CARLOS REIS – NASTÁLGICO – O VÓMITO DO NATAL

 

 

O Natal não existe, como todos nós sabemos. Embora a gente teime e insista que sim. Que os maus passam a ser bons, que os assim-assim se esforçam e afinal não são tão maus como isso e que os bons permanecem bons e nem neles se repara, já que se confundem com os outros, que afinal são todos bons. Em Dezembro não há estatística.

Passamos a parte intelectual do ano a falar no desperdício, na mais valia, na barbárie, na globalização, na alienação, na voragem do consumismo, na violência, na mentira dos media controlados pelo poder, como só nós sabemos. Na hipocrisia, na prostituição a que também somos votados, na desqualidade de vida, nas fomes, nas mortes inenarráveis naqueles países, sempre lá longe (e que só existem na televisão e nos filmes) nos temas da actualidade, na cultura hoje, no american way of life, nos novos modelos disto e daquilo, nas novas formas de comunicar, informar, teledizer, macroguardar, microfoder, printocagar, chiptramar, palmofonar.

Quase nem temos tempo uns para os outros nem para nós próprios, afadigados que estamos, nós, sim, nós, pensantes diferenciados que nos não confundimos com certeza com as desvairadas gentes derramadas nas compras, nos gifts, nos shoppings, nos macros, nós que sabemos a causa e o efeito de quase tudo, salvo raríssimas excepções, nós que não vemos telenovelas, por um lado nem frequentamos comícios, por outro.

Nós. Que entramos no corropio, no afã das Quartas que se sucedem às Terças, das Quintas que se sucedem às Quartas, no Sábado em que nos devíamos ter levantado mais cedo que nas outras Feiras e  afinal nos atrasámos, porra, já é tarde, quero lá saber do Sol e do dia luminoso, não me fodam, já está cheio, o super, o macro, o shopping, a fnac, o caralho, se calhar esgotou-se o acendedor-aspirador-inalador electrónico que estava em promoção, ou o gravador-avaliador-descascador pré-concentrado que a minha mulher adora, que o meu marido anseia.  Puta de vida, tomara já que passe o Natal!

Mas o curioso, o interessante é que não é, de um modo geral, com as crianças – essas sim (lembram-se?) para quem o Natal é Natal, a magia é magia, o prazer é prazer – que estamos endoidecidos, acelerados. Não é, nunca é, basicamente com elas que nos estamos a preocupar, já não há disso, já são crescidas, tão crescidas que também elas com certeza nos mimam nestas hiper-aflições, nestes corropios demenciais. É com os amigos, a mulher, o marido, os filhos – mais crescidos, mais velhos já que o próprio Natal – os amigos, os amigos dos filhos, a cunhada, o sogro, a tia, os avós (se os houver ainda, em salmoura) é essa importante parte da humanidade que de repente adquire uma importância inusitada e nos faz correr mais do que Sammy, mais do que os duzentos metros barreiras.

Estou, quase de certeza, sozinho, nestas avaliações, sou um exagerado. Mas estou também à vontade, Não sou um teórico como já estão praí a pensar. Mesmo quando com famíla, mais ou menos cristã, constituída, já eu pensava assim, com a conivência e sem contradições, de todos eles, de todos elas. Estou à vontade, não sou cristão, católico ou qualquer coisa dessas. Farto-me de dar coisas, dá-me gozo, sou um egoísta comum. Quando me apetece, é claro e não em feriados premeditados. Tenho de respeitar os que acreditam, os que acham, os que pensam que sim, tenho sim senhor. Prontos. Que são muito poucos, muito menos do que as estatísticas nos possam fazer acreditar. Porque se fossem tantos como nas estatísticas, com certeza que as suas preocupações cristãs seriam outras, os centros comerciais estariam mais calmos, os activadores do consumo mais desesperados.

Apesar de tudo, apesar deste pretenso pessimismo, pessoas há, que pensam diferentemente. E que a esta hora trabalham voluntariamente e que se fartam, para de facto justificar de algum modo o Natal, com tudo o que de horrível ao longo do ano e dos anos sobressai nesta puta desta época. O que é que custaria às pessoas boazinhas e lembradas da sagrada família (a sua) o que é que lhes custaria gastarem os estafadézimos euros não em si, mas em algo de mais útil, prático, palpável e aplicável, por exemplo, em crianças (que nem comida têm, quanto mais brinquedos!) ou em velhos que raramente comem, ou em quaisquer outros para quem o Natal deve ser (mais, muito mais) tão irritante como para mim? De certeza que seriam mais amados, mais adorados, admirados pela restante família. (Ou não? Se calhar, não). A minha raiva é intelectual, a deles, o dos despojados, é lógica, é justa, nem justifica um debate de ideias.

Já sei, já sei, meus caros (ainda bem que existis) que não são estas atitudes, este modo de estar, que vai mudar alguma coisa, que vai mudar o mundo, que isto e que aquilo, pobre carlos, querido carlos, tonto carlos. Que o Natal é uma coisa íntima, verdadeira e de cada um. Tu é que não sentes. Que não é por dares a esmola ao pobrezinho (convém ter sempre um à mão e por costume, não lhe dar se possível, dinheiro, antes géneros e bons conselhos, sabe-se lá o dia de amanhã ou do juízo final) não é por isso que ele, pobre, sempre tão útil, vai afinal deixar de o ser. Útil e pobre. Ou que vão deixar de existir, os pobres pobres. Experimentem explicar-lhes isso, em vez de lhes darem qualquer coisa São uns ingratos, não percebem, não perceberiam, nem sequer querem perceber.

A mim o que me custa, o que me ultrapassa, é saber de pessoas que sabem o mesmo que eu (mais, muito mais) e continuam a ter estes stresses cíclicos, estes comportamentos sazonais, estes tédios festejantes, estas repetições ad nauseum, estas maçadas arborizadas e estas impaciências para que “esta merda acabe depressa” – mesmo quando já não existem crianças por perto. Os únicos entes, esses sim, a quem eu daria o meu Natal se pudesse, se ainda lhes servisse, se não fosse de um tamanho demasiado grande.

Nota: as opiniões aqui exaradas são da exclusiva responsabilidade do autor. Qualquer coincidência de pontos de vista é pura coincidência.

Carlos

Natal 2005, 2006, 2007, 2008, 2018, etc., ad nauseum.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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