A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal. Carta aberta aos senhores Ministros da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, e da Economia, Caldeira Cabral – 2. Sobre o que possivelmente não se ensina de economia em nenhuma Universidade em Portugal, apesar da crise (Parte V – As vantagens comparadas, a concorrência mundial e os “paradoxos” do discurso neoliberal). Por Júlio Marques Mota

egoista

Carta aberta aos senhores Ministros da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, e da Economia, Caldeira Cabral

Um texto dedicado aos meus antigos alunos que tanto massacrei com fórmulas e gráficos ao longo de décadas, a todos os outros os que se interessem pelo ensino de Economia em Portugal.

 

2. Sobre o que possivelmente não se ensina de economia em nenhuma Universidade em Portugal, apesar da crise (Parte V – As vantagens comparadas, a concorrência mundial e os “paradoxos” do discurso neoliberal).

univ decadente 6

Por Júlio Marques Mota julio-marques-mota

em 7 de julho de 2018

Parte V – As vantagens comparadas, a concorrência mundial e os “paradoxos” do discurso neoliberal

 

Mas uma pergunta se nos levanta aqui: até onde é que pode descer o preço relativo do bem 2 ?

Vejamos com algum detalhe a resposta à pergunta agora formulada.

Retomemos os rácios das produtividades ou dos custos da China pós progresso técnico. As produtividades eram pois de δ1=1/20 no bem 1 (antes da abertura da economia a China) e de δ2= (8/10) no bem 2. A relação de preços internos é pois (1/20) p1= (8/10) p2. Daqui se tira (1/16) p1=p2.

No nosso estudo sobre elasticidades, à medida que a elasticidade da procura americana relativamente ao preço ia diminuindo o preço relativo do bem exportado pela China ia igualmente diminuindo.

Elasticidade

Preço relativo do bem 2

1

1/4

0,7

1/5

0,4

1/10

Até onde é que pode diminuir? Nas nossas aulas explicávamos que era quando o preço relativo internacional atingia o valor do novo preço relativo interno. No nosso caso de agora o preço relativo internacional do bem 2 não pode descer abaixo de (1/16). Aí todos os ganhos havidos pela parte da China com a passagem da economia fechada a economia aberta se esfumaram.

Vejamos então no quadro do nosso exemplo: A China exporta o bem 2. O seu preço é (1/16) e portanto o valor da sua produção vale 50 unidades e o rendimento do conjunto dos dois países vale 200+50. Ou seja, a China regressa ao rendimento que tinha enquanto economia fechada. A posição relativa da China em termos de rendimento vale agora apenas (1/5) do rendimento do conjunto e o rendimento dos Estados Unidos vale (4/5) do rendimento do conjunto. Nesta hipótese, e a este preço, a China consumiria 400 unidades do bem 2 e compraria com as restantes 400 unidades do bem 2 as 25 unidades do bem 1 importadas. Em contrapartida os Estados Unidos consumiriam 400 unidades do bem 2 importadas e 175 unidades do bem 1. Repare-se que a relação de troca internacional é a mesma que a relação de troca interna na China. Por esta razão, dir-se-á que deixaria de haver comércio internacional.

Contudo, no plano formal, e aceites todas as hipóteses subjacentes ao Teorema de Ricardo—Mill, não me parece ser uma via lógica pois se não ganha nada em estar no comércio internacional, também não se perde nada, depois do que já se terá perdido, e portanto, permanecer em economia aberta quando o preço relativo do bem 2 desce a este valor de (1/16) evitaria os custos de transformação da economia para economicamente ficar na mesma.

A conclusão a que aqui chegámos nas primeiras páginas do presente texto, refletindo um ensino que fazíamos há décadas, é, do ponto de vista da análise dos números, equivalente à que Samuelson chegou, com uma diferença de fundo: é que não aceitamos o modelo neoclássico nem o de Ricardo como explicação do comércio internacional. De resto, de forma subtil, o próprio Samuelson vai enumerando as hipóteses de que se parte. Ora, em vez de uma subtil crítica às hipóteses de um modelo que em termos gerais não contesta, nós preparávamos os estudantes para uma visão crítica aprofundada dessas mesmas hipóteses, o que pressuponha um razoável conhecimento da teoria do valor, sendo certo que nelas estavam contidas as hipóteses enumeradas por Samuelson.

Do texto de Paul Samuelson que temos estado a seguir ainda criámos em aulas uns exercícios práticos e algumas questões de exame, mas o resultado em exame foi trágico: a quase totalidade dos estudantes confundia média geométrica e média aritmética. Os estudantes começam a ter falta de memória para conceitos elementares como resultado de termos transformado, do ponto de vista das avaliações, as Universidades num liceu de segunda ordem, com sucessivas avaliações e avaliaçõezinhas, como no liceu, para diminuir o insucesso escolar, para melhorar as estatísticas, para melhorar o seu rating, como nas bolsas, afinal.

Até aqui, temos estado a acompanhar a análise que Samuelson faz sobre a contribuição do jovem Stuart Mill para a teoria do comércio internacional formulada por Ricardo. De resto, nesta parte da exposição estamos igualmente a fazer uma apresentação simplificada [17] do que foi a contribuição de Stuart Mill, mas em tudo muito semelhante à que se fazia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e que derivava exclusivamente do texto de Stuart Mill. Não se tratava, pelo nosso lado, de apresentar uma outra teoria, mas sim de sistematizar e unificar o que tínhamos aprendido ao longo dos anos sobre estas matérias, e por isso tratava-se nas nossas aulas de analisar criticamente um texto, uma contribuição feita no século XIX por um jovem com pouco mais de 20 anos, John Stuart Mill [18]. Um texto impregnado da ideologia dominante na época: a Inglaterra era o centro do capitalismo, era portanto o centro que face à periferia melhor poderia ser gerador de progresso técnico e, mostrava Stuart Mill, com as elasticidades a serem iguais ou inferiores a 1 era do máximo interesse dos países da periferia inserirem-se no mercado mundial pois beneficiariam do progresso técnico dos países dominantes. Ou seja, com o texto de Stuart Mill prosseguem-se os mesmos objetivos que já se pretendiam com Ricardo, adicionam-se apenas mais hipóteses e afina-se o raciocínio. Por exemplo, Ricardo colocava o preço relativo internacional a meio do intervalo dos preços relativos internos, o que se pode fazer coma média aritmética ou geométrica, e arrumava assim a questão da formação do preço relativo internacional. Stuart Mill parte de Ricardo e afina a análise quanto à formação do preço relativo internacional.

Mas tal como o fazíamos desde há décadas na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Samuelson introduz a hipótese de progresso técnico num bem e no país que está relativamente menos apto a produzi-lo, hipótese esta nunca levantada por Stuart Mill, mas que no plano lógico é tão óbvia como a hipótese contrária, a que assumiu Stuart Mill de que haveria progresso técnico mas apenas no bem em que o país já usufruía de vantagem relativa. Vejamos com algum detalhe os resultados a que se chega com a hipótese contrária à assumida por Stuart Mill.

Retomemos o nosso cenário de partida. Os Estados Unidos estão especializados no bem 1 e a China no bem 2, em que as suas produtividades iniciais eram:

TEXTO 2 0001

Mas agora a China, mantendo constante a sua produtividade no bem 2, alcança progresso técnico no bem que tinha deixado de produzir, o bem 1, e tal que a sua produtividade neste produto é agora de (8/10).

Nos Estados Unidos a relação de preços mantém-se constante: 2P1=(1/2) P2, ou seja, P2= 4P1.

Na China temos então com esta mudança nas condições possíveis para produzir o bem 1 a relação de preços expressa por : (8/10) p1=(1/5) p2, pelo que p2 = 4p1.

Estamos, pois, perante preços relativos iguais, ou seja, gerou-se uma situação em que não há nenhum interesse em que haja comércio internacional. Dito de outra forma, deixa de haver ganhos com o comércio internacional, uma vez que a relação de troca, se há comércio internacional, é feita ao mesmo preço relativo que se ambos os produtos fossem produzidos internamente em qualquer dos dois países.

Ora, nós partimos de economia fechada para economia aberta, onde houve necessariamente ganhos. O progresso técnico na China e no bem 1 passa agora a eliminar estes ganhos. A China, neste caso, continuando à Mill a gastar metade do seu rendimento em cada bem, gastará o trabalho de 500 homens a produzir o bem 2 e 500 homens a produzir o bem 1. As suas produções seriam então de 100 unidades do bem 2 (500. (1/5)) e produziria 400 unidades do bem 1 (500.(8/10)). Logicamente, teria como usufruto adicional os efeitos da aplicação do progresso técnico sobre o bem 1. Os Estados Unidos passando a economia fechada voltavam a consumir 100 unidades do bem 1 e 25 unidades do bem 2. Os Estados Unidos seriam os perdedores porque empurrados para uma situação de autarcia perdiam os ganhos que resultariam da existência de vantagens comparadas que se esfumaram agora com o progresso técnico, pela simples razões que estas devem ser encaradas em dinâmica e não em estática. E em dinâmica o progresso na China levou a que a vantagem comparada dos Estados Unidos no bem 1 tenha desaparecido e este tenha sido levado a ser o perdedor da globalização e tanto mais facilmente quanto as técnicas podem migrar dos Estados Unidos para a China.

Diz-nos Samuelson:

A história económica está repleta de exemplos em que o país [tem progresso técnico no produto em que se especializa], primeiro insidiosamente e mais tarde decisivamente: nos Estados Unidos, a agricultura mudou-se de leste para oeste há dois séculos; a produção de têxteis, calçado e outros produtos manufaturados foram mudados de Nova Inglaterra para o sul dos Estados Unidos onde os salários eram mais baixos no início do século passado; A hegemonia da indústria transformadora da época da rainha Vitória foi substituída por incursões dos yankees depois dos anos de 1850.. Mesmo onde os países lideres continuaram a progredir em termos de crescimento absoluto, a sua taxa de crescimento tendia frequentemente a ser atenuada pelos ventos adversos negativos que eram gerados por concorrentes de baixos salários e pela imitação das técnicas.

Epílogo

As especializações ( com progresso técnico no bem em que se tem vantagem comparada-ato I) (e com progresso técnico no bem em que está em desvantagem relativa- ato II) demonstraram que, por vezes, a globalização do comércio livre pode converter uma alteração técnica no estrangeiro num benefício para ambas as regiões; Mas às vezes um ganho de produtividade num país pode beneficiar esse país sozinho, enquanto permanentemente prejudica o outro país, reduzindo os ganhos do comércio que são possíveis entre os dois países. Tudo isto constitui efeitos schumpeterianos de longo prazo, o que é uma outra coisa completamente diferente dos danos transitórios do funcionamento a curto prazo ligados aos custos do ajustamento de curto prazo ou às rendas temporárias das patentes e da erosão dos monopólios sobre o conhecimento.

Não se segue das minhas correções e emendas que as nações devem ou não devem introduzir protecionismos seletivos. Mesmo onde um prejuízo real é tratado pela roleta das vantagens comparativas em evolução num mundo de comércio livre, o que uma democracia tenta fazer em autodefesa pode muitas vezes equivaler a gratuitamente disparar um tiro nos pés. Uma síntese pragmática e cientificamente mais correta para a globalização poder-se-ia ler como se segue.

Se o passado e o futuro comportam ambos o tipo de invenções do tipo caso 1 que prejudicam o nosso país e invenções do tipo caso B que o ajudam e quando os dois tipos de invenções se somam ao bem-estar do produto líquido mundial – então o comércio livre pode afirmar-se como sendo, de um ponto de vista pragmático ainda o melhor para cada região em comparação com as pautas induzidas por lobistas e por quotas que envolvem quer a perversão da democracia quer as perdas nada subtis que resultam das distorções ao comércio introduzidas pelas quotas.. Em 1900, os defensores do comércio livre proclamaram: “as tarifas são a mãe dos trustes.” Neste milénio uma mais importante verdade pode ser expressa: “as tarifas são geradoras da arteriosclerose económica. (Fim de citação)

Porém podemos levar o nosso caso do teorema de Ricardo ao contrário, ao extremo, como o apresentamos no texto enviado ao ministro de então Álvaro Santos Pereira, relembrando-lhe o que lhe tinha ensinado nos anos 90 a quando da sua licenciatura na faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

A China, admitamos agora, alcança o domínio da produção do bem 1 utilizando a técnica dos Estados Unidos na sua produção.

O quadro das produtividades viria então:

 

Bem 1

Bem 2

USA

π1=2

π2=1/2

China

δ1=2

δ2=1/5

Como o que aqui nos interessa são os preços relativos vejamos agora quais são estes: Nos Estados Unidos nada mudou e portanto 2P1=(1/2) P2, ou seja, 4P1=P2 ou alternativamente P1= (1/4) P2, enquanto que na China teremos 2p1= (1/5) p2. Daqui obtemos 10 p1= p2. O bem 1 passa a ser relativamente mais barato na China que nos Estados Unidos.

De acordo com o modelo de Ricardo-Mill, e na lógica igualmente de Samuelson, a China passa a especializar no bem 1, e teremos os Estados Unidos a especializarem-se no bem 2.

Tudo se passa aqui como sendo um exemplo das instabilidades criadas pela globalização, em que a pressão do global sobre o local pode ter efeitos devastadores sobre as comunidades nacionais, como se tem vindo a assistir nestas duas últimas décadas, pelo menos. De uma forma repentina, a China recoloca-se no mercado mundial com uma capacidade produtiva no bem 1 semelhante à dos Estados Unidos, alterando os preços relativos internacionais, invertendo as especializações entre os dois países, no quadro do modelo de Ricardo-Stuart Mill.

A especialização segue os ventos agrestes da globalização. Com uma diferença de monta. Agora quanto ao bem 1 não podemos supor que os chineses são dez vezes menos produtivos no bem que os americanos, não, não podemos, somos antes obrigados a aceitar que então os Chineses terão atingido neste setor o mesmo nível de produtividade que os americanos, o que lhes permite passar a produzir 2000 unidades do bem 1, uma vez que dispõem de 1000 homens e têm no bem 1 a mesma produtividade que os americanos. Retomando a estrutura de consumo à Mill os chineses consumiram 1000 unidades do bem 1 e terão disponível para o mercado mundial 1000 unidades desse mesmo bem. Ora os americanos neste caso especializam-se no bem 2 e produzem 50 unidades. Encontramos aqui um problema de dimensão económica. Os Estados Unidos consomem 25 unidades desse bem 2 quando os chineses querem consumir as 100 que consumiam antes. O preço relativo internacional do bem 2 atinge o seu valor máximo possível, ou seja, atinge o preço relativo interno da China, p2I=10p1I. Os chineses importam 25 unidades e terão de produzir as 75 restantes para satisfazerem o seu consumo interno. Os Estados Unidos passam a assumir o estatuto de pequeno país, a China o estatuto de grande país ou de especialização incompleta, porque é ainda obrigada a produzir alguma quantidade do bem 2 para satisfazer a sua procura deste bem em que não se especializa, uma vez que o seu país fornecedor, os EUA, por ser relativamente pequeno não conseguem abastecer totalmente a China.

Repare-se que os Estados Unidos antes da inovação e em economia aberta consumiam 100 do bem 1 e 100 do bem 2, e agora passariam a consumir, por hipótese 25 unidades do bem 2 e 250 unidades do bem 1. Se considerarmos que o preço era de 1:1, relação a que eram valorizados os bens, os consumidores americanos “perdem” 75 unidades do bem 2 mas “ganham” 150 unidades adicionais de bem 1, Diríamos mesmo que ficaram a ganhar quando comparada a situação de economia aberta e antes do progresso técnico! Pelo lado da China, a este preço relativo internacional a China não ganharia nada em estar no comércio internacional, mas uma vez que já está em economia aberta, também não ganha nada em passar para economia fechada, antes pelo contrário, ficando em economia aberta e em especialização incompleta evitaria ainda parte dos custos de custos de adaptação à situação de autarcia. O dado a ressaltar é que os Estados Unidos ficariam a ganhar, no quadro do modelo Ricardo-Stuart Mill em passarem a ficar subalternos à China, face a quem passariam a ser um pequeno pais. Um curioso teorema, portanto.

Podemos ainda aqui admitir uma variante deste raciocínio. Sabemos que muita da política chinesa no que toca à investigação e à indústria faz parte do seu pacote de políticas discricionárias e com uma visão de longo prazo determinada pelo Estado Chinês, ao contrário do Ocidente que pretende delegar tudo na soberania dos mercados e no curto termismo dos mesmos. É pois possível e admissível que a China reduza a quantidade de trabalhadores a trabalhar neste setor e desloque os restantes trabalhadores para o setor público e para o setor social, o terceiro setor, com o desenvolvimento dos setores da saúde, educação, apoio à terceira idade e à primeira idade, etc. Por memória, há alguns anos, as estatísticas mostravam que 25% das crianças chinesas eram crianças left-behind, deixadas no interior da China rural enquanto os pais iam trabalhar para a China industrial, o que significa que só neste campo se poderia investir massivamente para melhorar as condições de vida dos chineses e das futuras gerações!

Poderíamos admitir uma hipótese mais realista que a China passaria a dinamizar o setor público assim como o terceiro setor da sociedade chinesa, através da deslocação de parte dos trabalhadores do sector de produção do bem 1 para estes mesmos setores, deixando de se posicionar a produzir 2000 unidades do bem 1. Adicionalmente passamos ainda a considerar que os Estados Unidos e a China estão inseridos no mercado mundial.

Admitamos que neste setor se reduz a quantidade de trabalhadores aí empregues que passa a ser de metade, desenvolvendo-se o setor público e o terceiro setor, dito setor social ou terceiro setor, a partir dos 500 trabalhadores deslocados.

Em economia aberta e antes do progresso técnico no bem 1 a China dispunha de 1000 trabalhadores no setor de produção do bem 2. Há inversão de especialização e, face à queda dos preços no mercado mundial do bem 1, o governo chinês decide uma outra política, em que salvaguarda o pleno emprego, a de desenvolvimento do setor de serviços não negociáveis internacionalmente, o setor público e o setor dito terceiro setor, reduzindo para 500 os trabalhadores que passam da produção do bem 2 para a produção do bem 1 e deslocando os restantes 500 que estavam a produzir o bem 2 para o setor público e para o terceiro setor.

Admitamos então a seguinte sequência: no momento inicial tínhamos os Estados Unidos especializados no bem 1 e a China no bem 2. Houve progresso técnico na China no bem 1, um progresso técnico exógeno, à boa maneira dos neoclássicos. A China passaria assim a produzir 1000 unidades do bem 1. Admitamos que Estados Unidos e China estão inseridos no mercado mundial. O aumento da oferta do bem 1 terá feito descer o preço relativo do bem 1, que era antes do progresso técnico na China de 1P1I=1P2I, ou inversamente teria feito subir o preço relativo internacional do bem 2, de modo a que uma unidade do bem 2 passa a valer 1,6 do bem 1. O preço relativo internacional passaria assim de P2I=P1I que se verificava em economia aberta mas antes do progresso técnico, para P2I= 1,6 P1I. Os Estados Unidos produzem 50 unidades do bem 2, exportariam 25 e importariam 40 unidades do bem 1. A China poderia, por exemplo, produzir 1000 unidades do bem 1, exportar 560 para os Estados Unidos e para o resto do mundo e consumir 440 unidades deste bem, importando então 350 unidades do bem 2,  25 das quais dos Estados Unidos e o restante do mercado mundial.

A China apareceria então como o grande vencedor da globalização, aumentando o seu consumo de 250 unidades do bem 2 e de 340 do bem 1, enquanto os Estados Unidos, por exemplo e tal como o resto do mundo, aparecem aqui como os grandes perdedores. Um passo que Paul Samuelson não deu.

 

(continua)

Notas

[17] Quando professor de Economia Internacional editei um longo texto sobre Stuart Mill formalmente bem mais desenvolvido do que a exposição aqui e agora apresentada.

[18] Curiosamente, para a exposição sobre o teorema ao contrário de Ricardo muito terá contribuído o livro de Samir Amin, L’accumulation à l’échelle mondial, de 1972, a Troca Desigual de Arghiri Emmanuel, e dois artigos, cito de memória, um de Alain Gomez, de Thompson e um outro de Jacques Calvet, então PDG de Peugeot. Hoje, são referências bibliográficas simplesmente perdidas, daí o não poder citar os respetivos artigos. Para a análise de Stuart Mill, muito contribuiu um excelente manual de Economia Internacional editado pela PUF, de Gerard Marcy, que lamentavelmente carecia de uma apresentação gráfica que não se compadecia com o formato dos livros da PUF. A formação geral entretanto adquirida fez o resto.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: