.

ÁH! Estamo-nos a esquecer que eu também me posso revoltar e dizer basta e então partir para a violência!

Só a barbaridade dos adultos me pode fazer quebrar, porque ser batido e maltratado dói muito!

Eu, criança, vou aprendendo a defender-me: bato, fujo, insulto, ameaço, roubo.

Eu, criança, sofro e preciso de um colinho carinhoso que me faça sentir gente…

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