“É O MAR QUE TRAZ/AS ILHAS NA MÃO” por Luísa Lobão Moniz

Sophia de Mello Breyner é uma figura de referência pela sua sensibilidade poética e pela beleza com quis dialogar com as crianças.

Sophia deixou-nos fisicamente, mas a sua letra impressa perdurará nas histórias para as crianças e adultos da nossa sociedade, assim haja vontade política de envolver de forma positiva e festiva o que Sophia nos quis transmitir durante toda a sua vida

Foi a primeira mulher portuguesa a receber, o Prémio Camões, em 1999. Ficou célebre como canção de intervenção dos Católicos Progressistas a sua “Cantata da Paz”, também conhecida e chamada pelo seu refrão:

 “Vemos, Ouvimos e Lemos. Não podemos ignorar!”

 Teve prémios literários de grande prestígio.

Foi deputada depois do 25 de Abril na assembleia da República pelo Partido Socialista.

Quando era criança foi incentivada numa reunião de família “ A Nau Catrineta”:

A sensibilidade de Sophia foi despertada para a preocupação social e humana, pela dureza da vida dos outros, cujas não conhecia.

Numa noite de grande tempestade uma governanta dizia que debaixo desse temporal os pescadores continuavam no mar e tudo o que o povo desejava era que eles voltassem com vida. «Agora andam os pescadores no mar, vamos rezar para que eles cheguem a terra» (…)1

Da sua infância gostava de recordar a sua casa e tudo o que lá estava, os objectos, mas também os afectos.

Esta minha reflexão não se prende com a divulgação de Sophia de Mello Breyner como poeta, contista, tradutora, mãe, amante da Natureza e como avessa à Cidade, e de muitas particularidades que outros muito melhor do que eu o podem fazer.

Talvez porque sou professora nunca deixei de a referir e de sentir a sua sensibilidade, a importância que dava ao amor e à Liberdade, talvez porque sou Açoriana de azul e verde, não poderia deixar de reproduzir um poema sobre uma terra rodeada de mar por todos os lados:

Açores

Há um intenso orgulho
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior

Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação

Mas este convés
É de terra escura
É de lés a lés
Prado agricultura

É terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores

Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa

As casas são brancas
Em luz de pintor
Quem pintou as barras
Afinou a cor

Aqui o antigo
Tem o limpo do novo
É o mar que traz
Do largo o renovo

E como num convés
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e clareza

É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz
As ilhas na mão

Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas

E foi na Terceira
Com o mar à proa
Que nasceu a mãe
Do poeta Pessoa

Em cujo poema
Respiro amplidão
E me cerca a luz
Da navegação

Em cujo poema
Como num convés
A limpeza extrema
Luz de lés a lés

Poema onde está
A palavra pura
De um povo cindido
Por tanta aventura

Poema onde está
A palavra extrema
Que une e reconhece
Pois só no poema

Um povo amanhece

Sophia de Mello Breyner,

O Nome das Coisas, Morais Editores, Lisboa, 1977

Quando comecei esta reflexão era falar sobre a ligação de Sophia como contista com as Crianças, mas deixei-me levar por uma outra sensibilidade, a da mulher diferente, persistente, lutadora.

“É o mar que traz
As ilhas na mão “

1-retirado, mas simplificado,  de uma entrevista concedida a Maria Armanda Passos, “Sophia, um retrato”, in Jornal de Letras, nº 26, Fevereiro de 1982

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