CARTA DE BRAGA -“cultura de bidé”- por António Oliveira

Já lá vão uns dias, ainda no ano passado, abri um jornal arrastado por um título entre o atrevido e o pindérico, «A “casa” de Cristina tem 500 m2, “vale” um milhão de euros, e até tem bidé»

Confesso ter sido esta característica a levar-me a arriscar a leitura, mas logo fui afastado de uma qualquer eventual aclaração, quando percebi ser só referência a mais um dos ‘brilhantes’ programas que atafulham os canais das televisões que nos deveriam servir.

Lembro-me de as estórias e os contos que ouvíamos e líamos também depois das primeiras letras, começarem quase sempre por ‘Era uma vez…’ o suficiente para nos deixarem atarraxados ao banco ou ao chão, para podermos olhar enquanto ouvíamos o contador.

A linguagem gestual acompanhava quase sempre a oral, alindando-a e dando-lhe a dimensão necessária para nunca sentirmos a eventual dureza do banco ou do chão.

Eram estórias e contos para nos entreterem, para nos sossegarem da irrequietude e, muitas vezes, para nos ajudarem a vencer os medos e temores do crescimento. Talvez por isso mesmo, tinham também, quase sempre, um final feliz.

Dos tempos em que dei aulas e creio ter ajudado os alunos a crescer olhando o mundo, lembro-me de muitas vezes ter perguntado ‘contavam-se histórias lá em casa?

A maioria dos que lhes sabiam da existência, negava acenando com a cabeça mas muitos dos outros, perguntavam curiosos ‘que histórias, professor?

Anderson, Grimm, Dickens, Mauro de Vasconcelos, Sofia, Alice Vieira e outros mais, não faziam parte do imaginário da quase totalidade, mas sabiam bem as historinhas onde entrasse gente das notícias dos futebóis, do coração, ou as que podiam agarrar na game boy.

Talvez por isso, não resisto a deixar aqui o resumo de uma ‘estória’ que ainda hoje não deixa de me emocionar. Um dia, uma aluna do terceiro ano de um curso superior, muito afectada pelo desaparecimento de um familiar bem próximo e a quem censurei suavemente a melancolia que a estava a afastar de tudo, perguntou se me podia telefonar depois do jantar.

Dei-lhe o meu telefone e, seriam umas dez da noite, quis saber se podia ir tomar um café com ela, numa pastelaria próxima aos dois e onde ela até já estava à espera.

Depois de bebermos o café, deixo as mãos em cima da mesa e olho-a bem nos olhos por me ter sentado em frente e fico eu à espera do que tivesse para me dizer.

Estende as mãos, põe-nas em cima das minhas e, num tom de voz a tentar esconder a emoção, diz apenas ‘professor, conte-me uma história!

Já não me lembro se a história que lhe contei tinha sido ouvida, ali repetida ou até inventada, mas quando a acabei, levantou-se, estendeu-me a cara para um beijo e ‘obrigada, professor, esta noite vou conseguir dormir melhor!

Leia-se, mais uma vez ainda, no blog “Ponteiros Parados” o também professor José Ricardo Costa, dizendo da cada vez maior perda de importância do intelectual como fazedor de opinião – ‘o problema passa principalmente pela crise da imprensa tradicional mas também, e admito que tempos atrás não me passaria pela cabeça dizer tal coisa, da televisão enquanto principal meio de comunicação de massas

E, mais incisivo, garante ‘o problema está no suicídio social das classes médias que em tempos, e para além do dinheiro, viam a inteligência, o pensamento e o conhecimento como meio de promoção social, resolveram descer ao níveis primários da estupidez popular, chafurdando, quase em exclusivo, no Facebook, no Twitter, no WhatsApp, nas caixas de comentários dos jornais on-line, ou nos vídeos do Youtube

É por esta e por outras coisas que não me interessou minimamente o bidé da Cristina, até por nem querer, nem poder, nem saber dizer, tão sarcástico e radical como Salvador Dali, numa conversa com a excelente actriz que foi Melina Mercury, ‘cultura é só o que fica no fundo de um copo de bom vinho!

O mesmo que, neste princípio de ano, levanto (mas cheio) em seu louvor!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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