Em 1999, uma criança nasceu, de parto prematuro e com deformidades congénitas: o Euro 20 anos depois – alguns textos sobre a sua atribulada existência. Texto nº 14. Uma análise sobre a criação da União Europeia e sobre a sua trajetória até aos dias de hoje – Parte II


Uma análise sobre a criação da União Europeia e sobre a sua trajetória até aos dias de hoje

Olivier Delorme é historiador e escritor. As suas áreas de especialização vão desde o genocídio arménio à Grécia – sobre a qual escreveu uma monumental obra de três volumes “A Grécia e os Balcãs”. Se a sua obra evolui na fronteira entre a literatura e a história mais erudita, é para um livro empenhado e voluntariamente polémico que decidimos entrevista-lo. Com efeito, Olivier Delorme opõe-se fortemente à União Europeia e foi com isso em mente que publicou, em 2016, “30 boas razões para deixar a Europa” (edições H&O), uma verdadeira resposta aos lugares comuns em torno desta instituição antidemocrática e neoliberal.


Parte II – A União Europeia é uma construção fundamentalmente antidemocrática

DELORME

(Entrevista a  Olivier Delorme por GALAAD WILGOS, 04/12/2018)

Galaad Wilgos : A incrível influência dos lobbies na política europeia não contribui também para a negação da democracia a nível europeu?

Olivier Delorme : É um dos sintomas mais alarmantes. É o caso na Comissão Europeia, onde as regras de ética são notavelmente elásticas. Ontem, Comissário, amanhã, um membro do conselho de administração de uma grande empresa cujo sector estava por ele a ser “regulamentado” alguns meses antes. Nunca se acabaria de citar exemplos: dedico um capítulo do meu livro a isto. Neelie Kroes entrou para o Comité Consultivo de Políticas Públicas da Uber em maio de 2015; Coonie Hedegaard, comissária dinamarquesa para a Ação Climática, entrou para o Comité Internacional de Sustentabilidade da Volkswagen em outubro de 2014, quando a empresa foi convencida da fraude massiva de emissões de CO2; O esloveno Janez Potočnik, Comissário para a Ciência e Investigação (2004-2010) e depois Comissário para o Ambiente (2010-2014), que tem estado constantemente a marcar o tempo para impedir a proibição dos pesticidas que matam as abelhas, torna-se presidente do Fórum para o Futuro da Agricultura, financiado pela gigante suíço da química Syngenta… que produz o pesticida Cruiser implicado na morte das abelhas. Para não falar do caso emblemático de Barroso/Goldman Sachs.

A atual Comissão transformou mesmo o conflito de interesses numa espécie de regra! Energia e Clima foi confiada ao fundador e principal acionista de duas empresas petrolíferas espanholas; Ambiente, Assuntos Marítimos e Pescas ao principal acionista de uma empresa que tem grande responsabilidade na degradação da zona costeira em Malta; antes de Brexit, a Estabilização Financeira, Serviços Financeiros e União dos Mercados de Capitais foi entregue ao chefe britânico de uma empresa de lobbying cujos clientes são o HSBC Bank e a empresa de transações financeiras SWIFT.

A situação é igualmente escandalosa no chamado Parlamento, onde as federações patronais têm uma mesa aberta, fornecem aos representantes eleitos textos que, quando copiados e colados, são submetidos a votação e, na maioria das vezes, adotados graças à conivência dos grupos Conservador (Partido Popular Europeu), Social-Democrata e Liberal.

Mas a mistura de géneros também prevalece entre altos funcionários que se passam com grande facilidade e tolerância por parte da UE, para o serviço das empresas, que depois as aconselham sobre como defender os seus interesses nos meandros da UE. Para não mencionar que os lobbies patronais, disfarçados de organismos científicos industriais de direito belga, fornecem a maior parte dos peritos utilizados pela administração europeia para a elaboração dos seus textos. Em suma, é numa endogamia permanente e generalizada que a Comissão, a sua administração, os deputados, os lobbies e os seus peritos vivem.

“Há um caldo real de cultura, visível para toda a gente, onde a conivência e o conluio florescem ainda mais livremente quando o cidadão está longe e todo o controle efetivo prima pela ausência”.

Seria absurdo pretender que não existam passagens dos altos funcionários para o setor privado nem lobing a nível nacional, mas o que a proximidade entre representantes eleitos e eleitores limita a nível nacional já deixa de limitar a promiscuidade entre eurocratas – deputados, Comissários, altos‑funcionários – e aqueles que, no futuro, lhes oferecerão um fim lucrativo para as suas carreiras ou uma reciclagem profissional se não forem reeleitos. No espaço de alguns quilómetros quadrados de bairros chiques de Bruxelas, estas pessoas vivem ao lado umas das outras, fazem amigos, põem os filhos nas mesmas escolas, almoçam nos mesmos restaurantes… Há um verdadeiro caldo de cultura, à vista de toda a gente, onde a conivência e o conluio florescem ainda mais livremente quando o cidadão está longe e não há efetivamente qualquer controlo.

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G.W. Criticar a União Europeia: não será uma farsa, quando o Conselho, isto é, os Estados, tem um papel crucial – e reforçado -? Não é a UE acima de tudo a emanação dos Estados-nação?

Como se sabe, os executivos dos diferentes Estados-Membros (com exceção da Dinamarca, que em 1992 se privou das imensas vantagens do euro, o que o tornou um dos países economicamente mais prósperos da UE) escolheram sistematicamente, uma vez que os resultados dos referendos que organizaram sobre as questões europeias não correspondiam aos esperados pela “Europa”, fazer com que o povo volte a votar sob ameaça (Irlanda, 2001 e 2008), ou escolheram alternativamente violar os seus resultados (França e Países Baixos em 2005, Grécia em 2015), correndo o risco de desacreditar ainda mais uma democracia já despojada pelos Tratados europeus da maior parte do seu conteúdo em matérias essenciais. E ainda não está claro se o voto britânico de 2016 será respeitado ou não.

Com efeito, os Tratados de Roma reconhecem que os executivos nacionais têm uma capacidade de bloqueio: esta era a concessão necessária para que não sofressem o mesmo destino que a CED (Comunidade Europeia de Defesa). Foi esta a razão pela qual, em 1958, De Gaulle decidiu não abandonar o Tratado CEE (Comunidade Económica Europeia), deixando ao mesmo tempo definhar o Tratado Euratom, na medida em que considerava que o átomo é o único domínio da soberania nacional. Além disso, durante a crise das cadeiras vazias (1965-1966), mostrou que a Comissão podia ser obrigada a renunciar às suas reivindicações insanas.

Mas para que, através do Conselho, os executivos nacionais possam defender os interesses pelos quais estão encarregados da sua defesa, é ainda necessário que não promovam a ideologia, e esta  é, simultaneamente, o para-vento e a força motriz da Europa. Há quem o faça: o Tribunal Constitucional alemão reafirmou constantemente que o Bundestag é o único representante legítimo do povo alemão e que, por isso, deve discutir – de antemão! – posições governamentais nas negociações europeias. No meio da chamada crise grega, a Chanceler interrompeu várias vezes as conversações para pedir ao seu Parlamento autorização para as soluções previstas.

Mas, com efeito, a complexidade e a opacidade dos processos de decisão na UE – para permitir, na aplicação do método Monnet, os micro golpes de Estado técnicos cujo alcance não pode ser percecionado pelos cidadãos – visam um único objetivo: isentar da soberania popular as decisões tomadas a nível europeu. Além disso, o poder de iniciativa da Comissão, órgão tecnocrático – apesar da reforma puramente cosmética que introduziu um procedimento carnavalesco de investidura para preencher o “défice democrático” das instituições – permite-lhe predeterminar as decisões do Conselho através das suas posições ideológicas e da sua capacidade de atrasar, distorcer ou bloquear decisões que não as respeitem – como vimos recentemente, mais uma vez, sobre os desreguladores endócrinos.

“Na realidade, o Tribunal estabeleceu-se como um legislador por direito próprio, criando leis fora de qualquer controlo democrático, sendo as suas decisões vinculativas para os Estados, sob pena de sanções. »

Acrescentaria que a jurisprudência construída de forma aberrante pelo Tribunal de Justiça da UE (uma instituição pouco conhecida e que desempenha um papel particularmente prejudicial a que dedico um capítulo do meu livro), uma vez que assumiu, em 1979, sem que ninguém, nem os executivos nacionais nem os tratados, lhe tenham conferido o direito exorbitante de interpretar estes tratados em função dos objetivos que o Tribunal lhes atribui, bloquear  os poderes executivos nacionais numa cerco cada vez mais apertado. Na realidade, o Tribunal impôs-se como um legislador por direito próprio, que cria direito fora de qualquer controlo democrático, sendo as suas decisões vinculativas para os Estados sob pena de punição.

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Por conseguinte, cada governo é hoje obrigado a respeitar um “acervo comunitário” (diretivas, regulamentos, jurisprudência do Tribunal) que pode ser estimado num total de 36 000 normas que representam mais de 100 000 páginas (mas é o Código do Trabalho que deve ser simplificado!) que os parlamentos nacionais, transformados na câmara de registo do Antigo Regime, devem transcrever no seu direito nacional.

Fora da UE, quando uma nova maioria chega ao poder, pode revogar ou alterar disposições adotadas pela antiga maioria e isto em qualquer país democrático. Mas, na UE, esta opção já não existe. Uma nova maioria que chegue ao poder em qualquer parte da União Europeia tem de aplicar, sob pena de sanções, aquilo que todos os governos das maiorias anteriores concordaram em permitir que fosse incorporado no direito europeu – aquilo a que chamo no meu livro “o efeito de matraca”. E negociar a sua alteração conduz normalmente a um engano, como vimos recentemente com a chamada revisão da diretiva relativa ao destacamento de trabalhadores, com os Estados beneficiários do status quo a oporem-se logicamente à sua transformação efetiva. Assim, no colete-de-forças da UE, as mudanças políticas perderam gradualmente todo o sentido.

Esta é, aliás, a razão fundamental, para além das razões contingentes, pela qual o povo britânico, que criou o parlamento mais antigo do mundo, a democracia representativa mais antiga e cujo patriotismo é sobretudo parlamentar, decidiu abandonar a UE. Porque a UE é uma construção fundamental e intrinsecamente antidemocrática. E que não pode ser reformada (no sentido que alguns pretendem querer que seja), simplesmente porque, desde o início, foi concebida exatamente para servir aquilo para que serve: retirar às pessoas o controlo sobre o seu destino.

G.W Seria o senhor mais favorável a uma União Europeia em que o Parlamento Europeu tivesse o direito de iniciativa legislativa e funcionasse como qualquer outro parlamento nacional?

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Isto, tal como a Europa social, é um desejo piedoso. Um Parlamento, com um “P” maiúsculo, só pode ser a expressão de um povo consciente da formação de uma nação. No entanto, como já disse, não há, a meu ver, nem povo nem nação europeia. Quando pagam os vossos impostos em Paris, Bordéus ou Toulouse, não vos interessa que parte vai para Lozère, Córsega ou Haute-Saône, porque os franceses são um povo e a França é uma nação; mas os alemães, os holandeses, os finlandeses, os austríacos, os eslovacos, etc., recusam-se a permitir que os seus impostos sejam utilizados para corrigir os desequilíbrios causados pelo euro na Grécia, Itália, Espanha, Portugal, etc. A recusa destas transferências é mesmo tão violenta que provoca reações intraeuropeias e manifestações de natureza racista: não há muito tempo, num estádio na Salónica, por exemplo, os adeptos alemães eram vistos a tirar notas de 50 euros para acenar com elas à frente dos adeptos gregos. Além disso, é simplesmente absurdo querer que acreditemos que um povo europeu possa nascer de uma concorrência livre e sem distorções, de uma moeda única, de restrições orçamentais, de objetivos de défice, de políticas punitivas, do desmantelamento de toda a proteção social e, em última análise, da injunção para que qualquer europeu se torne um bom alemão.

É evidente que a Jugoslávia ou a URSS não sobreviveram ao desaparecimento do constrangimento, mas é também evidente muitos Estados, espanhóis, italianos ou belgas, continuam frágeis. Assim, pretender fazer de um finlandês e de um grego, de um irlandês e de um húngaro um “homem europeu” (como os totalitarismos do passado queriam criar um “homem novo”), pretender que todas estas gentes se vão reconhecer num Parlamento, que seria mais representativo e democrático porque seria eleito de tal e tal forma ou porque teria tal e tal poder, é uma profunda ilusão. O que é problemático não é esta ou aquela instituição, este ou aquele mecanismo, mas os próprios fundamentos desta chamada “construção europeia”, que nada mais é do que uma “desconstrução” da democracia representativa e do Estado social, dos resultados das lutas dos últimos dois séculos, pelo menos, vencidas a nível nacional – porque é no quadro nacional (e apenas neste quadro, na minha opinião) que podem ocorrer mobilizações, que pode ocorrer a coagulação das vontades que permitem estas conquistas.

O Parlamento Europeu, sem  maiúsculas (porque, como mostro no meu livro, não tem nada a ver com um verdadeiro Parlamento), é apenas um ectoplasma, onde tudo é resolvido não pela luta política, mas pela negociação, combinação e devolução de favores entre três grupos. E é por isso que os cidadãos dos Estados-Membros da UE que, apesar do passaporte, não são cidadãos europeus, são cada vez menos a votar, em cada escrutínio, para esta assembleia sem legitimidade.

Dito isto, dada a situação política em Itália, Polónia, Hungria, Finlândia, República Checa, Áustria, Eslováquia, Países Baixos, Suécia, Dinamarca – ou mesmo França ou Alemanha com o avanço da AFD – e a crescente desconfiança sobre a UE em todo o lado, a configuração do próximo parlamento será provavelmente singular: o que aconteceria se os grupos que dominaram esta assembleia desde 1979 perdessem a maioria?

G.W. Por falar em evolução favorável, dedica uma boa parte do seu livro ao mito da Europa social. Porque razão seria irrealista imaginar uma União Europeia que visasse distribuir a riqueza a um nível mais vasto do que o da nação?

 Começo o meu capítulo sobre a impossibilidade de uma Europa social com esta citação: “Sabem também como é ilusória a livre circulação de trabalhadores, se não lhes garantirem, neste momento, direitos básicos de segurança social válidos em qualquer país”. Esta frase poderia ser escrita hoje; foi retirado de um discurso proferido em 16 de Novembro de 1954 por André Renard, Secretário-Geral Adjunto da Federação Geral dos Trabalhadores da Bélgica e Presidente do Comité Consultivo, considerado representar a sociedade perante a Alta Autoridade da CECA.

“Desde o início, a integração europeia foi construída em torno da concorrência. »

Porque razão é que querem que aquilo que não aconteceu em sessenta e quatro anos aconteça amanhã, quando a esquerda está a desmoronar-se ou a desaparecer em quase toda a Europa, precisamente porque o colete-de-forças europeu a privou de qualquer capacidade de “mudar as coisas” e, logicamente, de qualquer credibilidade junto dos eleitores? Podemos também desejar que cresçam dentes nas galinhas ou penas nas serpentes!

Desde o início que a “construção europeia” se baseia na concorrência. Não há cooperação nem progresso social. E os tratados sucessivos apenas a reforçaram como o elemento em que se baseia todo o edifício.

No entanto, o Tratado de Roma apenas fala de concorrência não falseada. Mas o Ato Único de 1986 transformou este principio em concorrência não falseada …e livre.  Isto, num sistema de comércio livre em que o capital, os bens e os trabalhadores devem circular livremente, isto faz com que o chamado “custo do trabalho” seja a única variável de ajustamento. Num tal sistema, o capital será logicamente colocado onde a mão-de-obra custa menos (deslocalizações), ou então fazer com que venham de fora os trabalhadores que custam menos [trabalhadores destacados, (a que também se chama deslocalização no local)] e entrem em concorrência com os trabalhadores protegidos e mais bem pagos [os trabalhadores locais]. A consequência é – a fim de “restabelecer a competitividade” – uma corrida interminável ao mínimo salarial e social, à flexibilidade e à destruição das “rigidezes” (ou seja da proteção social e do Direito do trabalho) até mesmo ver reaparecer o trabalho à tarefa sob outros nomes (empresário por conta própria, uberização). Embora os serviços públicos rebatizados “serviços de interesse geral” ou “serviços de interesse económico geral” devam também ser abertos à concorrência de operadores privados ou privatizados – as proteções sociais específicas destes serviços devem ser sacrificadas no altar da concorrência. E mais uma vez, as realidades cobertas por esta nova linguagem – a liquidação de dois séculos de conquistas sociais no contexto nacional – são protegidas pelos Tratados e pela jurisprudência do Tribunal Europeu, não obstante os aparelhos sindicais que o sistema agrega, fornecendo-lhes financiamento assim como generosas prendas nas instâncias decorativas.

Finalmente, toda a virtualidade da Europa social, por muito evanescente que tenha sido, desapareceu com o euro e com o alargamento da União Europeia dos anos 90. O alargamento, porque os trabalhadores dos antigos Estados europeus sob hegemonia soviética têm salários mínimos e medianos oito a nove vezes inferiores aos da Europa Ocidental. O euro, porque esta moeda violentamente disfuncional está sobrevalorizada para a maioria dos Estados e subvalorizada para a Alemanha e para alguns outros Estados mais, o que a leva a conceder vantagens competitivas cada vez mais exorbitantes aos países mais fortes e, por conseguinte, a enriquecê-los cada vez mais, enquanto sufoca os países mais fracos que, não podendo mais influenciar a taxa de câmbio das suas moedas, são obrigados a reduzir os salários e vaporizar todos os direitos sociais, com a consequência do desaparecimento programado das classes médias, cujo desenvolvimento historicamente permitiu que a democracia se enraizasse.

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Na fase final, já que estamos a falar de cancro, temos a Grécia, onde os salários e as pensões diminuíram 40 a 50% em dez anos, onde outras prestações sociais foram ainda mais reduzidas quando não desapareceram de todo, onde a tributação dos mais pobres explodiu, onde o direito social tem sido tão “flexibilizado” que inúmeros empregados só são pagos de dois em dois meses, ou mesmo de três em três ou até de cinco  em cinco meses, o que fica ao critério exclusivo dos patrões, onde a pequena propriedade é pilhada pelos bancos e pelo Estado, e onde a política perdeu toda a credibilidade – abrindo caminho para as piores aventuras

Como é que, a não ser num sonho, podemos pensar que 28 ou 27 governos e parlamentos poderiam concordar em derrubar o elemento central de sessenta anos de “construção europeia” – concorrência, livre circulação de trabalhadores e capitais – e inverter a lógica de destruição do Estado social que de tudo isto é o resultado ? Trata-se de um sonho impossível, e aqueles que acreditam ou fingem acreditar nele são ou perigosos  ingénuos ou ilusionistas cínicos.

G.W. A eleição presidencial de 2017 foi uma oportunidade para ver as falhas – regularmente ridicularizadas – no discurso algo desequilibrado de Asselineau sobre a saída  da UE, que não propõe muito mais do que uma tal saída… No entanto, é inconcebível para um ativista de esquerda defender apenas uma saída sem apoiá-la com um projeto político mais global e radical – caso contrário, caímos no soberanismo de direita ao estilo inglês, e corremos o risco de ver o liberalismo económico simplesmente deslocado para o nível nacional. Em termos concretos, para que é que acha que deve ser utilizada a saída da UE?

Permitam-me que comece por dizer que discordo da vossa análise do Brexit, e isto não é acidental. Pelo contrário, é decisivo para responder à sua pergunta. Primeiro, porque 37% dos eleitores trabalhistas votaram Leave e porque Leave teve a melhor votação nas fortalezas trabalhistas com um eleitorado popular. Foi, portanto, a ala esquerda do Partido Trabalhista, sem a qual o Brexit não teria ganho, que votou Leave, enquanto a sua ala direita, blairista, votou massivamente por Remain. Além disso, Jeremy Corbyn, que tem o apoio das bases  para uma reformulação do partido contra o establishment trabalhista pró-europeu, fez apenas uma campanha muito fraca para o “Remain” e, dadas as suas posições passadas, bem como as suas reacções à votação, pode-se mesmo pensar que, se não tivesse receado quebrar o partido, poderia ter feito campanha a favor do “Leave”.

Note também que Teresa May, que chegou ao poder depois do Brexit, mostra a sua disposição de romper com o Thatcherismo quando pronuncia palavras como “É hora de recordar o bem que o Estado pode fazer”. “O Estado existe para fazer o que os indivíduos e o mercado não podem fazer” ou ainda: “Trata-se de construir um país, não para um punhado de privilegiados, mas para todos nós”. O seu governo publicou um Livro Verde que apresenta uma estratégia muito intervencionista do Estado na reconquista económica, nomeadamente para as zonas desindustrializadas – uma rutura ideológica importante tanto com o tchatchero-blairismo como com a doxa europeísta. Por conseguinte, não creio que o Brexit possa ser descrito como “de direita”.

Então, se olharmos para os resultados das eleições legislativas que Teresa May provocou pouco menos de um ano após o referendo sobre o Brexit, o que vê? Em primeiro lugar, vê que, contrariamente ao que se passa em toda a Europa, a afluência às urnas no Reino Unido está a aumentar para níveis próximos dos anos 80 e 90, numa altura em que os eleitores britânicos tinham de fazer escolhas políticas fortes, antes da adesão à UE ter tornado indiferenciadas as políticas conservadoras e trabalhistas.

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Mas também se nota que, ao contrário do que está a acontecer em toda a Europa, os dois principais partidos estão a sair das eleições mais fortes: os Conservadores obtêm 3,3 milhões de votos e mais 5,6% do que em 2015; o Partido Trabalhista obtém 3,5 milhões e 9,6%: Assim, o Brexit produz tanto uma remobilização como uma repolarização do eleitorado, enquanto na UE os partidos conservadores e social-democratas tradicionais veem o seu eleitorado corroer-se ao ponto de terem de governar juntos – quer sejam grandes coligações ao estilo alemão (até quatro partidos nos Países Baixos desde 2017) ou uma coligação de “partidos cogumelos” como se ilustra em França com En Marche de Macron.

Porquê? Porque, na UE, a alternância tornou-se formal e desprovida de conteúdo, uma vez que a UE sobre determina os níveis económicos, orçamentais, monetários, comerciais, sociais, laborais, salariais, o desmantelamento dos serviços públicos, etc. O que disse Juncker na sequência das eleições gregas de janeiro de 2015: “Não pode haver escolha democrática contra os tratados europeus”. Por outras palavras: já não existe qualquer escolha democrática. Então, porquê votar “à esquerda”, uma vez que a esquerda conduz a mesma política que a direita, apesar de alguns ajustamentos de cosmética ? E porquê pura e simplesmente votar?

Os gregos, transformados em animais de laboratório, têm tido uma amarga experiência disso mesmo desde que o chamado governo de esquerda radical traiu os resultados do referendo que ele próprio convocou, para conduzir uma política semelhante ou pior que a dos governos social-democratas e de direita que antecederam o governo Syriza. As consequências políticas desastrosas serão observadas nas próximas eleições legislativas, o mais tardar em setembro de 2019. Em termos de participação: num país onde esta taxa de participação foi desde há muito igual ou superior a 80%, onde esta taxa caiu após a integração europeia, para 56,6% em Setembro de 2015, poderá vir a descer abaixo dos 50%. Em termos de descrédito das forças tradicionais: as sondagens indicam que a rejeição da Syriza só em muito pouco beneficiaria a chamada direita clássica, que parece estar a estagnar nas águas eleitorais mais baixas da sua história.

Na minha opinião, portanto, a dupla lição dos exemplos britânico e grego é a seguinte: com o processo de tornar equivalentes as diversas forças políticas que são forçadas a conduzir a mesma política, o colete-de-forças europeu mina a credibilidade política e mata a democracia; pelo contrário, ao sair deste colete-de-forças, reaviva-se o debate político, recriando-se uma divisão substantiva e permitindo o confronto, mais uma vez, sobre projetos verdadeiramente diferentes, não sobre a elegância, boa aparência ou a idade do capitão.

“Será necessário criar as condições para uma manifestação maioritária que reúna, no arco democrático, pessoas da esquerda e da direita que não concordam com o depois, mas que consideram essencial que haja um depois”. Nestas condições, a saída da UE não pode ser nem de direita nem de esquerda. É apenas uma condição necessária para se poder reconstruir a política. Não se pode esperar que a EU predetermine as escolhas que serão então deixadas aos eleitores para decidir entre projetos concorrentes. É, pois, essencial reabrir o campo dos possíveis. E isto é necessariamente assim, embora não se possa ter a certeza de que as políticas seguidas após a saída sejam  de “esquerda”, mas  uma coisa é certa, é que, sem a saída, as politicas aplicadas serão cada vez mais de “direita”. E para que a saída se torne possível, será necessário criar as condições para uma maioria eleitoral que reúna, no arco democrático, pessoas da esquerda e da direita que não concordam com o que fazer no depois, mas que consideram essencial que haja um depois – como aconteceu no Reino Unido.

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Dito isto, acredito agora que a dissolução da UE deixará de ter lugar de forma pacífica, negociada e regular, como seria desejável. Devido à falta de coragem de todas as forças políticas constituídas, da sua recusa em explicar claramente porque razão é necessário sair deste impasse, da sua teimosia em cultivar ambiguidades e artifícios (Plano A – Plano B, desobediência aos tratados…), o que reflete quer a trágica ilusão de que tudo pode ser mudado neste edifício, quer o desejo de esconder que nada será mudado.

Isto é particularmente verdade para as pessoas de esquerda que permanecem fascinadas por esta jibóia europeia que as engole : ao recusarem-se em levar a cabo um projeto de rutura coerente, fazem logicamente a cama, no eleitorado popular, às direitas alternativas (Orban, Lega, AFD…) que respondem, com outros pontos fortes que não o social, ao seu pedido de proteção nacional. A segunda razão é a incapacidade dos grupos soberanistas de diferentes orientações em se reagruparem numa espécie de novo Conselho Nacional de Resistência suscetível de conduzir a necessária batalha de opinião. Se Asselineau teve o mérito de colocar, pela primeira vez claramente numa eleição nacional em França, a questão da saída da UE, colocou-a em termos demasiado legais para ser ouvida, quando deveria ser colocada em termos resolutamente políticos.

Neste momento, são, pois, na minha opinião, as falhas do euro e da UE que, tal como a União Soviética, provocarão o seu colapso inesperado. Tal acontecerá provavelmente na sequência de um “acidente industrial”, cuja natureza e calendário não podemos prever. Quer se trate de uma nova crise financeira internacional inevitável, de uma queda rápida e massiva do dólar que faça explodir a zona euro em estilhaços pela compressão brutal em 90% das economias da zona euro já em situação de asfixia, que não têm os indicadores económicos ditos fundamentais comparáveis aos da Alemanha, quer se trate da multiplicação de acontecimentos eleitorais como os da Hungria, Polónia, Áustria e Itália, conduzindo a um bloqueio mais ou menos completo da Comissão e do Parlamento, ou…

Mas, nesse dia, os cidadãos dos 27 Estados-Membros da UE compreenderão o quanto foram enganados durante décadas pela oligarquia, bem como pelas esquerdas que se recusaram a enfrentar a questão europeia de frente. Quais serão então as consequências da sua atual incoerência?


0 próximo texto desta série será publicado amanhã, 14/04/2019, 22h.


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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