Ó ROSTO DA TERRA por Luísa Lobão Moniz

 

Ó rosto da terra/E abismo do mar/Ouvide o seu canto/De longe a arfar…Zeca Afonso

Quando homens de farda verde, armados de metralhadoras G3 com cravos vermelhos enfiados nos canos, apareceram, de madrugada, muitos sem saberem bem porquê começou-se a viver um outro tempo das nossas vidas.

Desceram e subiram ruas rodeados de gente oprimida que gritava “O Povo unido jamais será vencido” e “os soldados são filhos do Povo” não sabiam como estavam a mudar a vida de cada português, de cada portuguesa e deles próprios. Não tinham a noção de que o Portugal Político estava a dar um grande passo em prol da liberdade nas “nossas colónias africanas”.

As questões de género têm-me feito reflectir para além das notícias dos jornais e das televisões e os seus comentadores.

A violência sendo um comportamento multidisciplinar e de grande importância na maneira como escolhemos o nosso percurso de vida, muda sociedades para o melhor e para o pior.

Hoje é inadmissível não olhar para a discriminação de género sem tomar decisões sobre a organização social. Sobre as sanções, sobre a educação formal e não formal.

A questão de género tem feito o mundo sujar-se de sangue, de fazer sofrer para além do possível as pessoas que são vítimas, sendo as mulheres as que mais afectadas são por esta violência.

É o dia da Liberdade, o dia 25 de Abril de 1974, que nos mostra a porosidade dos tempos e dos comportamentos, conforme as circunstâncias.

As mulheres que eram consideradas inferiores aos homens, também saíram à rua para acarinhar “ os seus filhos” para protestar contra a ditadura a favor da liberdade.

Que Liberdade?

A liberdade de ganhar o mesmo que o homem quando realizavam os mesmos trabalhos.

Poder casar quando era hospedeira de bordo, enfermeira (até 1963), telefonista (até 1940), a mulher estava proibida de o ser por razões éticas. Uma mulher não deveria trabalhar por turnos para poder ser uma boa dona de casa e dar a atenção devida ao marido e aos filhos, negando-lhe a vontade e capacidades de participar na sociedade.

A mulher não podia ter uma conta bancária, não podia sair do país sem autorização do marido.

A vida da mulher era feita de discriminação, de violência, de ameaça, de falta de protecção, sem poder de decisão sobre a sua vida amorosa e profissional.

Para além de todas as proibições a que estavam sujeitos, os homens e as mulheres, estas tinham ainda mais proibições pelo facto de serem mulheres.

Com a madrugada do 25 de Abril chegou a liberdade, mas à mulher chegou também a obrigatoriedade da sociedade se organizar dando visibilidade ao género feminino em cargos antes vedados, por ser mulher.

O 25 de Abril de 1974 rasgou a cartilha imposta à mulher.

A cartilha, a Constituição, passou a ser a mesma para todos e para todas.

“Admito que a Revolução seja uma utopia, mas no meu dia-a-dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista  seja a que nível for.”  Zeca Afonso.

Viemos com o peso do passado… Sérgio Godinho

 

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